Terça-feira, Maio 26, 2009

Palavras Dum Passado Aldrabado

O que é que achas que é pior? Ser uma pessoa ignorante ou completamente apática?

Bem, eu não sei e não quero saber. 

E acho que tu também não.

Afinal confessa lá, quanto tempo é que já passou desde o último grande clássico que leste....? E eu não estou a referir-me às leituras obrigatórias do secundário ou da faculdade... Eu pelo menos só lia os resumos tirados da net.... 

Hmmm....

Se calhar como hoje está um dia tão agradável, vou tentar mudar o tom de parvoíce inculta deste antro e cultivar aqui um momento literário profundamente profundo para tu mascares como chiclete... 




Há 5 anos atrás....


Num começo de noite, já lá vai quase meia década (como o tempo voa, porra), um rapaz vagueava pelas ruas da cidade sem fim. De mãos nos bolsos do casaco, arrastava-se lentamente contra aquele vento familiar de Inverno que soprava por entre a massa de pessoas, cortante como um Carnaval de carne lambido por facas.

Ay que frio! É melhor pôr a tocar no MP3 uma musiquinha dum Verão de Amor para ver se aqueço um bocado... Afinal deve ter sido ao som do Senhor Jimi que os nossos pais deram a primeira queca, no banco detrás dum Volkswagen carocha. Okay isso foi uma imagem completamente desnecessária.





Ao caminhar pela Baixa deparou-se com o cenário comum de ciganas com crianças ao colo a pedir, e velhos sem-abrigo a gritarem furiosamente sozinhos no passeio público:

-- Vocês não passam duma cambada de personagens! Todos vocês! As vossas vidas vomitadas dum romance de merda!! Por isso vão se todos foder! Cabrões!

Ele não comenta nada para si nem se junta à discussão solitária do velhote, Lisboa pertencia realmente aos loucos e este rapaz era só mais um aventureiro sem rumo na multidão, consumido por um gelo escaldante no âmago, deixando um manto de folhas mortas e caos relativo no seu rastro. E um ou outro coração quebrado.

Ele era um verdadeiro Monstro Desalmado. 

E apesar de tudo um tipo deveras porreiro.

O gajo passa então pela montra iluminada duma livraria, onde se encontravam expostos atraentemente muitas cópias e cartazes do “Código da Vinci”, do “Harry Potter e o Cálice de Fogo”, e do “Menino de Cabul”... nada que o interessasse particularmente. 



Mas algo mais forte chamava-o lá para dentro, uma voz hipnótica profunda ao qual ele não conseguia resistir.

Ela tinha conseguido o contagiar com o pior de todos os cancros. O do coração. E uma fome insaciável pela leitura. 

Caralho para aquela mulher, puta cona foda-se!

E assim ele entrou, talvez encontrasse algum livro técnico de psicologia interessante ou então alguma poesia que o fizesse sentir qualquer coisa. Porque todos devemos possuir os nossos pequenos prazeres. Mesmo que sejam guilty pleasures que não confessamos a ninguém. Como gostar de auto-asfixiação erótica ou de mastigar delícias do mar e depois enfiar aquilo nalgum buraco de alguém, quer dizer da casa de alguém. Huh.... não que este rapaz apreciasse esse género de actividades duvidosas. Como já disse ele era uma pessoa de bem!

O rapaz vai então observando as lombadas nas prateleiras, na secção de prosa poética, pega num livro, “O Anjo Mudo” dum poeta chamado Al Berto, que por acaso não conhecia muito bem, e abre numa página aleatória, começando a ler em silêncio:




“A noite desce sobre a cidade. Faz calor. A lua mergulha no espelho negro dos asfaltos, acende-se no fundo do rio.

Procuro-te nos rostos que passam. Sei que todos eles abrigam a tua morte. Nenhum deles evoca o sorriso que te pertenceu.

Qual deles, ao ser tocado, se metamorfoseará em vidro? E se quebrará nas minhas mãos.

Qual deles leva teu nome escondido nos lábios?

Qual deles oferecerá ou venderá o corpo?

Qual deles, como tu, acordará um dia esquecido de que está vivo?

A noite esvazia-se. Nenhuma música enche a tua morte.

Caminho desamparado, embora saiba que uma aragem te acordará em mim e, o álcool ajudando, a terra ser-te-á leve...

Qual deles venderá o corpo?

Qual deles ousará pousar a mão na minha lepra?

Caminho desamparado.

A noite abre-se, imensa, e o tempo passa sobre o rosto como um fogo que tudo apaga.

Os meus passos vão no sentido contrário ao teu sossego.

Os dias avançam sem paixão. Os dias recuam e não encontro ninguém.”


O rapaz fecha o livro, cuspindo de aborrecimento, e deita aquela treta para o lado. Sai da loja meio irritado por um motivo que não consegue explicar, desejando estar a milhas dali, mas acaba meia hora depois por voltar e comprar o livro.

Ele nunca o terminou e de facto nunca mais voltou a pegar naquilo.

De Volta ao Presente Imperfeito


Até que há uns dias ficou com uma vontade tremenda de ir à casa de banho, e quando não há nenhuma FHM ou Maria ao pé da sanita, já sabia bem que nessas situações difíceis ia começar outra vez a ler compulsivamente as embalagens de produtos de higiene pessoal... Para evitar esse hábito estranho que muitas pessoas não conseguem fugir, ele decide ir depressa buscar à estante qualquer coisa para se entreter.

Voltando então ao fim de cinco anos por tocar no dito cujo, e começa a ver um capítulo:

“As noites são feitas de hulha, poalha negra para lá da qual não se vislumbra nenhum amanhecer. Nenhum crepúsculo. 

Queimo o corpo neste desejo de te olhar, de te tocar; mas chove, está sempre a chover sobre aquilo que vivemos e é tarde, deves estar a dormir. 

Nenhuma palavra escrita fica intacta, arde, queima-me os dedos quando o teu nome alastra pela nocturna folha de papel. 

És o amigo morto aquém continuo a enviar cartas a mim mesmo.

-- Não há vergonha em dizer ou escrever isto: amo-te ainda.”



O rapaz fechou o livro definitivamente, e atirou aquilo para o chão. Oh man.... que deprimente... isto até tira a vontade a um homem de obrar...! Porque é que eu não fui em vez disto buscar um Tio Patinhas...?


Sexta-feira, Maio 15, 2009

O Complexo Super Homem Vs. Batman

Eu encontrava-me no refeitório da faculdade com um amigo e uma amiga, entre pratos duvidosos de soja e dum arroz de galinha que já parecia ter sido suspeitosamente remisturado do frango dontem. E ao deparar-me com esta situação vulgar da minha rotina, tive assim uma epifania do quão este momento glorioso de encher o estômago e o coração de alegria saltitante era o ponto alto do dia, visto que como muitas pessoas, o gastava completamente desde as 9 da manhã até à meia noite em aulas, trabalhinhos e no emprego. 

É uma sensação um bocado estranha de descrever, esta aceitação da futilidade mediana do nosso quotidiano repetitivo, sabes o que estou a dizer? Hmm era como se fosses obrigada a digerir diariamente uma sandocha cheia de indiferença, tédio, complacência, sem ketchup, condimentos, nem sequer aquela rodela de pickle irritante no meio, e sentires-te feliz porque isto é o melhor que a sociedade moderna tem para oferecer, quer tenhas mais ou menos dígitos na conta bancária. 

Na parte de trás do nosso subconsciente ouço a vozinha duma criancinha ranhosa e desconsolada: 

“Para onde é que foram as grandes aventuras, a magia e todos os nossos heróis?” 



Ohhhhhhhhhhhhh memento mori...................

Realmente é por isso que eu não suporto crianças.

Seja como for, nos dias que vão se esmorecendo, em que sou abençoado com a sabedoria dos meus longos e caquéticos 22 anos, só queria mesmo tar deitado na praia sob um solinho meigo, a beber pinacoladas e a tentar assediar miúdas parvas....

Enfim, de volta à cantina da escolinha, para passar o tempo estávamos a travar daquelas discussões mornas de almoço que toda gente tem de vez em quando e nunca chegam a grande conclusão. Os meus colegas tinham acabado de ir ver o filme Watchmen e o tema foi obviamente parar a super-heróis. 

-- Então se pudesse escolher ser um herói, qual a máscara é que usarias? – perguntei eu.

-- Hah, tenho que pensar um segundo, isso é uma daquelas coisas que até diz mais sobre nós próprios do que o nosso signo aleatório do horóscopo. – disse a Rapariga Cândida. 

-- Para mim a resposta é simples. Se eu fosse o Super Homem fazia o que me apetecia. Com aqueles poderes todos não teria mais preocupações.– sugeriu o Rapaz-Cromo.


-- Epá, não sejas estúpido. Tinhas de aturar ainda mais problemas que agora. A angústia de tentar salvar o mundo todos os dias, aturar a bronca da Louis Lane que é enganada só por um par de óculos, francamente que gaja tão burra! E afinal se és supostamente o homem de aço e tens uma força ilimitada, bastava-te vires para cima dela que a fazias perder um olho ou agarrares-lhe pelo cabelo com força para ela ficar sem escalpe. E depois tens de enfrentar o maldito careca do Lex Luthor sempre a tentar matar-te com a kryptonite, epá era uma carga enorme de problemas e sem ninguém com quem conversares, só terias vontade de largar a capinha e as cuecas foras das calças e tornares-te noutra pessoa. Tipo um gajo vulgar como tu. – comentou a Rapariga Cândida com a sua enorme perspectiva do costume. 


-- Fónix, mas ao menos podia espiar gajas na casa de banho com os raios X. E ver as mamas de toda gente, até da Manuela Ferreira Leite se me apetecesse. Okay. Não que eu fizesse isso. Muitas vezes. – desculpou-se o Rapaz Cromo.

-- És sempre o mesmo cromo. – ela olha para mim – E tu rapaz? Qual é que seria a tua persona mascarada?

-- Hmm, o Rorschach é muito porreiro e hard core, mas acho que o Batman seria a minha primeira escolha. Afinal ele tem o poder mais fantástico de todos eles. É podre de rico. 

-- Lá isso é verdade, mas o Batman é um herói um bocado deprimente, só sai à noite, só enfrenta vilões psicóticos que fugiram do manicómio. Por amor de Deus, um pinguim e um palhaço??? E além disso está todo traumatizado porque os pais foram assassinados à sua frente. E para lidar com esses problemas pessoais todos em vez de ir resolvê-los a um psiquiatra, limita-se simplesmente a comer gajas discartáveis frequentemente através da sua fachada de playboy bilionário Bruce Wayne, e a atirar-se à porrada contra todos os matulões mal encarados que encontra na cidade vestido num fato morcego apertado. O gajo é quase um arquétipo do homem macho atormentado que não faz ideia do que está a fazer da vida, e as histórias dele acabam sempre em tragédia precisamente por isso. 

 
--Awh man.... Tens sempre de analisar tudo pra mandar abaixo. Fogo, então e qual é a tua sugestão definitiva? Que personagem fantástica é que TU escolherias? 

-- Eu seria obviamente a Lara Croft. Achas que com o corpo e classe da Angelina Jolie eu precisaria de mais alguma coisa?


Porra, não gosto nada de admitir, mas ela alguma razão lá isso tinha...
Diz muito sobre um gajo ou uma gaja pelos heróis que aprecia.

E quanto a ti.....? Quem é que é o teu herói ou heroína pessoal?