Sábado, Fevereiro 13, 2010

Pretérito Imperfeito Duma Modelo Anónima

Remorsos são olharmos eternamente para um céu que não pudemos tocar e sentirmo-nos no mais profundo inferno.
E pá, é realmente uma sensação do caralho!



Eu corria pelo meu bairro desnorteadamente, como se tivesse uma lontra embriagada entalada dentro dos boxers, empurrando sem qualquer vergonha todos os transeuntes que tinham a triste ideia de se meterem à minha frente. E porquê?

Bem, tinha uma entrevista de trabalho no Saldanha às 9:00. Era uma vaga para um emprego bem pago a cinco dias por semana, pra trabalhar no estrangeiro, e acho que seria estúpido da minha parte desperdiçar esta oportunidade. Só que eram 8:45 e eu ainda estava em Telheiras. Tinha lutado valentemente com uma gravata durante meia hora até que fui derrotado e posto a chorar como uma menina humilhada no pátio do recreio depois de se encharcar toda pelas pernas abaixo... E no fim tive que procurar no google instruções para atar o raio do nó de Windsor....:

“Primeiro a raposa vai para o lado esquerdo, depois dá a volta ao tronco e em seguida tem de entrar pela toca por cima, mas cuidado porque se for por baixo, é apanhada e pode ficar presa irremediavelmente....” 

AAAAhhhh, gostava de apertar o pescoço ao cabrão que achou boa ideia começar a usar gravatas...!




E assim mais uma vez andava que nem um desvairado pelas ruas do meu bairro acompanhado pelos batimentos frios dum coração de Inverno imperdoável. O vento louco mais cortante que mil lâminas de barbear golpeava a minha cara, deixando-me completamente dormente como se tivesse sido encharcado numa onda de after shave rasca. Enquanto que os meus dedos iam congelando-se até deixar de senti-los dentro das luvas de cabedal. Estava uma manhã solarenga e algo arrefecida, mas apesar disso, as pessoas que passavam por mim em direcção ao trabalho tinham todas uma expressão demasiado séria e fúnebre, com a consciência afogada num mar sujo de preocupações pessoais dum quotidiano entorpecedor. Será que é uma cicatriz cultural própria desta terra? Ou será culpa da “Grande Crise” que vivemos e isto é vulgar também noutras cidades modernas lá fora? Ou então talvez as pessoas estejam todas secretamente felizes da vida, como uma virgem tocada pela primeira vez por um garanhão grande e grosso, mas não querem partilhar isso com moi... (O segredo quero eu dizer, não o garanhão...)

Bah, até parece que me importo se não me contam nada, só sei que eu estava a sorrir que nem um palhaço viciado em gás do riso, porque o Inverno será sempre a minha estação do ano preferida. O frio glacial só faz irromper mais golfadas de sangue ardente dentro das minhas veias como lava líquida, queimando mais intensamente que uma deflagração nuclear, até sentir um velho monstro adormecido a remexer-se no âmago do meu peito. E foda-se, ele acordou com uma fome infernal por viver como um disco dancer de afro e sapatos de plataforma que hibernou até 2010 e necessita de abanar a pélvis outra vez.




E agora que penso nisso... foi num Inverno como este há muitos anos atrás, que por algum motivo desconhecido comecei a escrevinhar merdas para uma certa parvalhona maluca dos cornos. E pergunto-me qual seria a expressão que ela usa agora se a visse a passar na rua.....?

Eu pergunto-me.....

A caminho da praça de táxis, parei de repente numa esquina ao deparar-me com um enorme cartaz publicitário num placard do outro lado da rua. Era um anúncio dum carro utilitário qualquer e o marcante nele é que se encontrava todo desfigurado. O papel esfarrapado pela chuva e rasgado pelo vento insensível revelava as camadas mais profundas como feridas abertas em carne viva... E por debaixo de todas elas encontrava-se um anúncio com uma modelo de rosto sério fotografada a preto e branco. Tão familiar que parecia que a conhecia há anos.

Há Meio Ano Atrás...
 



Estava eu a caminhar em direcção à faculdade, para mais uma aula secante matinal, quando por acaso encontro na rua uma colega minha. Era a Rapariga-Cândida. Uma pessoa geralmente muito bem disposta e sempre divertida pra se conversar. Claro que eu pressentia qualquer coisa mais grave sob a superfície alegre dela, mas não vou falar disso. Afinal todos temos um lado negro que não queremos mostrar a ninguém, não é certo?

E assim fomos os dois andando sem pressas para aturar mais outra divagação reciclada dum professor qualquer, falando os dois de tretas sem importância de que eu já não me recordo.

Até que a meio caminho, vi um placard publicitário novo que me sugou a atenção toda como um buraco negro.
Era dum anúncio duma marca de roupa qualquer, nem sei qual, a única coisa que me ficou na memória foi o olhar penetrante da modelo retratada, sentada sozinha no passeio à noite com um vestido que deixava pouco à imaginação. Tinha uma aparência difícil de descrever, tanto podia ter 15 como 25 anos, portuguesa ou de origem germânica, nem conseguia saber a cor dos cabelos ou dos olhos dela, por ser uma fotografia a preto e branco. Não que isso interessasse para alguma coisa, porque o traço que mais a distinguia era uma expressão melancólica inconfundível, que não parecia ser como aquelas modelos que sniffaram demasiada coca até estarem sempre com um nariz ensanguentado, ou que estão sempre a matarem-se à fome. Não, ela tinha aquele ar que parecia difícil de puxar para uma gargalhada genuína porque já tinha visto muitas adversidades na vida. Não faço ideia donde raios tirei essa impressão só de olhar para uma fotografia dela.
E talvez fosse por causa disso que me fazia lembrar uma tal queimada que já foi mais inocente, mas provavelmente agora está tão diferente que só dá respostas condescendentes e comentários meio sarcásticos para o mundo.

Ou não... Ou não...

-- Bem, estás com uma cara de parvo... – observou a Rapariga-Cândida com um sorriso malandro.

-- Hmm? O que é foi? – murmurei eu ainda distraído com o placard.

-- Nunca imaginei que ficasses todo babado por um par de pernas jeitosas.

-- Eu não estava a babar-me...

-- Sabes, às vezes quase que pensei que gostavas de gajos.

-- Mas eu nem sou....

-- Não que haja mal nisso, eu prefiro um cacete rijo a uma boa rapariga a qualquer hora do dia.

-- O que raios estás pra aí a falar...?

-- Epá, não fiques envergonhado, é normal sentires tesão por um belo naco de carne como aquele. Apesar de para ser sincera, ela ter assim um ar de enjoada, e um bocado de carinha de cavalo, coitada.

-- Cala-te pá. Ela tem nada cara de cavalo, porra! – resmunguei eu algo irritado. Algumas mulheres têm sempre a mania de dizer mal das outras, principalmente se acham que são menos bonitas do que elas.

-- Ah ah, estás mesmo caído por ela! Que giro. Porque é que não lhe telefonas?

-- Telefonar-lhe?

-- Ya, procura a agência dela na net, pede-lhes o contacto dela e filma uma curta metragem com ela.

-- Deves tar doida...

-- Então, podes fazer isso mesmo hoje, não custa nada. E como tens talento pra coisa, ainda vai te agradecer um dia.

-- Huh... – fiquei calado a pensar e durante uns momentos considerei seriamente em seguir o conselho dela. Não era má ideia de todo.

-- Enfim, vamos é andando pra a aulinha, que já estamos uma hora atrasados. – comenta ela olhando para o relógio, e começa a correr à minha frente como uma miúda da primária.

Mais tarde quando cheguei a casa, comecei a vasculhar até que encontrei o site da agência dela e telefonei para lá. A secretária que atendeu parecia muito pouco receptiva a este género de pedidos, e não ia dar o número da rapariga assim sem mais nem menos. Mas depois de algum paleio lubrificado acabou por dizer-me o mail profissional dela.

E estava eu a compor uma carta bem apresentada quando de repente me apercebi seriamente do que andava a fazer, e fiquei deprimido, como há muito tempo que não me sentia assim. Desliguei o pc e saí para beber um copo. É nessas alturas que eu percebo perfeitamente a atracção cultural pelo álcool.

Nos dias seguintes acabava sempre por tomar o mesmo caminho para a faculdade, porque não conseguia de deixar de olhar, nem que fosse só de relance, para o anúncio da miúda. Mesmo sabendo que não era para ela que estava a contemplar, mas simplesmente era a única forma que tinha para enganar as saudades por alguém cuja fronha idiota eu mal me recordava.

Um dia passei pelo cartaz e notei que tinha um graffiti obsceno desenhado na boca e um “Fode-me” escrito por baixo.
Não fiquei zangado, mas também não achei piada. Apetecia-me só subir lá acima e apagar aquilo por alguma razão. E como se alguém estivesse a ouvir-me os meus desejos, mudaram o placard pouco tempo depois, para um anúncio dum medicamento para o alívio eficaz da irregularidade dos intestinos.

De Volta ao Presente Imperfeito....





Continuava eu a olhar fixamente para o cartaz desfeito do outro lado da rua, sem notar o tempo a escorrer por mim. Começou a chover bastante ao mesmo que o Sol brilhava, e banhava a cidade dum tom dourado replandescente e húmido. De repente, passa um miúdo de dez anos com a mochila às costas e um guarda chuva azul. Ele repara em mim, parado ali feito estúpido, cada vez mais encharcado, meio a sorrir para um placard apagado.

-- Porque é que tás ai todo molhado a fazer nada...? – questiona-me o puto sem conseguir resisitir à sua própria curiosidade. Era uma pergunta razoável mas que no entanto eu não lhe conseguia responder para ser sincero.

-- Sabes, pá, já alguma fez tiveste remorsos? – disse eu subitamente.

-- Remorsos...? -- ele fica com uma expressão na mesma.

-- Sim, se alguma te arrependeste de algo que fizeste ou que não fizeste para o resto da tua vida...? E que farias tudo para mudar isso se pudesses voltar atrás...

-- Eu, arrepender-me? Não sei... – ele pensa durante um bocado e depois encolhe os ombros -- Eu não me lembro de nada em especial.

-- Ah ah, fazes bem. Um homem a sério vive sem arrependimentos.

-- Olha, eu vou ter de ir para escola. Xau.

-- Adeus...

Vejo o puto a correr pela rua abaixo e reparo nas horas. São 9:30. Já tinha perdido a minha entrevista. Foda-se, aquele emprego era importante. Mas aparentemente não era tão importante como....

Olhei então uma última vez para o rosto da modelo anónima no anúncio, rio-me alto daquilo tudo e desapareço na chuva entre um raio de sol cadente. Por alguma razão, fiquei com uma vontade repentina de voltar a escrever-te histórias imbecis.

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