É fácil maldizer a ambição grandiosa de alguém, como sendo uma paixão infantil, egoísta ou destruidora, porque não gostamos de aturar uma alma que procura horizontes bem mais vastos e intocáveis que nós próprios. Mas no entanto, quando nos confrontamos na rua com o mendigo proverbial perdido para o mundo, a única coisa que costumamos pensar é que um homem sem uma ambição verdadeira na vida não passa dum palhaço com um pé na cova.
Era mais uma noite peganhenta em Lisboa, encharcada dum calor humano que deixava a roupa colada à pele como uma alforreca comichosa, e ao mesmo tempo sentia-se sempre no ar um calafrio familiar de desencanto e solidão que gelava até aos ossos. Ela é tão friaaaaaaaaaaa.
Um contraste bipolar já habitual.
As ruas do Bairro Alto entulhavam-se das mesmas caras, desde miúdas de classe média alta, bem maquilhadas e envoltas em roupas de estilista a vomitarem-se no passeio entre lágrimas, até a drogados sem abrigo de quarenta anos a emborcarem alegremente garrafões de vinho nos patamares dos prédios enquanto têm grandes discussões sozinhos sobre o Benfica ser ou não o melhor clube do mundo. Era uma cena de comover o coração. Como se o álcool fosse o grande unificador social, e toda gente não passasse da mesma merda naquele breve momento de jarda completa. Mas ele perdoa seeeempre.
Um contraste até bastante cliché e nada de extraordinário eu sei.
Ao passar pelas ruas transversais mais isoladas encontro bandos de putos, ainda crianças basicamente de 12-14 anos já agarrados ao tabaco, e a mamarem litrosas, como se tivessem pressa pra crescer e esperassem que algo de muito fixe ocorresse quando se tornassem em adultos. Uma menina de cabelos castanhos e mini saia estava no meio deles, não devia ter mais de 13 anos, mas já estava a ser apalpada entre as pernas por um tipo mais romântico enquanto lhe sussurrava ao ouvido palavras pouco marotas. Aquilo era mesmo uma violação memorável à espera de acontecer. Andei mais à frente, e ao pé dum bar moderno, via-se uma mulher que já podia ser avó de alguém, de cinquenta e tal anos, cabelos, unhas e rosto todo pintados, a tentar meter conversa com um homem mais novo que tinha uma expressão cómica de desespero do género: “Com camandro, só me calha a isto na rifa. Precisava de gastar o Produto Interno Bruto Nacional em shots para enfiar-me na cama com isto.” Coitado nem sequer tem tesãaaaao.
O mesmo contraste geracional do costume... nada de notável, pronto...
Não sei, vim pra aqui para relaxar e distrair-me um bocado mas o que me apetecia mesmo é ir para outro sítio. E eu não estou a falar de Santos ou uma disco apertada qualquer. Mais longe do que isso. Desta cidade. Deste continente. Sabes, nunca te apeteceu um dia largar isto tudo, e fazer algo espontâneo como pegar nas malas e tomar o primeiro avião fora daqui? Para ir ver o nascer do sol nos planaltos verdejantes da Nova Zelândia, ou o sol a cair no horizonte entre as ondas do Oceano Pacífico na costa mexicana. Desde passear pelas selvas tropicais de Madágascar a ver miúdos descalços a jogar à bola na rua numa vila do interior do Brasil. Desde ter conversas interessantes com pescadores esquimós da Gronelândia, a beber uma infusão de peiote com um xamã navajo dentro duma tenda no deserto e finalmente encontrar-nos espiritualmente depois duma vida inteira à procura de nós próprios. (Ou pelo menos ver um dragão saxofonista em cima dum elefante branco em cima dum mota.)
E não é como se haja algo a impedir moi de viajar pra uma terra longínqua, felizmente não tenho responsibilidades, preocupações e ando sempre com alguns trocos. Mas ir sozinho apesar de ser uma grande aventura e de interagires com pessoas duma forma interessante e mais íntima, não é tão divertido como passear e andar na galhofa com um companheiro de viagem que tenha uma personalidade idiota igual à nossa. Como tu.
Mas considerando que nem um gelado vamos comer, não me parece que isso vá acontecer tão cedo. Aahh isto merece realmente um momento de contemplação melancólica tão profuuuunda.....
Um contraste bipolar já habitual.
As ruas do Bairro Alto entulhavam-se das mesmas caras, desde miúdas de classe média alta, bem maquilhadas e envoltas em roupas de estilista a vomitarem-se no passeio entre lágrimas, até a drogados sem abrigo de quarenta anos a emborcarem alegremente garrafões de vinho nos patamares dos prédios enquanto têm grandes discussões sozinhos sobre o Benfica ser ou não o melhor clube do mundo. Era uma cena de comover o coração. Como se o álcool fosse o grande unificador social, e toda gente não passasse da mesma merda naquele breve momento de jarda completa. Mas ele perdoa seeeempre.
Um contraste até bastante cliché e nada de extraordinário eu sei.
Ao passar pelas ruas transversais mais isoladas encontro bandos de putos, ainda crianças basicamente de 12-14 anos já agarrados ao tabaco, e a mamarem litrosas, como se tivessem pressa pra crescer e esperassem que algo de muito fixe ocorresse quando se tornassem em adultos. Uma menina de cabelos castanhos e mini saia estava no meio deles, não devia ter mais de 13 anos, mas já estava a ser apalpada entre as pernas por um tipo mais romântico enquanto lhe sussurrava ao ouvido palavras pouco marotas. Aquilo era mesmo uma violação memorável à espera de acontecer. Andei mais à frente, e ao pé dum bar moderno, via-se uma mulher que já podia ser avó de alguém, de cinquenta e tal anos, cabelos, unhas e rosto todo pintados, a tentar meter conversa com um homem mais novo que tinha uma expressão cómica de desespero do género: “Com camandro, só me calha a isto na rifa. Precisava de gastar o Produto Interno Bruto Nacional em shots para enfiar-me na cama com isto.” Coitado nem sequer tem tesãaaaao.
O mesmo contraste geracional do costume... nada de notável, pronto...
Não sei, vim pra aqui para relaxar e distrair-me um bocado mas o que me apetecia mesmo é ir para outro sítio. E eu não estou a falar de Santos ou uma disco apertada qualquer. Mais longe do que isso. Desta cidade. Deste continente. Sabes, nunca te apeteceu um dia largar isto tudo, e fazer algo espontâneo como pegar nas malas e tomar o primeiro avião fora daqui? Para ir ver o nascer do sol nos planaltos verdejantes da Nova Zelândia, ou o sol a cair no horizonte entre as ondas do Oceano Pacífico na costa mexicana. Desde passear pelas selvas tropicais de Madágascar a ver miúdos descalços a jogar à bola na rua numa vila do interior do Brasil. Desde ter conversas interessantes com pescadores esquimós da Gronelândia, a beber uma infusão de peiote com um xamã navajo dentro duma tenda no deserto e finalmente encontrar-nos espiritualmente depois duma vida inteira à procura de nós próprios. (Ou pelo menos ver um dragão saxofonista em cima dum elefante branco em cima dum mota.)
E não é como se haja algo a impedir moi de viajar pra uma terra longínqua, felizmente não tenho responsibilidades, preocupações e ando sempre com alguns trocos. Mas ir sozinho apesar de ser uma grande aventura e de interagires com pessoas duma forma interessante e mais íntima, não é tão divertido como passear e andar na galhofa com um companheiro de viagem que tenha uma personalidade idiota igual à nossa. Como tu.
Mas considerando que nem um gelado vamos comer, não me parece que isso vá acontecer tão cedo. Aahh isto merece realmente um momento de contemplação melancólica tão profuuuunda.....
........
...........
.................
Ah ok, já acabou.
Seja como for fui parar nesta noite a um bar pacato do Bairro. Estás a ver assim um lounge bar de luzes néon e música chill out com muitos betinhos e rapazes gays onde até te dão um menu lamechas com fotografias? Pronto, era o contrário disso. Encontrava-me num daqueles estabelecimentos à antiga, com uma cabeça de javali e azulejos caricaturais jocosos nas paredes, enquanto o barman é tipicamente um velhote gordo de bigode com um vozeirão que até um morto surdo acordava. Era daqueles sítios que qualquer mulher preocupada com a sua reputação fugiria assustada como se fosse uma infecção vaginal e tu nem bem paga punhas lá os pés. Uma tasca à sério para homens honestos como deve ser! (Ou não.)
Fogo, eu adorava esta espelunca.

Estava eu com um velho amigo, o Rapaz-Cromo, a termos uma velha conversa sobre o modo trágico como o Jimmy Hendrix bateu a bota, sufocado no seu próprio vomitado, e concluímos que não é realmente boa ideia beber sozinho, porque ninguém nos vira as costas se chegarmos a esse ponto. Se ele tivesse um amigo que lhe pussesse direito nessa noite ainda estava a fazer música e lançado albums lamechas nos últimos anos em que só a primeira faixa fica no ouvido.
Ao final de meia hora entra na tasca mais um cliente anónimo. Um tipo de vinte anos e aspecto inofensivo vestido com um pólo desportivo e ténis. Ele chega-se ao balcão e pede ao barman uma cerveja sem álcool. O velho desata-se a rir.
-- Meu rapazola, não temos cá disso. Precisas é de algo com mais estaleca para fazer crescer-te a barba. Vais emborcar uma ginjinha ou uma bagaceira, hein?
-- Ah eu até não me importava, mas tenho uma competição de desporto segunda. Só posso descontrair mais depois disso.
-- Por isso mesmo um copito é que te punha rijo!
-- Pronto, então que seja uma imperial.
Ele bebe lentamente e fica sentado no balcão a matutar para si.
De repente um gajo já profundamente embriagado parte um copo e atira a cadeira para o chão no meio da tasca.
-- Essa grande puta. Já lhe vou mostrar. Vou lhe espancar a ela e a esse cabrão! Eu sou o marido dela. Ela não me pode fazer isso. Caralho! – e começa a gritar uma data de palavrões que não fazem muito sentido, enquanto dá pontapés descontrolados à mesa.
-- Acalma-te um bocado homem. Não é preciso partires a casa. A mobília não tem culpa da tua estupidez! – diz um cliente de meia idade meio irritado.
O bêbado não gostou do comentário e atira-lhe um murro que o mete no pavimento em dois segundos. O barman aproxima-se dele já todo chateado, mas via-se que tinha alguma hesitação em lidar com um gajo de 90 quilos tão frito da cabeça que nem devia sentir grande incómodo se levasse com um camião Tir em cima.
Então o rapazinho que estava sentado no balcão, levanta-se e vai ter com o arruaceiro.
-- Por favor, peço-lhe que deixe em estabelecimento e não arranje mais problemas. – limita-se a dizer muito calmamente para o bêbado.
-- Quem é que tu pensas que és puto? Metem-me os cornos e agora ainda me dizem para onde ir? Vai-te foder! – e prepara-se para atirar outro soco, só que o rapaz já estava preparado para isso, agarra-lhe no braço, torce-o e atira o matulão com um golpe eficiente para o lado. O bêbado não fica muito magoado, mas ganhou sobriedade suficiente para se levantar atordoado e deixar a tasca depressa a cuspir asneiras entre os dentes.
-- Bem jogado rapaz, lidaste com ele como um artista. Onde é que aprendeste a fazer isso? – pergunta o barman impressionado.
-- Hmm, não é nada de especial. Sou um praticante de judo.
-- Tens muito jeito. És um mestre!
-- Ah ah, nem perto, segunda feira, quando for para o torneio nacional, vou ter de lidar com grandes peritos muito mais fortes que eu.
-- Aaah, os nacionais, eh lá que temos aqui campeão!
-- Quem eu...? Eu não sou....
-- GRANDE CAMPEÃO! VAIS ARRASÁ-LOS TODOS! TENHO FÉ EM TI! – grita o barman para toda gente que estava na tasca. – Vem cá que eu ofereço-te uma rodada em tua honra rapaz. – o pessoal anima-se e exclama um viva entusiasmado para o jovem atleta.
O puto estava mesmo envergonhado com a atenção, era uma alma humilde, e ele acabou por sentar-se a um canto ao pé de nós, sorrindo muito e continuando a beber a sua cerveja.
E quando o gajo reparou em mim, tinha de vir falar comigo sobre artes marciais...
Porque pronto, todos os asiáticos sabem karate como é óbvio. É um daqueles esterótipos. Mais valia eu aprender qualquer coisa só para corresponder a essa expectativa.
À medida que eu ia conversando com o tipo sobre diferentes estilos de boxe, filmes do Jet Li, e sei lá mais o quê, típica conversa de gajos que provavelmente acharias uma seca, comecei a sentir qualquer coisa muito distinta nele. A ouvi-lo falar muito animadamente sobre os seus gostos, duma forma intensa e apaixonada, apercebi-me finalmente do quê... Ele era daquelas pessoas que andava sempre de cabeça levantada para o céu azul, com o mundo inteiro nos ombros e uma enorme esperança nos olhos.
É engraçado, eu nem acredito muito na ideia de Deus, pelo menos na versão do Velho Testamento dum cota de barbas vingativo e ciumento que anda a castigar e ditar leis como lhe apetece. Mas neste instante efémero da tua vida, em que alguém partilha contigo os seus sonhos e paixões tão honestamente, parece que neste pequeno espaço entre duas pessoas é que reside um bocado duma sombra quase divina. E é refrescante encontrar de vez em quando alguém assim nesta cidade decadente, torna a vida até bastante interessante. Acho que foi a mesma sensação que tive quando te conheci, e é por isso que eu nunca consegui esquecer-me de ti ao final destes anos...
Mais tarde ele olhou para o relógio e decidiu ir andando.
-- Bom, foi um prazer falar convosco. Tenho de ir. Ainda preciso de ir descansar amanhã. Adeus pessoal.
-- Eh pá fica bem man.
-- E ah, segunda feira se quiserem, podem ver-me na eurosport. Eles vão passar o torneio em directo.
-- Porreiro, eu tenho de ver isso. Eu prometo. – afirmei eu entusiasmado.
Ele desapareceu pela porta fora e uns minutos também bazei para tentar aproveitar o resto desta noite aborrecida.
Nunca cheguei a ver o gajo a lutar. Não sei porquê esqueci-me completamente... e tu? Também já te esqueceste dalguma promessa que fizeste?


0 commentários:
Enviar um comentário