Sábado, Abril 17, 2010

Os Fura Corações

“Sabes o que realmente distingue as pessoas? É que até a mulher mais egocêntrica e insensível quando conhece o seu grande amor, seja algum amante ou a sua própria criança, é capaz de dedicar parte da sua vida a eles. Mas um homem bom com ambições, vive e morre sempre para si mesmo.”

 


Há um mês atrás, estava eu e o Rapaz Cromo, um velho colega de faculdade, meio perdidos numa daquelas travessas estreitas entre o Bairro Alto e o Chiado à procura dum tal bar “muito catita, cheio de miúdas fáceis, com bebidas ao desbarato” que supostamente era pra aqui. Eu tinha sérias dúvidas de que algo do género sequer existisse por estas bandas ou mesmo nesta cidade e já estava a calcular que ele tinha é sonhado com o raio do sítio.

De repente ao caminhar por uma rua abaixo, começámos a ouvir assim os graves duma música a bombar sobre nós. Olhámos para cima e provinha dum apartamento no segundo andar, com as janelas abertas e as varandas cheias de gente.




-- Parece que aquela malta está se a divertir. – comentou o Rapaz Cromo.

-- Mais do que nós estão de certeza, mesmo que seja alguma festa de arromba da Juventude Cristã, em que o clímax é cantarem “Põe a mão na mão do meu senhor... da Galileiaaa!”.

-- Hmm, podíamos entrar lá... – diz ele muito singelamente como se fosse a coisa mais natural do mundo.

-- Oh man, tás maluco? Chega a uma idade em que já é embaraçoso ser um penetra descarado. Tipo 40... okay, eu não estou a apoiar as tuas ideias malucas.

-- Então, onde é que está o teu espírito de aventura? Bora lá, é só beber uns copos à pala e depois fazemos o upgrade.

-- Já estou a ver o dono da casa a expulsar-nos a pontapé para rua depois de partires a mesa porque achaste boa ideia começar a fazer doce amor com a mobília.

O Rapaz Cromo chega-se à porta e toca na campainha do segundo andar.

-- Isto não vai resultar, vais dizer que somos quem? Nós não conhecemos ninguém, pá.

-- Tá calado, só tens de sorrir e dizer que és amigo do Zé Manel.

-- Qual Zé Manel?

-- Exactamente.

-- “Quem é?” – soa uma voz feminina alegre pelo intercomunicador.

-- Somos amigos do Zé Manel, queremos álcool!

-- “Ah ok, ok, entrem.” – e abre-nos a porta assim sem mais nem menos.

-- Meu Deus... E agora? O que é que fazemos lá em cima?

-- Não te preocupes. Relaxa, só tens de entrar na onda e imaginares toda gente sem roupa. Até mesmo o gajo gordo gay e atiradiço que se ri de todas as tuas piadas. Vais ver que tudo corre bem.

-- Mas que imagem reconfortante.

Subimos as escadas, e admito que tinha um nó na garganta a querer sair-me da boca, já não estava habituado a estas cenas tão mal planeadas. Okay, talvez não tão imponderado como aquela noite em que me atirei à porrada contra cinco parvalhões, mesmo sabendo que ia perder e levar na boca.
A porta de casa estava entreaberta, e atravessamos o vão para dentro daquele apartamento antigo com um soalho de madeira rangente, cheiro a suor e envolto numa nuvem de fumo espesso proveniente duma plantação inteira de tabaco ardido. Os corredores estavam repletos de pessoas, com ainda mais malta concentrada na cozinha e na sala de ambos os lados. Era uma festa caseira de estudantes e acho que ninguém ia dar mais pela presença de dois marmanjos ligeiramente suspeitos.

-- Okay, estamos aqui dentro e agora?—perguntei eu ao Rapaz Cromo.

-- Então vamos nos misturar, beber, e se alguém começar a falar contigo, pergunta pelos seus hobbys esquisitos. As pessoas adoram falar de si próprias.

-- Eu sei isso demasiado bem... – subitamente tenho um flashback rápido para uma noite em que mais um bêbado maluco não pára de falar-me sobre hóquei em patins e a conspiração em como a comida comercial de cão diminui a esperança de vida dos animais, e depois subitamente vomita-se nos meus ténis novos. Porquê....?!

E assim fomos conviver com o pessoal, que era um grupo de gente bem diversificado, oriundos de terras exóticas desde a Islândia até à Reboleira, conversando como se fóssemos todos amigos de longa data, e passado uma hora ainda não tínhamos sido postos na rua. Aliás, isso até seria algo excitante para variar, porque o problema destas festas é que morrem muito depressa visto não haver entreternimento de qualidade, e eu não estou a falar em drogas recreativas, mas tipo strippers anãs a espatifarem com saltos stilletto algum idiota mais rebarbado que não conseguia guardar as mãos pra si. Irónico como até as festas para o qual não fui convidado, acabam por ser uma seca moderada... afinal, existe um limite de vezes que uma pessoa aguenta com vinho do pacote do Lidl, das mesmas histórias idiotas repetidas para desconhecidos e de encores a mais do “I Shot The Sheriff” do gajo da guitarra de cabelo comprido. Porra eu queria é dar-lhe um tiro nos cornos.

Realmente tenho é de penetrar em festas a sério, estilo uma pool party para adolescentes bisexuais, ricas e com problemas emocionais, em que houvesse um portentoso forno de barbecue. Fazia aí uns grelhados de trazer lágrimas aos olhos, vestido com o meu avental, “Beijem o Cozinheiro”, espalhando maionese por todo o lado como se não houvesse amanhã.... aqui e ali...... ahhhh..... mas o que é que raios estou eu pra aqui a fantasiar...??


Encosto-me à parede do corredor e um tipo black altíssimo de cerveja na mão passa por mim e pergunta-me:

-- Então, mano, estás te a divertir...?

Eu abano a cabeça e sorrio exageradamente.

-- Muito, muito. Ainda bem que o Zé Manel nos contou sobre esta festa.

-- Quem?

Uups... acho que era mesmo desta que ia ser apanhado.

-- Aquele gajo da faculdade, costuma ir às aulas nocturnas e está sempre a falar de hóquei e da conspiração por detrás das empresas de comida de cão. Ah aquilo realmente é prejudicial para a esperança dos bichos! Não podes mesmo comer aquilo... Euh... – inventei eu sobre pressão.

-- Hmm, não conheço o bacano. Ele é amigo de quem?

-- É daquele gajo e tal. Bem essa cerveja está a acabar, é melhor ires buscar outra para te fazer companhia!

-- Sim, man, eu vou buscar daqui a bocado. Mas diz-me lá donde é que tu vens? – e o chato continua com o interrogatório todo curioso, caraças não me largava. Até que notei numa louraça jeitosa com um mini-vestido preto que passa por nós.

-- Hey pá, ela estava completamente a olhar para ti. Parecia querer comer-te com os olhos.... – inventei eu.

-- A sério? Quem ela? A mim?

-- Sem dúvida, se eu fosse a ti, ia atrás dela, acho que tens boas hipóteses de lhe desentupir a canalização.

-- Mano, é mesmo uma dama boa. Achas que consigo?

-- Tens de acreditar em ti mesmo! Ela parece ser uma maluca doida por pau africano!

-- Okay, vou já, deseja-me sorte!

Suspirei de alívio quando o gajo bazou para a cozinha, enquanto que eu escapuli sorrateiramente para a sala. Cansado de estar em pé fui então sentar-me no sofá velho ali ao canto, tinha tido um dia longo a trabalhar até às 23 da noite e fechei os olhos por um bocado.

E pergunto-me o que é que andarás agora a fazer... bem, provavelmente a tentar dormir algumas horas, visto ser dia de trabalho, antes de partires outra vez para o carrocel da rotina diária, andando às voltas e às voltas sem nunca ir a algum lado. Suponho que todos temos apenas o que merecemos. Ou aceitamos conformados essa verdade, ou então mandamos tudo para o caralho e fazemos alguma coisa acerca disso. No entanto.... acho que no fundo gramava partilhar um bocado desse fardo e tornar a caminhada menos chata. Mas sendo tão orgulhosa como eu, isso provavelmente nunca vai acontecer, não é?


O DJ inoficial muda de mp3 e mete uma música mais calma. Ele é sempre o primeiro culpado pelo homicídio prematuro dalguma festa. Especialmente quando enfia gostos pessoais mais introspectivos e menos dançáveis à sua playlist por muito brutais que as faixas sejam...




Refastelado na ponta do divã, ouço pouco tempo depois a presença de duas raparigas que se sentam também no sofá, a primeira bastante linguareira com uma voz algo irritante e a outra com uma voz mais suave e grave.

-- Acreditas nisto? -- diz a miúda mais faladora – Ele voltou-me a telefonar ao final deste tempo todo. Ainda pensei em não atender o telemóvel mas acabei por ceder. Senti um peso dentro de mim quando ouvi de novo o tipo. Disse que tinha saudades minhas e convidou-me para um café para pormos a conversa em dia... Mas que lata que o gajo tem, depois do que me fez...

-- Deste-lhe uma tampa então. Fizeste bem miúda. O passado só volta para te enrabar. Tens uma vida direita e alguém que se preocupa contigo agora.

-- ....... – a outra miúda fica silenciosa por um momentos. – Não... hmmm... eu.... acabei por ir ter com ele para saber o que queria.

-- Ehhh isso provavelmente foi uma ideia infeliz. O que é que achas que o teu namorado diria sobre isso se soubesse? Não tens juízo.

-- Calma, não é preciso tanta indignação. Eu só queria encerrar o assunto duma vez por todas, nunca me conformei com o desfecho há meses atrás, e precisava de dizer-lhe umas boas verdades. Senão não ia conseguir voltar a dormir como deve ser.

Oh man, era só o que me faltava, uma pessoa a falar sobre as suas relações frustradas. Espero que se vá embora depressa. Não há mesmo paciência. – pensei eu para mim e tentei ao máximo bloquear a voz aguda dela da minha consciência e imaginar-me na minha pool party de bissexuais boazonas a churrascar umas salsichas, mas estava difícil.

-- Cheguei ao café, e fiquei à espera dele, a pensar no discurso que tinha planeado durante estes longos meses. Ia mandá-lo à merda e fazer o tipo perceber o que ele perdeu realmente para sempre. Mas quando o vi a entrar pela porta adentro, com aquele ar tão distraído e sorriso fácil, engoli todas as palavras e insultos que tinha. Fiquei intoxicada só por estar a conversar com ele outra vez. Sentia-me mesmo bem.

-- Pois, sabes que a coca também tem esse efeito. Mas depois ficas sem fossas nasais e maluca da cabeça. E no fim se calhar é mais saudável pra ti do que esse parvalhão. 

-- Tu não percebes, eu conheço demasiado bem as desgraças que ele me atira. É pior que uma droga. Porque por muita vontade que tenha, não consigo controlar o que sinto, não tenho mesmo cura. Mas a verdade é que nestes últimos tempos nem tenho me sentido viva, vejo os dias a passar como se estivesse a andar debaixo de água. E estou tão cansada em continuar assim...

Na minha festa da piscina chega-se uma alemã com um decote surreal, lambe os dedos e comenta como adora as minhas Würstchen, melhor que as do pai que faz lá na terra. E eu digo-lhe que o segredo está no meu molho especial. 

-- Mas tu és sempre a mesma história... Então não estás feliz com o Miguel? Um gajo porreiro, e ah, não pensa só em si mesmo. O que é que tu mais queres?

-- Sim ele é perfeito, às vezes até julgo que é mais do que mereço. Mas ele não é o amor da minha vida.

-- Saíste-me com cada cliché, então diz-me, qual é para ti a definição de “amor da tua vida”? Que porra é essa?

-- Ah, para mim o chamado “amor das nossas vidas” trata-se precisamente de alguém com quem nunca puderemos estar devido a diferenças irreconciliáveis, nem que fossemos as únicas pessoas vivas na terra. E só para enterrar mais sal nas feridas, sempre que nos estamos a divertir algures, voltamos a vê-lo de mãos dadas com uma pessoa qualquer supostamente melhor que nós. Nesse momento vem-nos à cabeça todas as memórias felizes e promessas quebradas e como agora não temos nada. E o que realmente me mata é que passamos depois o tempo a tentar esquecê-lo, até que nos fartamos e nos contentamos com alguém estável que não nos dá chatices. Mas de vez em quando, no meio destes dias tranquilos, perguntamos como é que seria acordar ao lado daquele que deixamos escapar, e ter uma vida diferente....

Porra com esta gaja a lamuriar-se, eu é que não consigo concentrar-me a grelhar os meus belos bifes imaginários. Ela estava mesmo é a pedir que lhe metesse um chouriço pela garganta abaixo tantas vezes até perder o reflexo em engasgar-se. Não admira que o outro se fartou um dia de a aturar. Até um santo ficava atormentado em comer aquilo constantemente.

-- Tens noção que lá no fundo as coisas iam ser exactamente o mesmo, e não seria uma existência mais excitante. Ele é só um homem vulgar como outro qualquer. Só que gostamos todos de sonhar, e de amar um ideal. Porque o amor da nossa vida é simplesmente isso. Nada mais mais, nada menos. E pah, chega a uma altura que é preciso acordarmos para a realidade.

-- Concordo contigo em pleno, mas o meu coração idiota não pode aceitar isso... é fodido.

-- Bah, deixa-te de tretas. Todos somos penetras no coração de alguém. Mesmo que não queiramos. Cada escolha que fazes, estás a lixar alguém. E também não te tou a ver com pena dessas pessoas...

A gaja chata fica calada provavelmente a tentar lembrar-se das amigas traídas ou amores não correspondidos que deixou para trás. E não deve ter sentido grandes remorsos.

Saturado desta conversa que não queria ouvir, levantei-me do sofá e decidi bazar. Num canto da sala vi o rapaz black falador à marmelada com a louraça. Uau, ele acreditou mesmo em mim... Força nisso. Leva-lhe os três pratos homem. Fui à procura então do meu camarada, o Rapaz-Cromo e acabei por encontrá-lo a cantar embriagado com mais dois marmanjos ao saltos. Ele estava tão divertido que não me apeteceu despedir-me dele, e por isso abri a porta do apartamento e fui-me embora muito discretamente. Quando saí para a rua sob o ar fresco nocturno, senti-me mais relaxado. O metro já tinha fechado, e como não tenho paciência para carros, acho que ia a pé até Telheiras. Estava uma noite de luar apropriada para um longo passeio.

Andei durante vários quarteirões até ouvir uns gemidos e soluços desagradáveis vindos dum beco duma rua transversal. Dei uma olhadela e vi nas escadas dum prédio um puto cigano de boné a chorar sozinho enquanto mamava uma garrafa de vinho.

Sabes aquele momento específico em que finalmente te apercebes que talvez te tenhas tornado finalmente num ser humano sem compaixão?

Digo-te, é uma sensação bem menos chocante do que parece.

Virei as costas, e continuei com a minha caminhada.

Mas parei ao final de dez passos.

Eu podia não te ver há dois anos... mas o facto é que me mudaste. E já não consigo ser o cabrão que era antes de ter conhecido. Apesar de me divertir mais estupidamente nessa época sem dúvida alguma.

E afinal de contas, o que é que tu farias se visses alguém ainda mais queimado que tu a precisar de ajuda?

Fui lá ter com o gajo e perguntei-lhe:

-- Então man, o que é que se passa contigo? Estás bem pá?

O puto devia ter uns 18 anos, e tinha um aspecto de quem andou à porrada, com marcas na cara e o blusão meio sujo. O gajo olha para mim e grita só:

-- O que é que tu queres palhaço?!

-- Eu....

-- Vai mas é apanhar no cú seu merdoso!!

-- Epá, eu só...

-- Desanda daqui ou arranco-te os tomates, e enfio-te pela boca abaixo, paneleiro!!!

E o tipo pega na garrafa de atira-me na minha direcção. Ai a minha vida! Por um triz desvio-me e acerta no chão. O gajo levanta-se e eu decidi que era uma excelente ideia pôr-me a fresco. Realmente esqueço-me que um homem, principalmente um cigano não precisa de apoiar-se em ombros amigos ou muletas emocionais, porque desenrasca-se sempre sozinho na boa. Ou contrário da maior parte das mulheres fortes e independentes.... 

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