Estava a arrumar as minhas roupas de Inverno no armário, e fui revistando os bolsos dos casacos e das calças porque despassarado como sou costumo sempre deixar montes de euros, pacotes de bolachas belgas desfeitas e tralha espalhada por aí... acho que começo a perceber o motivo prático pelo qual as mulheres levam sempre a casa atrás numa mala pesadíssima, mas acho que se usasse uma daquelas jocosas bolsas de homem, o meu nível de masculinidade era seriamente afectado.

Manpurse!
E ele já não era grande coisa desde o dia em que as minhas colegas de faculdade repararam que eu tinha boxers da Louis Vitton por baixo. Ahem, eu ainda tentei explicar que só podia ter sido a minha mami que comprou e meteu discretamente nas minhas gavetas sem me dizer nada, mas elas começaram a rir que nem umas desalmadas e vi que só estava a enterrar-me mais... baaah....
Quando peguei no meu último casaco que restava, encontrei qualquer coisa estranha num dos bolsos de dentro junto ao coração. Deixei cair pelo chão uma chuva de fragmentos de papéis pretos, um punhado deles, e que tinham um certo tom vermelho escuro sob a luz do sol que entrava pela janela. Mas o que era esta merda pá? Vasculhei o bolso melhor e reparei num caule ressequido duma planta, e apercebi-me então que aquilo foi outrora uma rosa.
Pensei durante um bocado todo atordoado da cabeça, porque é que eu tinha guardado uma rosa dentro do casaco? Não faz sentido. Tinha morrido há tanto tempo que as pétalas tinham-se tornado em pó quase. E foi nesse momento que me bateu a recordação dela, e as memórias associadas vieram todas atrás como uma inundação de esgoto tão enorme que até crocodilos e caranguejos trazia.
Tinha sido há dois ou três anos atrás, num dia solarengo de Primavera, em que eu estava completamente livre sem nenhum trabalhos ou obrigação por fazer, e sem a mínima preocupação na consciência. Realmente este estado de espírito durante a fase adulta é o mais próximo que se pode chamar de felicidade... apreciar um belo dia de folga como se fosse o último. Estava a passear pelo meu bairro, ainda a considerar se ia ao cinema ver uma sessão especial do “Antes do Anoitecer”, ir cortar o cabelo num cabeleireiro clandestino chinês do Martim Moniz ou simplesmente perder-me nos spots do costume da malta até encontrar uma cara conhecida e cravar-lhe um lanche grátis. Ah tantas escolhas e tão pouco tempo!
-- Olá, boas tardes!
-- Hmm... boa tarde... – retorqui eu automaticamente sem saber porquê.
-- Há muito tempo que não o via por aqui. Ainda anda a falar com aquela menina do lado?
Fiquei a olhar para ela um bocado estupefacto por se recordar ainda da minha cara.
-- Isso já foi há muito tempo. Nem me lembrava dela.
-- É caricato, mas o jovem por alguma razão ficou-me na memória.
-- A sério?
-- Sim, pode acreditar. É que todas as pessoas que vêem à loja, têm sempre um motivo qualquer por detrás... Para pedir desculpas por asneiras que fizerem, para engatarem uma alma mais romântica, para celebrar ou chorar uma data pessoal....
-- Ou para fingir aos colegas de trabalho que são amadas quando enviam flores a si próprias no dia dos namorados...
-- Ah ah isso acontece com muita frequência mesmo. Uma em cada dez mulheres com carreira pede-me isso. É trágico! Seja como for, o senhor pareceu-me uma excepção à regra, porque era daqueles raros clientes que não tinham quaisquer segundas intenções. Dava flores só porque lhe apetecia. Porque achava piada à cor dos lírios e tal.
-- Mas donde é que veio essa ideia estranha? A senhora nem me conhece.
-- Eu digo isto, porque inventou aí uma grande história para que eu nunca revelasse o seu nome à menina. Achei graça. Nunca vi ninguém tão desajeitado a mentir.
-- Bah. Preferia que ela nunca tivesse descoberto no fim. Não trouxe nada de bom.
-- Não diga isso, eu acho que vocês podiam se dar lindamente. Porque é que não lhe oferece umas orquídeas frescas? Ela ia gostar.
Esta mulher estava a chatear-me um bocado. Não só porque acho sempre surreal quando uma pessoa desconhecida parece saber mais da nossa vida do que nós próprios, mas ainda nos dá conselhos sobre o que fazer com ela! Sinceramente! Toda gente quer ser a Oprah porra!
-- Nah, eu odeio flores para ser sincero. Qual é o interesse? Morrem passados uns dias. – retorqui eu dum modo muito cínico e racional.
Ela ri-se e pega numa rosa.
-- Claro, claro. Mas está a ver esta rosa? Pode olhar para ela e considerar que vale tanto como a palavra que a significa. Uma ideia ao qual atribuímos uma importância simbólica qualquer nas nossas cabeças, tal e qual como fazemos com tudo no mundo. Ou pode aprecia-la simplesmente pelo que é. E precisamente por durar apenas um momento, e por ter tantos espinhos, é onde reside a sua beleza. Um bocadinho como o amor e a própria Vida, não acha?
Bem eu não sei o que esta florista anda a pensar à noite, mas é pior que a minha professora de Artes e Estética da faculdade com os seus devaneios tão intelectuais que dão a volta e tornam-se mais ridículos que comentários de miúdos do ensino especial.
-- A senhora tem bastante genica para puxar pela sua sardinha. Mas eu hoje não vou mesmo comprar nada.
-- Ah, homem. Leve lá esta rosa, para não se esquecer do que é mesmo importante.
Eu aceitei aquilo só para ela deixar-me em paz, e puder desamparar a loja. Fogo, estava tão contente com o meu dia e de repente fiquei agora um bocado em baixo. Puta que a pariu. Saí de Telheiras e meti-me no metro sem saber para onde ir, absorto completamente nos meus pensamentos desfasados. Na estação ecoava das colunas uma música do grande cocainado Rick James. Não me estava a acalmar nada.
Quando dei por mim, encontrava-me ao pé da tua casa. Oh caneco como é que raios eu vim parar a este sítio? Okay vou bazar daqui, este bairro é uma grande seca. E foi então que te vi a sair da porta do prédio, do outro lado da rua. Tinhas sempre aquele ar característico duma eterna miúda cabeça no ar que não sabe muito bem o que está a fazer, apesar de disfarçares bastante tentando vestir-te sobriamente como uma adulta responsável e com uns retoques de maquilhagem a mais. É por isso que eu mal consigo conter o riso sempre que via a tua fronha, porque parece que vais ser daquelas pessoas que vai passar de pita idiota logo a velhota sábia, e nunca atravessar a dor de corno que é ser uma mulher. Ou não ou não, sabe-se lá o que futuro pode trazer...
Enfim, estava ali na rua, e não me apetecia muito aturar-te, mas já que tinha dado este passeio até aqui podia dizer-te olá antes de me ir divertir com os suspeitos do costume. Subitamente toca o telemóvel, tu atendes toda contente e estavas de costas para mim quando ouço a tua voz quase em êxtase por falares com o amor da tua vida do outro lado. Tive um clarão de lucidez pouco habitual, e sorri. Era inconsequente se isso era verdade ou mentira, o facto é que me apercebi que provavelmente sofria da mesma ilusão... o que é bastante irónico no fundo, porque sempre me fartei de gozar com as pessoas que me chamavam esse exagero vulgarizado.
Pus-me a andar dali antes que me visses e me chateasses o juízo. Estava mesmo um sábado de Primavera prazenteiro.
Meti a rosa dentro do casaco, pus as mãos atrás das costas e desapareci por entre as ruas da cidade. A última coisa que me recordo desse dia é dum velho black de fato, chapéu e óculos escuros a cruzar por mim enquanto passeava o cão.
Abri os olhos e acordei no meu quarto atordoado como o costume. Fiquei incrédulo por ter sido só mais um sonho. Foi mesmo demasiado vívido e realista para o meu gosto. Fitei então o armário e decidi revistar as minhas roupas, mas não encontrei nada a não ser lenços velhos e bilhetes de metro. Até que num dos casacos que eu não vestia há meses, toquei em qualquer coisa elástica e ligeiramente esponjosa. Tirei aquilo para examinar melhor e deparo-me com um preservativo usado todo ressequido e amarelado. Que insólito, porque é que eu tinha guardado aquilo? Puxei pelos miolos para tentar descobrir a origem do dito cujo, e tive um flashback bastante elucidativo.
Há uns tempos atrás, um amigo meu tinha pedido as chaves do meu loft para estar com uma miúda impecável, e mesmo sabendo que ele ia partir-lhe o coração e o rabiosque, dei-lhe as chaves claro, porque sou um tipo porreiro e facilito sempre as quecas dos amigos. É uma questão de princípios! Só que uns dias depois tive de fazer um trabalho com uma colega da faculdade, e por isso fomos para o meu loft, e quando encontro um preservativo usado no sofá... vi logo que linguareira como era ia logo fazer comentários engraçados e espalhar rumores sobre moi...
De volta ao presente, olhei para o preservativo que segurava ao pé da cara e gritei...! Aaaaaaaaaaaaaaahhh..... Deitei o coiso fora e fui tomar banho. Sinto-me tão sujo!!! Com catano, quase que desejei que o meu sonho tivesse sido a sério em vez disto. A realidade consegue ser sempre mais decadente do que as situações embaraçosas que o nosso subconsciente possa inventar, não achas? Ou será que nenhuma das histórias foi bem uma mentira? Bah, o que é que isso interessa?

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