O que é que achas que é pior? Ser uma pessoa ignorante ou completamente apática?
Bem, eu não sei e não quero saber.
E acho que tu também não.
Afinal confessa lá, quanto tempo é que já passou desde o último grande clássico que leste....? E eu não estou a referir-me às leituras obrigatórias do secundário ou da faculdade... Eu pelo menos só lia os resumos tirados da net....
Hmmm....
Se calhar como hoje está um dia tão agradável, vou tentar mudar o tom de parvoíce inculta deste antro e cultivar aqui um momento literário profundamente profundo para tu mascares como chiclete...

Há 5 anos atrás....
Num começo de noite, já lá vai quase meia década (como o tempo voa, porra), um rapaz vagueava pelas ruas da cidade sem fim. De mãos nos bolsos do casaco, arrastava-se lentamente contra aquele vento familiar de Inverno que soprava por entre a massa de pessoas, cortante como um Carnaval de carne lambido por facas.
Ay que frio! É melhor pôr a tocar no MP3 uma musiquinha dum Verão de Amor para ver se aqueço um bocado... Afinal deve ter sido ao som do Senhor Jimi que os nossos pais deram a primeira queca, no banco detrás dum Volkswagen carocha. Okay isso foi uma imagem completamente desnecessária.
Ao caminhar pela Baixa deparou-se com o cenário comum de ciganas com crianças ao colo a pedir, e velhos sem-abrigo a gritarem furiosamente sozinhos no passeio público:
-- Vocês não passam duma cambada de personagens! Todos vocês! As vossas vidas vomitadas dum romance de merda!! Por isso vão se todos foder! Cabrões!
Ele não comenta nada para si nem se junta à discussão solitária do velhote, Lisboa pertencia realmente aos loucos e este rapaz era só mais um aventureiro sem rumo na multidão, consumido por um gelo escaldante no âmago, deixando um manto de folhas mortas e caos relativo no seu rastro. E um ou outro coração quebrado.
Ele era um verdadeiro Monstro Desalmado.
E apesar de tudo um tipo deveras porreiro.
O gajo passa então pela montra iluminada duma livraria, onde se encontravam expostos atraentemente muitas cópias e cartazes do “Código da Vinci”, do “Harry Potter e o Cálice de Fogo”, e do “Menino de Cabul”... nada que o interessasse particularmente.

Mas algo mais forte chamava-o lá para dentro, uma voz hipnótica profunda ao qual ele não conseguia resistir.
Ela tinha conseguido o contagiar com o pior de todos os cancros. O do coração. E uma fome insaciável pela leitura.
Caralho para aquela mulher, puta cona foda-se!
E assim ele entrou, talvez encontrasse algum livro técnico de psicologia interessante ou então alguma poesia que o fizesse sentir qualquer coisa. Porque todos devemos possuir os nossos pequenos prazeres. Mesmo que sejam guilty pleasures que não confessamos a ninguém. Como gostar de auto-asfixiação erótica ou de mastigar delícias do mar e depois enfiar aquilo nalgum buraco de alguém, quer dizer da casa de alguém. Huh.... não que este rapaz apreciasse esse género de actividades duvidosas. Como já disse ele era uma pessoa de bem!
O rapaz vai então observando as lombadas nas prateleiras, na secção de prosa poética, pega num livro, “O Anjo Mudo” dum poeta chamado Al Berto, que por acaso não conhecia muito bem, e abre numa página aleatória, começando a ler em silêncio:

“A noite desce sobre a cidade. Faz calor. A lua mergulha no espelho negro dos asfaltos, acende-se no fundo do rio.
Procuro-te nos rostos que passam. Sei que todos eles abrigam a tua morte. Nenhum deles evoca o sorriso que te pertenceu.
Qual deles, ao ser tocado, se metamorfoseará em vidro? E se quebrará nas minhas mãos.
Qual deles leva teu nome escondido nos lábios?
Qual deles oferecerá ou venderá o corpo?
Qual deles, como tu, acordará um dia esquecido de que está vivo?
A noite esvazia-se. Nenhuma música enche a tua morte.
Caminho desamparado, embora saiba que uma aragem te acordará em mim e, o álcool ajudando, a terra ser-te-á leve...
Qual deles venderá o corpo?
Qual deles ousará pousar a mão na minha lepra?
Caminho desamparado.
A noite abre-se, imensa, e o tempo passa sobre o rosto como um fogo que tudo apaga.
Os meus passos vão no sentido contrário ao teu sossego.
Os dias avançam sem paixão. Os dias recuam e não encontro ninguém.”
O rapaz fecha o livro, cuspindo de aborrecimento, e deita aquela treta para o lado. Sai da loja meio irritado por um motivo que não consegue explicar, desejando estar a milhas dali, mas acaba meia hora depois por voltar e comprar o livro.
Ele nunca o terminou e de facto nunca mais voltou a pegar naquilo.
Bem, eu não sei e não quero saber.
E acho que tu também não.
Afinal confessa lá, quanto tempo é que já passou desde o último grande clássico que leste....? E eu não estou a referir-me às leituras obrigatórias do secundário ou da faculdade... Eu pelo menos só lia os resumos tirados da net....
Hmmm....
Se calhar como hoje está um dia tão agradável, vou tentar mudar o tom de parvoíce inculta deste antro e cultivar aqui um momento literário profundamente profundo para tu mascares como chiclete...

Há 5 anos atrás....
Num começo de noite, já lá vai quase meia década (como o tempo voa, porra), um rapaz vagueava pelas ruas da cidade sem fim. De mãos nos bolsos do casaco, arrastava-se lentamente contra aquele vento familiar de Inverno que soprava por entre a massa de pessoas, cortante como um Carnaval de carne lambido por facas.
Ay que frio! É melhor pôr a tocar no MP3 uma musiquinha dum Verão de Amor para ver se aqueço um bocado... Afinal deve ter sido ao som do Senhor Jimi que os nossos pais deram a primeira queca, no banco detrás dum Volkswagen carocha. Okay isso foi uma imagem completamente desnecessária.
Ao caminhar pela Baixa deparou-se com o cenário comum de ciganas com crianças ao colo a pedir, e velhos sem-abrigo a gritarem furiosamente sozinhos no passeio público:
-- Vocês não passam duma cambada de personagens! Todos vocês! As vossas vidas vomitadas dum romance de merda!! Por isso vão se todos foder! Cabrões!
Ele não comenta nada para si nem se junta à discussão solitária do velhote, Lisboa pertencia realmente aos loucos e este rapaz era só mais um aventureiro sem rumo na multidão, consumido por um gelo escaldante no âmago, deixando um manto de folhas mortas e caos relativo no seu rastro. E um ou outro coração quebrado.
Ele era um verdadeiro Monstro Desalmado.
E apesar de tudo um tipo deveras porreiro.
O gajo passa então pela montra iluminada duma livraria, onde se encontravam expostos atraentemente muitas cópias e cartazes do “Código da Vinci”, do “Harry Potter e o Cálice de Fogo”, e do “Menino de Cabul”... nada que o interessasse particularmente.

Mas algo mais forte chamava-o lá para dentro, uma voz hipnótica profunda ao qual ele não conseguia resistir.
Ela tinha conseguido o contagiar com o pior de todos os cancros. O do coração. E uma fome insaciável pela leitura.
Caralho para aquela mulher, puta cona foda-se!
E assim ele entrou, talvez encontrasse algum livro técnico de psicologia interessante ou então alguma poesia que o fizesse sentir qualquer coisa. Porque todos devemos possuir os nossos pequenos prazeres. Mesmo que sejam guilty pleasures que não confessamos a ninguém. Como gostar de auto-asfixiação erótica ou de mastigar delícias do mar e depois enfiar aquilo nalgum buraco de alguém, quer dizer da casa de alguém. Huh.... não que este rapaz apreciasse esse género de actividades duvidosas. Como já disse ele era uma pessoa de bem!
O rapaz vai então observando as lombadas nas prateleiras, na secção de prosa poética, pega num livro, “O Anjo Mudo” dum poeta chamado Al Berto, que por acaso não conhecia muito bem, e abre numa página aleatória, começando a ler em silêncio:

“A noite desce sobre a cidade. Faz calor. A lua mergulha no espelho negro dos asfaltos, acende-se no fundo do rio.
Procuro-te nos rostos que passam. Sei que todos eles abrigam a tua morte. Nenhum deles evoca o sorriso que te pertenceu.
Qual deles, ao ser tocado, se metamorfoseará em vidro? E se quebrará nas minhas mãos.
Qual deles leva teu nome escondido nos lábios?
Qual deles oferecerá ou venderá o corpo?
Qual deles, como tu, acordará um dia esquecido de que está vivo?
A noite esvazia-se. Nenhuma música enche a tua morte.
Caminho desamparado, embora saiba que uma aragem te acordará em mim e, o álcool ajudando, a terra ser-te-á leve...
Qual deles venderá o corpo?
Qual deles ousará pousar a mão na minha lepra?
Caminho desamparado.
A noite abre-se, imensa, e o tempo passa sobre o rosto como um fogo que tudo apaga.
Os meus passos vão no sentido contrário ao teu sossego.
Os dias avançam sem paixão. Os dias recuam e não encontro ninguém.”
O rapaz fecha o livro, cuspindo de aborrecimento, e deita aquela treta para o lado. Sai da loja meio irritado por um motivo que não consegue explicar, desejando estar a milhas dali, mas acaba meia hora depois por voltar e comprar o livro.
Ele nunca o terminou e de facto nunca mais voltou a pegar naquilo.
De Volta ao Presente Imperfeito

Até que há uns dias ficou com uma vontade tremenda de ir à casa de banho, e quando não há nenhuma FHM ou Maria ao pé da sanita, já sabia bem que nessas situações difíceis ia começar outra vez a ler compulsivamente as embalagens de produtos de higiene pessoal... Para evitar esse hábito estranho que muitas pessoas não conseguem fugir, ele decide ir depressa buscar à estante qualquer coisa para se entreter.
Voltando então ao fim de cinco anos por tocar no dito cujo, e começa a ver um capítulo:
“As noites são feitas de hulha, poalha negra para lá da qual não se vislumbra nenhum amanhecer. Nenhum crepúsculo.
Queimo o corpo neste desejo de te olhar, de te tocar; mas chove, está sempre a chover sobre aquilo que vivemos e é tarde, deves estar a dormir.
Nenhuma palavra escrita fica intacta, arde, queima-me os dedos quando o teu nome alastra pela nocturna folha de papel.
És o amigo morto aquém continuo a enviar cartas a mim mesmo.
-- Não há vergonha em dizer ou escrever isto: amo-te ainda.”
O rapaz fechou o livro definitivamente, e atirou aquilo para o chão. Oh man.... que deprimente... isto até tira a vontade a um homem de obrar...! Porque é que eu não fui em vez disto buscar um Tio Patinhas...?

1 commentários:
Grande livro esse certamente!
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