Domingo, Maio 16, 2010

O Sono Inquieto Do Cisne Cromado

Bem, estava na casa de banho, no meu momento solene muito privado a ler um livro. Okay, eu sei o que os médicos dizem sobre isso, e como estar sentado muito tempo na sanita pode causar hemorróidas e outras complicações complicadas que dificultam a passagem livre dos ditos cujos, e que nem toda a fibra e bio iogurtes enfardados diariamente nos salvam dessa calamidade!

Mas eu sou daqueles cromos que só consegue ler na casa de banho, e não ia sair dali tão cedo porque estava entretidíssimo a absorver as pérolas de sabedoria dum manual que arranjei na feira da ladra....

“Curso Elementar Para Varões Sensíveis E Machistas Recuperáveis”


Aqui vai um excerto que googlei:

“O homem nasce livre e vêmo-lo por todo lado carregado de cadeias. É escravo da ideia que lhe inculcaram acerca daquilo que deve ser um homem. Os seus movimentos de aproximação relativamente aos outros homens e às mulheres vêem-se entorpecidos pelas cadeias do patriarcado. Mal o identificam como varão pelos seus órgãos genitais, doutrinam-no num conjunto de obrigações sem outro fundamento além do sexo que lhe tocou por acaso.

Prometem-lhe vir a ser um chefe, mas geralmente só consegue a chefia de uma mulher e de uns filhos cada vez mais lavandiscos. Em contrapartida, é perpetuamente chantageado por um modelo desmedido, paranóico, megalónamo daquilo que deve ser um autêntico homem, um grande homem. Alguns priveligiados, apoiados por factores externos como a riqueza e o poder, exercem uma masculinidade prepotente aborrecendo a vizinhança. Para a maioria dos varões, no entanto, o resultado é hoje apenas a angústia do frustrado ou a vaidade do insensato.

Todo o homem traz dentro de si o cadáver da criança sensível e brincalhona que o obrigaram a estrangular em nome da gloriosa corporação dos varões. Todo o homem traz ainda dentro de sí o gérmem de uma possível pessoa.”


Ia virando as páginas, e abanando a cabeça inconscientemente que nem um papagaio, concordando com a maior parte das observações do autor. E dizia para mim “Eu vou ser um machista recuperável!”

Subitamente, recebo então uma chamada, era uma colega que tinha uma peça de teatro a estrear esta noite e estava a convidar-me para ir, e eu como sou ao telefone, concordo sempre porque não tinha uma desculpa qualquer preparada como “tenho uma consulta com o meu veterinário ou coisa que o valha...” Fogo, nem neste momento íntimo de cagadeira, um homem tem paz. Não há direito! 

Estava sozinho em casa, apenas com a companhia do televisor ligado no quarto a passar o telejornal das 20.00. Como é habitual só davam as mesmas notícias de desgraças genéricas, vulcões, acidentes de camiões, subidas de impostos, o cabrão do papa a entupir o trabalho todo na função pública e a paralisar tudo... etc... e eu pergunto-me como é que seria ver um canal informativo que só passasse boas notícias. Será que não teria audiências nenhumas? Estilo Baby TV, que a malta só apanha às quatro da madrugada quando chega a casa com uma tosga do camandro e começa a filosofar que merda é que é aquilo, quem sou eu, e o que estou aqui a fazer aqui ao certo?

Continuando a folhear o livro enquanto não presto atenção às notícias, de repente ouço alguém a ser entrevistado na rua. Eu reconheci logo aquela voz lamechas e enjoada e senti qualquer coisa a bater dentro de mim. Oh man, não podia ser... Levantei-me num salto da sanita e corri para o quarto. Agarrei os olhos ao televisor e procurei-te mas já o segmento tinha cortado para o apresentador. Okay, eu tinha a noção que era uma coincidência demasiado rebuscada a pessoa que falou seres tu, e ri-me forçadamente, mas mesmo assim eu fiquei ainda à espera de te ver outra vez, fazendo zapping pelos canais como um puto hiperactivo com déficite de atenção.

Só quando olhei lá fora, reparei que estava à janela uma mulher no último andar a fumar à janela. Ela estava fixada na minha direcção, e eu lembrei-me então que tinha as luzes ligadas e as calças para baixo com um estilo e dignidade absolutamente fora de série. Fixe, isto vai para o décimo quinto lugar no top pessoal de momentos embaraçosos da vida do Sr. Cromado.

AAaaaahhhhhhh, apaguei as luzes imediatamente e fui terminar o assunto, rezando para que ela não tivesse visto nada.

Mais tarde, saí de casa para ir lá ver a peça de teatro da Rapariga Artista que tinha andado a convidar impetuosamente toda gente (ou seja a chatear-nos a cabeça até dizermos sim). Eu lá fui me sentar num dos bancos da fila de trás do auditório, juntamente com mais uns amigos estúpidos com quem é sempre engraçado conversar e fiquei à espera que as luzes se apagassem.


O que eu mais gosto no teatro é este momento de antecipação do espectáculo, este burburinho de boas vibrações no ar, o nervosismo e ansiedade disciplinada nos actores, o público a sentar-se enquanto  tem conversas fáceis até ao abrir da cortina. E depois não há nada mais catita que pudermos imergir a nossa consciência durante duas horas num simples palco em que umas quantas pessoas nos fazem acreditar completamente num mundo inteiro de fazer de conta.  
Acho que é uma das últimas acções profundamente sinceras que as pessoas adultas fazem umas às outras. E sabe bem para variar das merdas e mentiras que temos de aturar na vida quotidiana dia após dia.

Quando a peça finalmente começou, acabei por adormecer que nem um camelo narcoléptico passada meia hora. E não foi por mal, eu tentei manter-me acordado, mas era uma daquelas peças pós-modernas com pessoas em fatos de animais estilizados que falavam sobre sentimentos humanos e um texto estranho traduzido do alemão todo pós freudiano, coberto de teoria Gestalt, Würstschen e o raio que o parta, que era tão cerebral que me passava completamente ao lado... Merda, sou mesmo um porco filisteu inculto...!

Só acordei lá para o fim da peça, quando começou a passar o “Quizás, Quizás” do Nat King Cole nas colunas do auditório.




E em palco encontrava-se uma miúda vestida de princesa cisne a morrer nos braços dum príncipe falcão por quem estava apaixonada. Ela sussurra-lhe com uma expressão meiga de alegria amarga. 

-- Tudo o que temos na vida são maus sonhos e sonhos ainda piores... sabes como é, os pesadelos nem são assim tão insuportáveis quanto isso, no máximo passamos a noite a ranger os dentes, às vezes arrancamos um bocado da nossa carne, ou ficamos com marcas ensanguentadas por fecharmos as mãos com tanta força durante noites inteiras estufadas com suores frios. Mas tudo isso é vento e poeira quando acordamos para a realidade, e o que resta no nosso peito é uma sensação de alívio aquecido.

O falcão põe as garras em cima do decote dela muito sugestivamente, enquanto ela continua a falar meio a sorrir e a tossir de dor.

-- Agora quanto aos sonhos verdadeiramente horríveis... esses são os sonhos bons. De esperança. De alegrias passadas. E os nossos corações não foram feitos para aguentar muitos mais desses....

-- Sim. Não foram. Boa noite, minha doce princesa. Boa noite.
– diz finalmente o falcão duma forma cruel e mata o cisne, cobrindo-o com a sua capa. As luzes apagam-se e o público aplaude atenciosamente quando os actores voltam todos a aparecer.

Eu fico muito atordoado com tudo isto e nem sei sequer o que dizer.

Fónix. Que fritanço.

Fui então para o lobby de entrada do teatro, e fiquei à espera da minha colega para a congratular da sua perfomance. Que eu por acaso não me lembrava dela para ser sincero. Hmmm....

-- Então gostaste da peça? – pergunta a Rapariga Artista quando sai dos bastiadores já vestida normalmente.

-- Ah sim, foi... huh... diferente.

-- Pá, não estejas com cenas politicamente correctas. Diz lá a verdade!

-- Ok, pronto não é bem o meu género de história...

-- Mas gostastes do meu papel ao menos? Eu era a Pomba Vagabunda. Esforcei-me tanto. – ela gesticulava sempre imenso quando falava. E eu estava a tentar fazer que ela não falasse muito e entrasse num monólogo maluco.

-- Sim claro, tavas muito bem. – menti eu entredentes.

-- Ai é? E o que é que achaste? Enganei-me ali numa linha. Viste? Parecia uma Pomba Badalhoca.

-- .... All right eu admito, adormeci a meio da peça. Sorry.

-- Bah, és mesmo um gajo insensível. Não tens maturidade nenhuma nessa cabeça.

-- Quem eu?

-- Vai lá mas é ver os teus filmes de super heróis e de porrada!

-- Bem que estereótipo confortável em que me metes. Eu posso ser um machista em recuperação, mas não quer dizer que só aprecie cenas com testosterona e explosões. Sou mais que isso, e também tenho simplesmente os meus gostos pessoais como toda gente. – discuti eu quase revoltado, mexendo muito os braços.

-- Pois, pois, só quando tiveres mais experiência de vida, é que és capaz de apreciar uma boa peça de teatro! Ah ah.

-- Tretas.

-- A sério, como nunca ninguém te partiu verdadeiramente o coração e te fez perder o sono à noite, não tens palavra na matéria, né?

-- Bah, whatever. – comentei eu meio chateado. Estava a aturar a Rapariga Artista quando vejo através da porta de vidro uma miúda de boina na rua a passar com um tipo. Era mesmo parecida contigo, mas desta vez eu tinha a certeza que não eras tu. Encontrar-te aqui num teatro independente duma peça obscura numa sexta à noite era.... Exacto. Tão improvável como ver-te num grupo de apoio para doentes de impotência sexual. Farto disto tudo, despedi-me da minha colega, vesti o meu casaco e decidi bazar para um copo com os amigos antes de ir para casa.

Nessa noite acordei com suores frios às caneladas com a parede.

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