Terça-feira, Abril 27, 2010

Visões Incomodativas A 10000 Metros De Altitude

Há 13 meses atrás:


O ar condicionado reciclado dentro da cabine estava a dar-me algumas dores de cabeça. Enquanto que a diferença da pressão atmosférica torturava-me os ouvidos mesmo depois de mascar meio pacote de pastilha elástica. A bebé a chorar que nem uma desalmada na fila detrás berrava tanto que as únicas alturas em que parava era quando se engasgava periodicamente com a sua própria saliva. Senti pena pela mãe de vinte e tal anos que viajava sozinha. Não vi nenhuma aliança na mão dela. Provavelmente foi convencida por um malandro qualquer que seria romântico vir-se dentro dela sem preservativo. As coisas legítimas e parvas que toda gente faz por amor, não é?
Hmm, ou então estava metida com um tipo do qual não conseguia fazer um homem honesto que tivesse a decência de se casar com a miúda para depois puder divorciar-se e ficar com metade do dinheiro. É por isso que existe apenas um bom conselho de duas palavras para futuros noivos que resolveria muitas dores de cabeça: Acordo Pré-Nupcial
“Se gostas verdadeiramente de mim, deixas-me ficar com tudo!”

O ecrã minúsculo incorporado no banco à minha estava a passar pela quinta vez o “Mamma Mia”, e ver a Meryl Streep a cantar Abba só uma única vez, são já realmente demasiadas vezes para o meu gosto. Mesmo que me tivesse tornado no tipo mais gay de Telheiras, vestisse sempre roupa interior apertada de latéx e comprasse todos os anos calendários de bombeiros em fato de banho.
A assistente de bordo passa por entre as fileiras de passageiros empurrando o carrinho de bebidas. Era uma mulher quarentona de ar cansado, com uma máscara permanente de maquilhagem plástica que não disfarçavam a desilusão resignada nos olhos dela, carregando um fardo de quem já viajou mais de dez milhões de quilómetros, a distância de trinta viagens à lua e no entanto nunca se sentiu que foi a algum lado na vida. Ou isso ou simplesmente estava com uma jarda imensa da noite anterior.
Ela pergunta-me o que eu quero beber num tom monocórdico.

-- Eu quero a bebida mais exótica que ai tiver! – peço eu alegremente.
-- Não temos nada parecido, só sumo de laranja, coca cola ou água. – acho que ela estava sem paciência para certos cromos como moi.
-- Awhh... e que tal qualquer coisa com álcool para fazer o tempo passar mais depressa?
-- Não servimos bebidas alcóolicas na classe económica. – retorque ela carrancuda sem olhar para mim.
-- Então, por favor, abra aí uma pequena excepção para este pobre e indigente rapaz que não tem nada!
-- Lamento mas não posso fazer isso. É contra o regulamento. – limita-se ela a dizer. Eu não sei se isso era mesmo uma regra ou se era porque ela não ia com a minha cara, mas acabei por pedir água e deixá-la ir.

Fogo, merda pra esta transportadora nacional, que saudades das assistentes francesas e escandinavas, tão lourinhas, frescas e que não nos olham condescendentemente. Porque até o champanhe ou vinho mais rasca torna-se uma delícia quando é servido com um sorriso caloroso.
Entediado com este vôo de regresso a Portugal com mais de 8 horas, pus os meus fones, e afundei-me na minha playlist tripada para viagens intermináveis, enquanto que observava a vista através da janela.


A atmosfera nocturna lá fora tinha um aspecto irreal, um quadro abstracto de tons fúnebres que me sugava o olhar e consumia a alma. Por entre as nuvens completamente negras, via-se só no meio um horizonte de céu azul escuro que ainda apanhava um resquício de sol nesta rotação da terra, um último gemido de esperança do dia que se já foi. A olhar lá para fora, senti-me a afundar-me num abismo de 10000 metros de profundidade, e a temperatura do meu peito a descer para níveis gélidos...


Ah fogo, se calhar não estava realmente meio em baixo por causa do cenário soturno lá fora, nem sequer porque estava a deixar o calor escaldante do Brasil para voltar ao clima cinzento da ocidental praia lusitana. Mas mais por aperceber-me que independentemente do continente que fosse, ou das gargalhadas incontáveis partilhadas com outras pessoas, as saudades duma certa bimba que por alguma razão considerava especial teimavam em deixar-me sossegado. É uma grande dor no rabo quando nos damos conta da futilidade de todas as nossas acções para alcançarmos uma noite bem dormida, quer dizer, deve haver algum solução prática para resolver isto facilmente, não é? Talvez hipnose ou fazer uns buracos medicinais no crânio, sei lá. Qual é o teu truque pessoal, huh? Conta-me! A sério! Pára de estar tão calada! Bem, enfim, acho que posso sempre tomar dois Ambiens e ferrar um sono justo.

Gradualmente as assistentes foram distribuindo cobertores e almofadas, as janelas todas corridas, e as luzes da cabine apagando-se uma a uma, excepto a da mãe trintona que estava a ler absorta um romance lamechas com vampiros adolescentes. Ai, Edward, és tão bonito! Gostava tanto de ter um amor como tu! Bebe o meu sangue e possuí-me!
Pairava um silêncio humano profundo, penetrado apenas pelo murmurar obssessivo dos motores a jacto, como se o tempo estivesse parado, e tivéssemos entrado numa nuvem de turbulência que ia dar a uma dimensão paralela, onde as pessoas se tornavam todas em estátuas impotentes cheias de sonhos que não podiam realizar.

Caminhava aos tropeções para um estranho estado de ansiedade e desconforto mental tão familiar nestes últimos anos... não consigo mesmo escapar de mim próprio... Ok existe um bom remédio para isso. Bolachinhas de bacon... tão boas e estaladiças que fazem um coração dum homem a sério chorar por dentro de alegria! Tirei um pacote que tinha na mala e abri-o todo esfaimado. Mas era uma daquelas embalagens que por muito cuidado tivesse, fazia um estardalhaço do camandro no silêncio do avião, e a velha de fato treino que estava a dormitar na fila ao lado, lançava-me uns olhares de querer arrancar-me os meus testículos, passá-los numa trituradora ergonómica e ultra eficiente que comprou nas televendas, e depois alimentá-los aos gatos persas. Ah, os meus pobres tomates!!

Voltei depois para as minhas tentativas em adormecer, mas não parava de me revolver no meu banco, como uma salsicha num espeto, realmente, dormir sentado com dores de pescoço é um nível de inferno muito especial. Ouço de repente alguém a passar por mim, abro os olhos meio fatigado e vejo uma mulher vestida de preto a descer o corredor do avião. Eu reconhecia aquele andar desajeitado e marreco em qualquer lado. Não podia ser... A sério que não. O que é que estarias tu a fazer aqui? Pronto, reflecti eu, podias estar a voltar dumas férias bem passadas lá fora e por coincidência encontrares-te no mesmo avião... É improvável mas não é impossível. E é o género de coisas que está sempre a acontecer em filmes muito maus em que o público bate com a mão na testa quando vê cenas destas.

All right, só havia uma acção a tomar para deixar-me descansado, levantei-me do meu lugar e fui certificar-me se eras mesmo tu. A mulher desapareceu por entre os cortinados que iam dar à secção da primeira classe, e eu não fiz-me de rogado e fui atrás dela. Não havia ninguém de pé, por isso procurei-a em todos os lugares dos passageiros, mas além de homens de negócios quarentões a dormirem de boca aberta e velhotes de aspecto endinheirado não havia mais ninguém. Fiquei aturdido.... eu podia jurar que ela tinha vindo para aqui...

-- Desculpe-me, posso ajudá-lo? – pergunta-me uma assistente que estava a observar-me muito desconfiada como se eu fosse um terrorista maluco com uma bomba enorme dentro das calças.
-- Ah, estava à procura de uma rapariga que veio para aqui há um minuto.
-- Não entrou ninguém além de o senhor.
-- Ok ok, esqueça lá isso, deve ter sido só impressão minha. – disse eu conformado.

Voltei para o meu lugar, suspirei, esperando impacientemente que a viagem terminasse para voltar à minha casinha em Telheiras. Sabendo que provavelmente ia avistar-te outra vez em cada esquina, cada loja, bar de strip ou tasca rasca. Em todo o lado. Todos os dias. Que imbróglio do catano. É por isso que não sentia mesmo muita falta de Portugal, não tenho nada aqui à minha espera... Nem sequer um cão labrador ou um cágado chamado Bibi.

O comandante pediu para apertar os cintos, lá em baixo via-se já os telhados de Lisboa, recortados por um emaranhado de ruas pontuadas por luzes nocturnas e faróis de carros.

E sabes uma coisa? Digam o quiserem do Brasil, local com imensa criminalidade nas grandes cidades, falta de consciência ambiental e problemas de corrupção, mas ainda assim quando o avião atravessa o oceano e começa a sobrevoar terras de Vera Cruz, a malta não pára de assobiar durante meia hora entre salvas de palmas, e grita coisas como: É isso aí, estamos chegando à nossa santa terra, galera! Finalmente! Aleluia! Estava morrendo de saudades.

Quando o avião aterrou no aeroporto, ninguém sequer aplaudiu o bom trabalho do piloto.

Eu comecei a bater palmas lentamente... Por alguma razão até me sentia contente no fundo com isto tudo, mas parei logo a seguir porque fiquei com vergonha por ser o único totó a fazer isso... ah ah... e tu o que é que farias?


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