Quarta-feira, Fevereiro 11, 2009

Noites De Déjà Vu De Vidas Demasiado Acreditáveis: Parte III

(E aqui termina a história destes últimos cinco capítulos,
enrolada num final anti-climáctico parvo, yay...)






Na fronteira do paraíso...

Não existe um horizonte entre céu e mar...

Não há nuvens a ofuscarem o sol...

Nem lágrimas a caírem na terra...

E ele encontrava-se lá... sentado no meio da praia...

À espera dia após dia, ano atrás de ano 

de qualquer coisa vinda do infinito...

Até que o vento sopra subitamente

e a última onda da sua vida começa a chegar. 

A rainha de todas as ondas.

O rapaz finalmente levanta-se, pega na sua prancha... 

E parecia-me que estava quase a sorrir.




O ar da madrugada estava a ficar incrivelmente arrefecido, este Verão não aqueceu nada, não que o calor me traga qualquer conforto, porque não consegue derreter os sincelos cortantes nas arcadas do meu peito. Um frio tão dilacerante e extremo que extingue qualquer faísca de emoção... 

Mas até é reconfortante dum certo modo, deixar de sentir nada. Torna-nos mais fortes ao não termos nada a perder, ficando só a impressão que somos invencíveis, como um super-homem sem kryptonite, sem uma identidade secreta para proteger e uma Lois Lane a chatear. Sentado no trono da sua Fortaleza de Solidão.

Não sentir absolutamente dor nenhuma. Fogo e gelo, chamas e granizo, tudo se condensa num nevoeiro de vapor suado em que nos perdemos e deixamos de ver seja o que for até ao resto das nossas vidas.  

E é preferível isso do que estar a arder de saudades por alguém, duma forma tão intensa que nos carboniza por dentro, e até nos faz esquecer a voz dela, não concordas? 

A Rapariga Perturbadora e eu saímos do Bairro Alto e caminhamos durante uns minutos através das ruas estreitas da Velha Lisboa, desertas de pessoas e carros, serpenteando até a uma ruela de casinhas de três andares que deviam já ter barbas mesmo no tempo do Grande Terramoto.  

Quando chegámos a uma entrada com uma porta de madeira envelhecida, a Rapariga Perturbadora tira as chaves da mala e entramos silenciosamente no hall fresco e escuro do prédio permeado com um cheiro a mofo tumular. Ela abre então a porta do seu apartamento no r/c e liga as luzes.

A primeira coisa que ela fez mal chegou a casa foi meter o telemóvel a carregar e verificar as mensagens, como se estivesse à espera de alguém em particular. Ela pareceu-me desapontada pela centésima vez. 

-- Não consegues mesmo viver sem esse bicho, não é? – gozei eu um bocado.  

-- Hmm...? – ela fica ligeiramente pensativa durante um momento – Acho que não. É mesmo essencial. 


-- Essencial o caralho. Telemóveis são um perigo. 

-- Ya, ok, eu sei que a radiação pode fritar-nos miolos... Olha pra mim preocupada. 


-- Não. O verdadeiro perigo está no cancro que isso dá a um coração. Essa merda põe-nos é doentes de ansiedade.

-- ......Deixa de ser parvo. – responde ela um bocado irritada.


Ela posa o telemóvel no chão e levanta-se. 

-- Então é neste estabelecimento duvidoso que tu vives? Tá cá mais alguém?

-- Não, tou sozinha. O meu sócio foi trabalhar durante o Verão em Itália, e só volta em Setembro.  


-- Já deves ter saudades dele.

Ela vira a cabeça e afasta-se.

-- .... Sim, sim... Claro. – murmura ela com a mesma convicção dum camionista a cantar “Like a Virgin” à frente dum bando de meninas de liceu. – Bom seja como for, já que tás aqui, e que tal se eu te mostrasse a casa? 


Ah, que emoção... nunca percebi muito esse hábito obrigatório de fazer uma tour às habitações doutras pessoas, até parece que nunca vi uma casa de banho ou uma tábua de engomar, mas encolhi os ombros e concordei...

-- Ok, leva-me lá então...

A Rapariga Perturbadora assume quase magicamente a postura duma guia turística como se estivesse a levar um bando de velhotes senis por um museu de arte moderna.

Fomos pra a cozinha de aspecto oleoso, com azulejos e tecto cinzentos degradados pelo tempo. 

-- Então aqui ao lado é a cozinha. Acabei de comprar um fogão novo, com um forno pré-aquecido. É excelente pra tortas de maçãs e bolos de bolacha!


-- Fascinante. – comentei eu sem quaisquer palavras eloquentes para expressar. 

Saímos os dois da sala e continuamos pelo corredor abaixo, até que ela abre uma porta ao lado.

-- Neste quartozinho aqui é onde eu meti os meus armários de roupa.


-- Fascinante. – comentei outra vez tão assombrado que até molhei os boxers. 

-- Montei aqui uma estante catita pra os meus sapatos também.


-- Tens um quarto inteiro só pra isso? Eu só tenho 3 gavetas.

-- Pá sou gaja. Preciso de espaço pra guardar estas merdas...!


-- Ah pois... não há nada mais importante na vida do que o calçado duma mulher.

Ela fecha a porta, descemos até ao fundo do corredor e fomos ter à sala. 

Era o típico sítio mal aconchegado dum apartamento de estudantes. Paredes nuas duma palidez suja de humidade. Móveis de Ikea que pareciam estar quase a desconjuntar-se aos bocados mal levassem um pontapé. Televisor coberto de pó e gordura. Caixas de pizza com restos peganhentos e latas de cerveja vazias espalhadas pela mesa de café. Enquadrada ao fundo, estava uma janela sempre semi fechada que dava para as traseiras doutro prédio sem vista para qualquer horizonte... A única coisa ali que parecia fora do sítio era uma bela prancha de surf vermelha decorada por uma rosa em chamas, encostada num canto solenemente. Era mantida num estado impecável com muito carinho, e achei engraçado visualizar a imagem duma miúda desconjuntada como ela a surfar. Como é que será que ela terá ganho o gosto a isso? 

-- Muito fascinante.... – comentei eu assustado. 

-- Bem, tá com um ambiente um bocado depressivo, mas eu ainda não meti umas cortinas giras e pendurei uns posters do Bob Marley. 


-- Huh, nem que forrasses as paredes com notas de 500 euros conseguias fazer uma stripper perneta vir cá... Ainda apanha-se aqui um tétano que até me dá arrepios.  

-- Também não tá assim tão mau! 


-- A tua mãezinha iria realmente chorar de aflição se visse o estado da tua casinha. “Eu não pari essa cabeçuda que teimava em não sair e eduquei-a durante anos pra viver nesta espelunca!”

-- Hey! Se não gostas podes desamparar a loja a qualquer altura! Ninguém te obrigou a ficar cá! – retorque a miúda meio impaciente comigo, mostrando-me a porta.


-- Pronto, não é preciso ficares exaltada. 

-- Já nem te mostro o meu quarto, desarrumado como está ainda te dava um ataque.  


-- Obrigado. Agradeço-te do fundo do coração.

-- Bah, vou mas é mudar-me para qualquer coisa mais confortável. Vossa excelência pode abancar-se aí e ligar o televisor se quiser, se não for algo demasiado indigente para a sua sensibilidade... 


Ela desaparece para o quarto dela, enquanto eu fico sentado no sofá cheio de nódoas não identificáveis que tresandava a fumo de tabaco e a um rato morto há semanas. No entanto, a olhar para o sítio durante uns longos momentos de silêncio, eu fiquei lentamente com o pressentimento alarmante que havia qualquer coisa de errada naquela casa. 

Sozinho na sala, comecei outra vez a ouvir um zunido intenso dentro dos meus ouvidos, podia ser só um feeling psicológico, uma faca ferrugenta a cravar-me na parte mais funda do meu cérebro que punha todos os instintos mais básicos em alerta... sabes como é? Uma aversão irracional por um sítio que te agita duma maneira cortante, como o lendário quarto escuro das nossas infâncias...

Havia um desespero quase líquido no ar a escorrer pelas paredes e os móveis. 

Não sei se as más vibrações provinham dos sentimentos negativos das pessoas que viviam lá, ou se alguém tinha esticado o pernil ali duma maneira pouco natural, ou simplesmente era por causa do Feng Shui distorcido do sofá não estar virado para a posição do Dragão do Norte... 

Mas sim, aquela velha sensação de déja vu voltou a crescer friamente dentro de mim, atordoando-me profundamente... já tinha estado num sítio parecido... mais do que uma vez... talvez com outra pessoa... noutro tempo... e eu reconhecia este mal estar familiar indescritível demasiado bem... como se estivesse mergulhado num sonho lívido e tivesse a memória penetrante dum sonho anterior...

De repente ouvi passos pesados no andar de cima e uma voz abafada a exclamar:

“pAARa DEe Te rIr---- sEnAoo elE vAI accORDaAR pIOr quE eStrAAGaDo!”


Enervado com este ambiente desconcertante, liguei a televisão e por algum motivo idiota fiquei concentrado numas televendas da Ideia Casa que promoviam um robot superchef que cozinhava sozinho mais de mil receitas... oh meu... as possibilidades... a olhar para aquela comida tenra toda começou a dar-me uma fome de cavalo.


Assim decidi ir fazer o que vim cá fazer, que era assaltar o frigorífico duma maneira descarada. Fui para a cozinha sorrateiramente e abri a porta da geladeira...  

A luz amarela doentia do interior revelava apenas uns packs de cerveja, e um bocado de qualquer entidade orgânica embrulhada em alumínio que outrora fora um queijo ou manteiga. Hmmmm........ Mas esta gaja vive do ar? Tá numa nova dieta nova-iorquina que consiste em não comer? Porque é que ela ainda não esticou o pernil?
Abri o congelador também e só havia lá uma famosa lasanha gourmet do Lidl de aspecto pouco convidativo.

-- Então o que é que pensas que tás a fazer?— resmungou uma voz atrás de mim. 

-- Huh? – eu virei-me para a porta da cozinha e vi a Rapariga Perturbadora vestida de pijama, com os braços cruzados e um ar meio indignado.
 
-- Chegas aqui a casa das pessoas, vasculhas o meu frigorífico, serves-te como se fosses o dono desta espelunca. Muito bem. 


-- Pá eu nunca faço cerimónias... mas com o que tens aqui dentro até posso fazer uma excepção. Não há nada para um homem crescido comer nesta casa. Nem sequer uma latinha de atum. É escandaloso! Como é que serves convidados? Não tens vergonha?

-- Xiça, se tás assim com tanta fome, ainda sobrou uma carcaça dontem. E uns restos de nutella. – ela vai à caixa do pão e atira um pedregulho de partir o dente para a mesa. – Toma lá e não me agradeças. 


Quando ela aproximou-se de mim, reparei como tinha um aspecto diferente, com o pijama da Hello Kitty, pantufas, cabelo apanhado e a carinha fresca sem maquilhagem. Foi só então que me apercebi o quão gira ela era realmente. 

Sentámo-nos então à mesa e ficámos ali a na galhofa para passar o tempo, continuando com as nossas conversas da treta, daquelas que toda gente tem de madrugada e depois raramente consegue evocar no dia seguinte.

Ela falava. 
Falava.
Tão excitante.... 
Mas duma forma anormal tipo auto-asfixia erótica.

Sentia a minha garganta a apertar, a faltar-me o ar. 
Como se me tivesse esquecido de respirar durante o sono. 


Até que subitamente veio o silêncio outra vez, naqueles instantes em que uma pessoa não sabe mais o que dizer... e ficamo-nos a olhar para as fronhas uns dos outros, com o coração mergulhado no infinito. 





Parecia quase a última cena dum filme em que as personagens ficam-se sem palavras depois de superarem todas as amarguras, mas ao mesmo tempo perderam irremediavelmente aquilo que lhes era mais precioso para a eternidade. E uma batida de disco sound começa a ecoar enquanto rodam os créditos no fim.  

Sabes do que estou a falar? Um momento doce amargo de fazer tremer as gengivas. 
Que não é provocado por tesão sexual. Nem pouco mais ou menos por delírios românticos. 

É simplesmente uma empatia pura e indescritível pelo próximo e por tudo que nos rodeia, mesmo que a nossas vidas e o mundo estejam na merda, nada disso importa. 

Talvez fosse devido ao álcool que ainda tinha no sistema... mas senti um bocadinho de paz de espírito naqueles efémeros minutos. E só pensei para mim, como gostava que isto durasse para sempre. Mas nós bem sabemos que essa ilusão não é possível. 

A Rapariga acende outro cigarro, sempre com um sorriso vago de esfinge, deixa cair a cabeça para trás, viajando por paisagens de cortar a respiração que eu não conseguia sequer imaginar. Pergunto-me que sentimentos profundos é que dançavam naquela alma inescrutável...?

-- Epá, desculpa lá, já estou a atrofiar aqui há um bom bocado. – exclamou ela de repente. -- Tenho ainda os miolos feitos em papa, vou ficar a tarde a ressacar como uma doida... Enfim por isso aproveito agora para fazer as minhas limpezas... 
 

-- Ahhh.... ok... também estavas com um ar parvo de carneiro morto...

-- Oh, olha quem fala.


Ela levanta-se, vai buscar o cesto de roupa, e programa o tempo da máquina de lavar. Depois pega na esfregona e começa a lavar o chão da cozinha. Eu só de observar a miúda estava a ficar cansado, por isso não me ofereci para ajudá-la, como o bom malandro que sou... 

-- Aiii a merda, eu preciso é de um homem que me faça estas tarefas domésticas! Isto não é vida pra mim. – queixou-se ela de costas.


-- Um homem? Deves tar a sonhar. Só arranjas um kit de limpezas ambulante se tornares-te numa lésbica ressabiada. 

-- Ah pois claro. No próximo fim de semana, vou ai engatar num bar qualquer uma menina prendada com piadas cretinas, e arrastá-la aqui para casa. 


-- Oh yeah, e depois prendes a miúda todos os dias com palavras meigas e afectuosas, “Querida és a luz dos meus olhos... a jóia da minha existência, o queijo e fiambre da minha tosta mista.”, apesar de chegares sempre tarde do trabalho porque estiveste a comer a secretária!

-- Sim, uma mamalhuda chamada Jessica. – ela brinca com a língua – Lambia-a todas as noites até que ela chorasse de prazer e a fizesse compensar pelas horas extraordinárias! 


-- Okay.... Esta conversa já a ficar fora de controlo.... Eu não queria que te tornasses numa scissor sister. Seria uma pena.  

-- Para quem? 


-- Sei lá. Talvez para o amor da tua vida hipotético que anda por aí e ainda não o encontraste. Que será de certeza um gajo idiota que gosta dos Radiohead e ri-se mais com a tua melhor amiga do que contigo.

-- Lá estás tu a inventar histórias fantásticas.... Descansa que eu não tenho esse género de fantasias adolescentes. Eu acho que me contento em arranjar no futuro um tipo podre de rico com um pé já no cova. Eh eh. -- ela acaba de esfregar o chão e encosta-se à parede ao pé de mim. – Então e vocemessê? Já encontrou a senhora da sua vida?


Virei a cara para o lado e mordi os lábios.

-- Hmmm, eu não tenho nada a dizer sobre isso... – respondi eu abruptamente. 
 
-- Aah, esse “nada” significa mesmo que há aí qualquer coisa pá. Se tiveres algum problema podes me contar, talvez te possa ajudar.


-- ......... Deixa estar, tou óptimo.  
 
-- Eu conheço essa pessoa? 


-- ...... – fiquei calado, porra, agora não me vinha nenhuma resposta sarcástica à cabeça.

-- Ao menos já foste sincero com ela?—continuava a insistir a parvalhona.  


-- O que é que isso interessa...? – retorqui eu já bastante arreliado. 

-- Não? Oh meu Deus... Tu és mesmo um emplastro incurável. O que é que tás aqui a fazer? Acorda pra vida, e vai confessar agora como sentes uma tesão incrivelmente desconfortável nas calças por essa mulher! 


Eu fiquei um bocado desconcertado com o comentário dela. 
 
-- O quê....?? Mas que raio de sugestão parva é essa? Pareces um gajo a dar conselhos.

-- Sou tou a ser realista, senão vais atrás dela, é simplesmente outro que a vai segurar nos braços. E isso meu amigo, pode ser triste, mas é a mais pura verdade. 


-- Olha tou farto desta conversa. Preciso de ir mijar, onde é que é a puta da casa de banho?

-- Hmpfh... vai lá fazer... é ali ao lado, dentro do meu quarto. 


Fui me embora para o corredor, rangendo os dentes, estava tão contente há bocadinho, mas a chata da miúda já me conseguiu pôr-me mal humorado. Tssss..... sinceramente. O que é que eu vim aqui fazer? 

Entrei no quarto da Rapariga Perturbadora e fiquei pasmado com o caos de roupas e tralha espalhada pela cama, na cómoda e no chão. Até o meu quartinho parecia o Ritz Hotel comparado com este antro. A única coisa direita que havia lá era uma tela de cortiça pendurada na parede com várias fotos. Nada de invulgar, fotografias da Rapariga com os amigos e amigas, e até uns auto-retratos introspectivos a olhar para o horizonte com uma expressão séria, a preto e branco que dá sempre um ar de sofisticação incomparável....

No entanto existia algo de insólito nestas fotos que parecia ser mais do que uma simples coincidência. Ondas de déjà vu a desfazerem-se e a inundarem os confins da minha memória mutilada mais uma vez, estava a ficar doente de cansaço destes malditos episódios de paramnésia. 

O que me incomodava nesta galeria típica é que em nenhum dos retratos ela sorria duma forma óbvia. Como se não soubesse mostrar os dentes. Parecia uma arlequim triste que perdeu a vontade de cantar e dançar. No máximo esboçava um sorriso meio forçado e desconfortável. Huh, se calhar usava aparelho mesmo à Frankestein até recentemente... quem sabe? 


Dirigi-me então para a casa de banho, levantei a tampa da sanita, abri a braguilha e fiquei a olhar para um quadrozinho por cima do autoclismo. Era duma cena pé do mar, com um areal vazio onde se encontrava apenas uma prancha de surf sozinha. 

Fixando-me naquela paisagem levou-me para um fim de tarde de Verão há muitos anos atrás por entre as dunas da Caparica... bandos de gaivotas voavam à volta dos barcos de pesca, a brisa carregada de sal entrava-me pelos pulmões adentro, enquanto o céu azul era acariciado por nuvens de tons laranjas e acinzentados. 

Ouvi a voz dele a perguntar-me:

-- Sabes qual é o melhor sítio do mundo onde um tipo pode estar? 

-- Numa praia tropical?

-- Não não... tou a falar dum sítio especial em que deixas de sentir o tempo, em que te libertas por completo e podes verdadeiramente dizer que estás feliz... 

-- ..... sei lá... depois de receberes uma anestesia geral?

-- Ah ah, nah. Para mim é lá no mar. No interior da pipeline. Man, é difícil de explicar, mas é mais alucinante que conduzir um Ferrari, mais divertido que todas as brincadeiras idiotas que tivemos quando fomos putos, mais apaixonante que estar dentro do cú da gaja que adoras...

-- Se tu o dizes.

-- Quando for a minha altura de ir, gostava de só passar através daquele túnel de água só uma última vez, sempre a abrir, como um cometa em rota de colisão com o sol, e deslizar por uma onda perfeita que nunca chegasse a desfazer-se na margem, desaparecendo por entre a espuma na zona de rebentação dos recifes...

Eu não fiz mais nenhum comentários às ideias maradas dele, se calhar devia ter dito alguma coisa interessante para a posterioridade, porque foi o último Verão que tive com o Rapaz-Surfista, o meu velho amigo de infância.



Puxei o autoclismo, lavei as mãos e saí da casa de banho. Mas ao passar pelo quarto tropecei numa merda qualquer, olhei para o soalho e num cantinho debaixo da cama reparei num chicote, par de algemas e umas botas pretas de pvc deixadas ali depois de serem usadas. Hmm... se calhar ela foi a uma festa de máscaras recentemente e vestiu-se como a Lady Dominatrix. E eu também não posso dizer nada porque tenho um fato de pinguim no armário...

Fui para o corredor e ouvi a Rapariga Perturbadora na sala. Estava agora a arrumar aquilo afincadamente, e a meter o lixo num saco de plástico.

-- Ah, ficaste com a consciência pesada depois de eu comentar o estado deste covil?

-- Nem por isso. Ia ter de limpar isto de qualquer das maneiras. – rezingou ela. 


Ela arregaça as mangas da camisa completamente, revelando outra vez a tatuagem brutal que tinha no braço perto do ombro. Duma serpente a comer a sua própria cauda.
Aquela imagem seduzia-me tanto duma forma inexplicável que não resisti então em perguntar-lhe:

-- Ena... Tens ai uma bela tatuagem. Deve ter doído para caralho fazê-la... – a serpente parecia que ondulava sobre areia na pele bronzeada dela -- O que é que significa para ti exactamente?




Ela pára de limpar bruscamente e fica paralisada durante uns segundos.

-- Significa eternidade.... Tem um simbolismo místico qualquer sobre a alma do mundo e o ciclo de sofrimento interminável do universo.


-- Que profundo. 

-- Para dizer a verdade, acho que só a escolhi porque me pareceu gira na altura. Andava com um rapaz da Costa da Caparica, e estávamos tão apaixonados que tivemos essa ideia estúpida de fazermos os dois uma tatuagem gémea... 


-- Mas porquê?

-- Pá não sei te responder, tínhamos 18 anos, e por isso queríamos trocar algo mais verdadeiro do que qualquer aliança...  


-- .... tou a ver... 

-- Claro que acreditávamos que ia durar para sempre, mas acabámos no ano passado duma forma péssima.


-- Humm... E nunca mais se falaram?

-- Nem por isso. Nunca mais pensei nele. A única coisa que guardei dele foi a prancha que ele me ofereceu. 


Deixei a conversa por ali ao aperceber-me que ela estava quase em lágrimas, contendo os olhos a muito custo.

Ela procura o maço de tabaco e acende mais um cigarro compulsivamente.

Lá fora começava a amanhecer, e ouvia-se o alarme solitário dum carro a gemer ao longe. O cinzeiro na sala fluía para fora demasiado cheio de beatas velhas, um mar de ansiedade que submergia as paredes que nos cercavam em algas de desolação de dias mal afogados, enquanto o fumo passivo envolvia-nos pouco a pouco e eu voltava a inalar cancerosamente a respiração dela. 

Inspirei fundo. 
Algumas cinzas quentes caíram do cigarro dela em câmara lenta para o chão. 
Expirei para fora... 
Quando esquecer e rodear-nos doutras pessoas é a única solução ao nosso alcance. 
Sentia outra vez a respiração a pesar-me. 
Quando o trabalho e os copos são o único porto onde nos pudemos refugiar. 
Cada vez mais dificuldade em respirar. 
Quando os nossos corações mentirosos se tornam irreversivelmente no reflexo das máscaras que carregamos... 
Até que cessei por completo como se sofresse dum ataque de apneia do sono.  


E depois no fim fica tudo bem outra vez... tudo bem no universo...
Ou não. 

Quem sabe? O que é que isso interessa, porra? 

Ali a um passo da Rapariga Perturbadora, eu apanhava na cara com o turbilhão de emoções que lhe fustigava as entranhas, e sabia bem o que ela precisava mesmo era de abraçar o ombro dum verdadeiro amigo... 

Não para lhe curar milagrosamente o tumor que lhe comia por dentro, ninguém podia fazer isso a não ser ela, mas para ajudá-la a aliviar os sintomas e fazê-la sorrir de novo... 

O glaciar no meu peito invadiu finalmente cada centímetro do meu âmago.

Por isso peguei no meu casaco e disse-lhe:

-- Bem, tá na minha altura de bazar. O metro abre agora.

-- Vais-te já embora? – perguntou ela ligeiramente surpreendida -- Tudo bem. Deixa-me acompanhar-te até lá fora...


-- Xau. Foi um prazer conhecer-te.

-- Também. Desculpa lá isto. Chatear-te com as minhas histórias.


-- Não há problema. Fica bem. 

Saímos os dois até à rua. 

-- Olha se algum dia passares por perto, diz qualquer coisa. – sugeriu ela bem educadamente. 


-- Claro. – respondi eu, sabendo demasiado bem que esta seria a última vez na vida que falaríamos. Acenei-lhe um adeus e caminhei dali para fora com passadas largas, sem olhar para trás.

Nem tive paciência para entrar na estação de metro, precisava de arejar a cabeça, por isso decidi andar a pé da Baixa até Telheiras. 

Se eu soubesse que ela era tão croma como eu, tinha andado à porrada com aquele cabrão do boné e óculos escuros que só disse asneiras sobre a badalhoca. Ao menos não tinha ido parar a casa dela... foda-se. 

Atravessei as ruas vazias de Lisboa duma manhãzinha sonolenta que ainda não entrou em ressaca, perdendo-me no labirinto de cimento, alcatrão e betão, mas sem nunca conseguir esquecer as memórias boas e más que tenho de cada palmo desta cidade assombrada, cada esquina, cada praça, beco e arcada. 

Andei, andei, andei, e estava a escorrer-me suor das costas de tanto palmilhar, por isso decidi descansar um bocado, apoiando-me por cima dum corrimão dum viaduto algo familiar.

Quando tiro a mão do metal frio do corrimão, encontro um graffiti rabiscado com uma letra trémula e apagada pelo tempo.

"Tenho saudades tuas, A. Não posso mais..."

Naquele segundo, tive um curto-circuito nas ligações mais antigas da minha memória, mas não sabia dizer exactamente o quê concretamente. Como se tivesse perdido a habilidade de associar certas palavras às suas imagens correspondentes... deixando elas de ter qualquer significado em especial para mim.

Suspirei, e ao olhar lá para baixo reconheci o prédio velho a poucas dezenas de metros. Não era onde vivia a Rapariga do Lado? Ou então era uma casa muito parecida.... Huh, porque é que eu sequer parei aqui? Vou mas é bazar deste sítio o mais depressa possível. 

E estava a preparar-me para ir-me embora quando ouço umas sirenes a aproximarem-se.
Fico à espera curiosamente dalgum perseguição da polícia, mas em vez disso, vejo uma ambulância do INEM a vir a toda a velocidade e a estacionar bruscamente ali à frente. Num ápice, dois paramédicos entram a correr para dentro do prédio.

Sinto o coração a desfalecer, a boca a secar, o gelo sólido e espesso subitamente a estalar por todos os lados. E se....? Não... não pode ser...

Salto pelas escadas do viaduto a correr, quase caindo dali abaixo, atravesso a rua e atiro-me de rompante pelo edifício adentro.

Bato à porta furiosamente, outra vez e outra vez.... enlouquecendo de impaciência por cada segundo que passa.

E quando alguém abre finalmente a porta, deparo-me com um gajo desconhecido de olhos tristes.

-- A A. está bem?! Onde é que ela está? – gritei eu.

-- Desculpa, mas não vive aqui ninguém assim.

-- Ahh.... – atrás dele ao fundo do corredor vejo uma silhueta a mexer-se, e eu empurro-o para o lado, indo em direcção a ela. Parecia ser o corredor mais longo e tortuoso que alguma vez tinha percorrido na vida... Até que agarro o braço daquela sombra e quando me defronto com a cara dela... não a reconheço também... Era só uma rapariga vestida de arlequim, envolta num fato preto e maquilhagem branca como a morte.

-- Sabes, tosco... Tu nunca a vais encontrar... – comentou ela de língua de fora, encolhendo os ombros. – Nem aqui, nem em nenhum lugar. Por isso desiste e desaparece.


Sinto a sala às voltas e afasto-me a cambalear, os risos dela a partirem-me todo, e quando meto os pés fora do prédio caio subitamente para o fundo dum precipício, um abismo branco de vazio infinito... 
 
Abro os olhos, e a primeira coisa vejo é a sombra das folhas das árvores projectada na tela da tenda. Ouço o vento a soprar roucamente enquanto crianças gritam lá fora no parque de campismo. As imagens vagas e escorregadias da noite passada são lavadas pelo ralo abaixo com o acordar para a realidade, e por muito que tente já não me consigo recordar concretamente do que sonhei além duns escassos fragmentos. Só sei que não foi uma experiência muito rejuvenescedora, porque tenho o corpo todo destroçado, e estou a sangrar da boca. Provavelmente foi por causa destes malditos calhaus afiados que arranjam sempre maneira de se infiltrarem debaixo da tenda como penetras numa festa...

Ao meu lado vejo o meu amigo o Rapaz-Mocado e as minhas colegas a dormirem como anjos, enrolados nos sacos de cama, de boca aberta e a babarem-se completamente. É engraçado como toda gente é tão querida quando não está a falar, ontem à noite fizerem uma barulheira desgraçada, murmuravam durante o sono e mexeram-se tanto que me perturbaram os sonhos duma forma quase metafísica....

No final tinha sempre ido com eles acampar para o Algarve, talvez para fugir de Lisboa ou de mim próprio... é inconsequente. O que interessa é que o meu desassossego habitual tinha se desvanecido quase todo com estes dias de lazer...   

Por isso só queria proferir uma última coisa antes de a minha consciência desaparecer entre a memória, os sonhos, e a realidade. A única frase que ainda tenho a dizer-te nesta altura exacta para o que vale...:

-- Olá.....
então como é que vai esse surf, pá?


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