Um casal de velhotes partilham um momento perfeito no parque, sentados sob um sol primaveril de aquecer o espírito.
-- Então não estás feliz? – pergunta ele abraçando a sua alma gémea de regime full time.

Estava ontem na cama sem conseguir dormir, a revirar-me como um carapau fora de água, sem conseguir respirar, e não sei porquê tinha um peso desconfortável em cima do peito, pior que uma baleia obesa a parir gémeos. Nessas alturas a única bóia que me salva no meio da tempestade nocturna é um truque psicológico muito básico, estilo o mito da avestruz que esconde a cabeça na areia. (Okay, hoje a minha imaginação parece um jardim zoológico ilegal)
O que eu faço é imaginar o meu sanctuário pessoal. Pode ser um sítio, um momento na tua vida ou até mesmo uma história a partir do qual crias um mundo inteiro, e é onde uma pessoa se sente segura, e consegue bloquear a sua consciência das tareias que vida quotidiana nos dá. Às vezes em algumas ocasiões extremas existe malta que nunca mais volta para a realidade e vive nesses universos indefinidamente. Sortudos do caraças... Ou não. Ou não.
Sanctuário......
Como por exemplo....
Ainda te lembras......?
Do dia mais bestial da tua infância?
Aquele dia que sempre guardaste no teu âmago, como uma polaroid imaginária?
E que faz-te sorrir sempre que essa recordação vem à tona no tempo presente...?
Pergunto-me como é que foi esse dia...? Enfim, sei que não vais contar-me, e está tudo bem. Há certas memórias que só queremos para nós próprios. Quase como um amor possessivo pelo qual temos algum receio de partilhá-lo e de perder o seu valor hipotético.
Hmm, mas deve ter sido um dia mesmo porreiro.
Só é pena eu não ter te conhecido quando éramos miúdos. Teríamos brincado o dia todo até cair, e provavelmente teria largado-te nas trombas um belo balão de água cheio de mijo... Hmm, agora que penso nisso, era mesmo um cabrãozinho levado da breca, e se calhar seria uma memória mais traumatizante do que preciosa....
Ah ah, fecho os olhos e sonho...
Foi o primeiro o dia de férias de Verão quando acabei o quarto ano. E o meu pai estava a levar-me para a praia. Sentado no banco detrás, com a cabeça encostada na janela do nosso BMW mangenta choque à anos 80, ia vendo o cenário lá fora a passar a alta velocidade. Os raios do sol esbatiam-se por entre os lenços brancos de nuvens num céu azul profundo, iluminando a paisagem de prados e planícies verdes dum brilho tão dourado que parecia irreal. Era uma atmosfera idílica difícil de descrever, e sei que imaginar isso através dumas poucas palavras vazias não é a mesma coisa, mas usa os teus neurónios criativos, se é que tens alguns.
O meu pai mete uma cassete de disco fever no auto-rádio e viagem torna-se tão groovy que o tempo deixa de ter qualquer significado, parecendo durar para sempre como os meses de lazer que se estendiam à minha frente, e acho que já ouviste isto, mas este momento breve de alegria é o mais próximo da ideia de eternidade que alguém pode sonhar tocar...
Tocar...
E então começo a notar onde é que está o resto da minha família...? Estranho não se encontrarem aqui. E porque é que o meu pai não fala, nem consigo ver a cara dele...? Não me consigo recordar dele... ou disto tudo... E subitamente bate-me a recordação dentro de mim que ele nunca me levou à praia de férias quando eu era puto...
Sanctuário...
Abro os olhos e reparo que me encontro no salão de entrada da minha faculdade. Decorações e fitas foleiras estão espalhadas pelas paredes e no tecto. Era o primeiro dia do meu ano de caloiro no curso. Lembras-te da sensação?
De ter o mundo a teus pés, das possibilidades do futuro, do burburinho incontrolável de esperança que escorria do teu coração em golfadas cada vez maiores que parecia que o teu coração não conseguia conter tanto... era uma inundação de boas vibrações talvez um bocado ingénua mas sem dúvida completamente... genuína...
Andava ainda pouco familiarizado pelos longos corredores do edifício, passando por vários grupos de estudantes jovens, putos e pitas de 18 anos, com aquele ar meio inseguro ou meio convencido acabado de sair do secundário. Não conhecia ninguém mas estava certo que ia fazer amigos porreiros, sempre foi fácil para mim apesar de ser um cromo incurável como já sabes. Fogo, estava tão contente!!!! Finalmente, andava a estudar o que sempre desejei, com colegas que tinham os mesmos interesses, no caminho para ser um homem como deve ser e....
Quando subo as escadas do primeiro andar para ir almoçar, vejo através da janela no terraço da cantina, umas miúdas montadas em cima de rapazes como se fossem burros de carga. Estavam a fazer uma corrida, enquanto que uma pequena multidão aplaudia e assobiava:
-- Vá lá garanhão! Mais depressa! Queres ser o caloiro do ano ou não???
-- Levas umas palmadas se não galopares como deve ser ó caloiro!
Eu fiquei a olhar ligeiramente pasmado com esta cena, ainda a pensar que tinha entrado no mundo adulto e não sei quê.... Okay, já não está aqui quem falou. Oh man, espero que não me praxem e me façam entrar em coma alcóolico.
Na cantina fui escolher o meu menu que vinha com uma gosma amarela altamente duvidosa que parecia ser um pudim. E quando peguei no tabuleiro nos braços, fiquei meio desorientado naquele instante em que tinha de encontrar uma mesa certa onde me sentar pela primeira vez....
Até que reconheci uma cara numa mesa redonda pequena ao pé da janela, onde estava um rapaz sentado muito relaxadamente. Eu tinha visto o gajo no seminário de abertura e por isso ele chamou-me para abancar-me ao pé dele.
Começámos com a cavaqueira típica entre dois desconhecidos, que são das conversas mais sinceras que existem, sem rodeios e merdas. Era um tipo moreno, de cabelo claro e olhos meigos sem quaisquer segundas intenções. Eu perguntei-lhe donde é que ele vinha porque notei que ele tinha um sotaque ligeiramente pronunciado. Ele responde-me que nasceu em Portimão e deixou a família e os amigos para vir estudar sozinho em Lisboa. Ele era o Rapaz-Algarvio, e o objectivo dele era um dia fazer filmes que as pessoas gramassem ver, e por isso inscreveu-se na escola como toda gente. Obviamente que eu também tinha um sonho pouco original como o dele, por isso não gozei com ele. E a conversa passou então para os nossos hobbies e gostos pessoais. Ele era um fan do Evangelion, uma série animada sobre personagens falhadas cheias de traumas psicológicos, envolvidas em conspirações complexas e batalhas entre monstros e robôs gigantes. Eu disse que toda gente em artes gostava do raio da série, apesar de ser um bocado melodramática.

E não sei porquê senti-me tão à vontade com ele que lhe confessei que gostava de escrever. Era a minha grande paixão há anos, e que passei muitas noites entre páginas incontáveis de histórias. E ele riu-se um bocado, olhou para mim muito seriamente e comentou como era um passatempo um bocado parado. Sorri e concordei com ele.
Tornámo-nos amigos eventualmente, talvez não best friends forever, mas ele era um bom camarada.
E quando acabei de almoçar, e ia a despedir-me dele apercebi-me que não me lembrava mais desse momento... porque nunca aconteceu... nunca lhe disse adeus no fim... nem nunca vou puder... e se eu soubesse que ele precisasse de ajuda talvez ainda estivéssemos a fazer piadas cretinas sobre atuns e algarvias oferecidas...
Porque não há nada mais repugnante quando falhamos como amigos. Torna-se tudo uma grande farsa, e todas estas relações à nossa volta parecem um circo de palhaços a tentar imitar qualidades humanas. E é tudo tão grotesco.
Porra, na minha próxima encarnação vou ser a puta dum tubarão-areia, pra devorar logo os meus irmãos e irmãs no útero da minha mãe e tornar-me no predador no topo da cadeia alimentar. Finalmente ninguém vai impedir-me de comer atum fresco todos os dias até estarem extintos, e que se foda o ecossistema todo!
Foda-se...
Sanctuário...
Abro os meus olhos...
Estava a caminhar por uma rua movimentada abaixo num distrito de prédios de escritório. Quando passo por uma montra dum café, fico chocado com o reflexo à minha frente. Era uma versão mais velha da minha pessoa, talvez com trinta e tal anos, cheio de gel no cabelo e usava um fato preto feito à medida, óculos de ouro Cartier, caneta Dupont no bolso, Rolex platinado de 10.000 euros no pulso, mala de pele na mão, fogo, era uma triste colecção ambulante de marcas de luxo. Como é que eu tinha chegado a este ponto? Tinha me tornado naquele género de pessoa que desprezava quando era jovem. Bastante irónico, mas uma ocorrência tão vulgar que a sociedade moderna desabava se o contrário acontecesse mais vezes.

Bah. Fiquei a observar o meu reflexo estranhado e apesar de ter tudo que desejava, perguntei-me porque é que não me sentia minimamente satisfeito...? Agora que tinha dinheiro para completar todas aquelas cadernetas de cromos da Panini que deixei com buracos, também já não posso impressionar os meus amigos e ser o maior da turma!!!
Continuei a andar pelos quarteirões, sem saber para onde ir, e reparo então ao pé duma porta, numa placa com o seguintes palavras: Dra. Carvalho – Psicóloga Clínica
E por um impulso incompreensível que eu não consigo explicar, decidi entrar e subir para dentro do prédio, não que eu estivesse a precisar de terapia ao contrário da opinião da maior parte das pessoas que não me consegue aturar, simplesmente fui porque sim. Quando entro na sala de espera do consultório da doutora, vejo um velhote black de óculos escuros sentado a um canto com um cão preto aos pés, completamente estático, a segurar uma bengala entre as mãos. Pressenti uma aura depressiva nele terrivelmente familiar, e desviei logo o olhar dele. Virei-me então para a recepcionista do sítio, uma miúda morena de madeixas azuis e t-shirt com um desenho duma cobra a comer a sua cauda. Ela diz-me que que eu tenho uma marcação livre a seguir como se soubesse que eu ia chegar, e eu fico a olhar para as revistas da sala que por algum motivo estão com as palavras todas desfocadas e tortuosas estilo minhocas sob o efeito de LSD.
Quando finalmente chega a minha vez, entro para o gabinete meio atordoado, e descubro pra minha grande surpresa que a mulher atrás da secretária eras tu. Fiquei com uma vontade de pôr-me a fresco antes que me reconhecesses. Mas tarde de mais, notaste logo a minha presença e cumprimentaste-me animadamente. Aproximei-me e apercebi-me que a idade não foi nada meiga para contigo, de cabelos brancos, óculos e linhas vincadas na testa, tinhas um ar de já ter quarenta anos, mesmo que estivesses longe disso. Comentas como há muito tempo que não nos víamos e perguntas-me o que é eu andava aqui a fazer.
-- Nada. Apenas passei e lembrei-me de dizer olá. – inventei eu naquele minuto.
E começas a meter a conversa em dia, quer dizer era mais um monólogo, falando sobre o tempo, o teu trabalho, o teu marido, a tua família e mostras-me as fotografias dos filhos que tens na carteira porque achas a coisa mais interessante do mundo. Olhei para um miúdo ranhoso inocente e uma rapariga sorridente a brincarem no quintal da tua casa. E o teu rosto iluminava-se todo quando me contavas as brincadeiras que faziam, os gostos deles, e aventuras que tinham juntos.... e foi nesse momento que me senti finalmente em paz ao final de tantos anos. E encontrei finalmente o meu sanctuário. Ao ver-te moderadamente feliz. E era a emoção mais doce amarga que alguma vez provei.
-- Nada. Apenas passei e lembrei-me de dizer olá. – inventei eu naquele minuto.
E começas a meter a conversa em dia, quer dizer era mais um monólogo, falando sobre o tempo, o teu trabalho, o teu marido, a tua família e mostras-me as fotografias dos filhos que tens na carteira porque achas a coisa mais interessante do mundo. Olhei para um miúdo ranhoso inocente e uma rapariga sorridente a brincarem no quintal da tua casa. E o teu rosto iluminava-se todo quando me contavas as brincadeiras que faziam, os gostos deles, e aventuras que tinham juntos.... e foi nesse momento que me senti finalmente em paz ao final de tantos anos. E encontrei finalmente o meu sanctuário. Ao ver-te moderadamente feliz. E era a emoção mais doce amarga que alguma vez provei.
Ao longe ouvi qualquer coisa a apitar.
Queria decorar cada nuance do teu riso irritante antes que me esquecesse de novo...
Tocava cada vez mais próximo... até que....
Acordei sozinho no meu quarto com o telemóvel a chamar. Fogo... Nem podia aturar-te nos meus sonhos durante um bocado sem vir alguém a chatear. Grande merda. Atendi o telemóvel um bocado irritado, era o meu amigo o Rapaz Prático.
-- Olha man, faz um grande favor e empresta-me a tua câmara. – pede ele logo em pânico.
-- Seu cabrão desnaturado, acordaste-me pra isso?
-- Vá lá. Preciso mesmo, estou completamente à rasca pá.
-- É sempre a mesma história. Bah, ok tá-se bem, mas vens tu cá buscar hoje, e depois não ficas com isso eternamente! Não sou a santa casa de misercórdia!
-- Brigadão meu. Salvaste-me a vida.
Desliguei o telemóvel. E fiquei pensativo até que constatei estava com uma tesão matinal quase a sair dos boxers. Bom, acho que o meu sanctuário na próxima meia hora vai ser o chuveiro e uma embalagem de body lotion.

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