Segunda-feira, Outubro 06, 2008

O Princípio do Fim Do Princípio Daquela Mágoa Familiar: Parte II

Nunca tiveste aqueles momentos de antever um automóvel a vir contra ti e a tua única reacção é simplesmente ficares paralisada como uma lebre parva no meio da estrada...? Aquela injecção alucinante de euforia e pavor a ferver nas veias pode abrandar a tua percepção do tempo até o mundo inteiro parecer estar a rastejar, mas nunca chegas a ver exactamente uma sequência de montagem catita da tua vida a passar pelos olhos... E não... também não proferes últimos desejos como “Oh, gostava de ter feito o não-sei-quantos mais feliz...” ou “Queria tanto despedir-me da mamã e dos meus amigos...” Esses remorsos pertencem mais a filmes lamechas de domingo à tarde do que na nossa realidade vulgar. Porque a maior parte das vezes, por muito que não queiramos, a única coisa com o qual ficamos verdadeiramente obcecados antes de morrer é num detalhe inconsequente do género:

“Ah, esqueci-me de alimentar o Bitó, tadinho do bicho, o que é que vai ser dele?”

“Merda, o cabrão do meu colega agora nunca me vai devolver o CD dos White Stripes que lhe emprestei....”

“Ou vou perder hoje o episódio final do Lost... Nunca vou saber o que se passa com aquela maldita ilha!!! Nãaaaaaooo....”

Quais serão os teus últimos pensamentos quando te metes numa situação muito desagradável em que estás a uma unha negra de esticar o pernil?

Hmm... bem não interessa, provavelmente nem sabes. Mas eu posso dizer os meus naquele segundo exacto. Só havia uma coisa importante em que estava fixado, e me atormentava o coração duma forma profunda.

E era o facto de a médica legista ir encontrar-me mais logo com um par de cuecas foleiras do Mickey vestidas no meu cadáver inacreditavelmente bem parecido.




Mas porquê....?!

Não posso bater a bota assim.....!!!!

Tenho de viver! Tenho de viver! Tenho de viver!
Tenho de viver! Tenho de viver! Tenho de viver!
Tenho de viver! Tenho de viver! Tenho de viver!

Ouvi a buzina a apitar, travões mal empregues, adrenalina a correr. Eu mal tive tempo de reagir e entrar em pânico, o meu cérebro reptiliano descambou para o modo instintivo, virei o guiador para o lado violentamente, e só senti a roda da minha bicicleta a bater contra uma elevação no passeio e a empinar-se toda feita égua endoidecida...




Levei com o selim no meio das pernas dolorosamente, como um quebra nozes/chicote/strap-on nas mãos duma dominatrix mal disposta que não tomou a sua dose de lítio, caindo torto da bicicleta no pavimento, esfolando a pele das mãos e dos braços, e a última coisa que vi depois do choque foram clarões esbranquiçados tão belos que até dava vontade de chorar.

Deitado no âmago daquela escuridão clara, podia ouvir ao longe uma mulher a cantar com uma voz velha de dez mil invernos.



Discover Nina Simone!



Não existe dor.

A dor é uma ilusão.

Eu não estou no meu corpo.

Estou no meu sítio feliz.

Oh yeah, onde é happy hour todo o dia.

Com praia, mar de águas cristalinas e palmeiras. Muitas palmeiras.

Debaixo dum sol enternecedor que me beija as feridas e aquece o espírito.

A bebericar uma Piña colada refrescante com aqueles chapéuzinhos de papel.





Enquanto um enorme russo chamado Vladimir com mãos admiráveis e pujantes faz-me uma massagem profunda às costas. Ooh, da, é mesmo nesse sítio. A fazer desaparecer todas as dores e tensão acumuladas ao longo dos anos.

Ele diz-me só no seu sotaque de Europa do Leste:

-- Camarada, saber qual ser a melhor piada que Deus dar-nos? Que ser mais doce que mel? É que nada dura para sempre.

Eu concordei silenciosamente, e deixei-me ir com o murmurar das ondas do oceano, embalado pelo risos azuis turquesa dum céu sereno que nunca acabava.

Abri os olhos outra vez, deitado de cara para o chão, ouvindo os carros a passar na estrada, o cheiro a gasolina queimada, as cigarras a cantarolar obsessivamente por sexo, a brisa dum Verão tímido a soprar apertadamente com a passagem dum minuto interminável atrás do outro, enquanto que a minha respiração leve como uma baleia a nadar na água cascava completamente fora de ritmo com o resto da máquina citadina. O granito do chão estava frio, um arrepio percorreu-me todo desde a base da espinha até às gengivas, fazendo-me sentir cada forma de vida num raio dum quilómetro, as vibrações dos passos minúsculos de um carreiro de formigas ao pé de mim, as folhas a amadurecerem nos ramos das árvores, os chutos contínuos duma bola de futebol velha contra a parede por um puto ranhoso qualquer.

Estás a ver aqueles momentos mágicos súbitos de lucidez absoluta...? Em que de repente tudo faz sentido, e consegues ter consciência de cada pormenor dentro de ti e à tua volta, desde os trilhos menos usados das tuas memórias ao caminho preciso a prosseguir no futuro.

Parecia que tinha sido inebriado por uma onda de anestesia inconsciente invisível que se espalhava como um incêndio selvagem sobre as artérias das ruas e avenidas, pelos prédios e através das entranhas de cada pessoa, num constante ciclo de evasão à dor, escorrendo duma forma tão espessa pela terra que até se sentia no ar o cheiro a ferro a sangrar, deixando-me insensível dum modo absoluto que eu já nem me importava com o facto insignificante de estar caído no chão feito num oito...

Estava tudo bem. Como um caule de bambu solitário a cair no meio da floresta imensa que não existe. Como um sem-abrigo morto no passeio que ninguém vê. Sentia-me expurgado de todo o veneno que me deixava em baixo.

E é esse o simples segredo para uma vida feliz.

Abre o coração ao consciente colectivo da cidade, e deixa toda a loucura e indiferença em massa curar-te...


Os cínicos chamam a isso crescer...
Mas já não ouço mais a voz dela a gritar que eles estão errados...
Só que gostava. Gostava mesmo.


Nuvens encrespadas ofuscaram os raios do sol, tapando o céu azulado, cobrindo a rua dum tom pardo.

Enfim, enfim, como ninguém ia parar para me ajudar nem que esperasse sentado durante cem anos, levantei-me sozinho e sacudi a poeira da roupa.

Apalpei os ossos e fiquei contente por não estar partido em estilhaços ou ter algo deslocado numa direcção completamente errada. Só uns arranhões e nódoas negras.

Yay, tou fino!

Enfim, decidi então acabar o meu passeio, arrastando a minha bicicleta de lado, enquanto manquejava um bocado duma perna. Meti o raio da bike dentro da garagem privada lá do bairro e voltei depois para casa.

Subi as escadas todas até o telhado do meu prédio para fazer ainda alguns flexões e abominais. Hoje devo andar com a mania que sou o Rocky Balboa.

Bah.... Mas vou sempre abaixo quando chego a meia centena... Até uma modelo meio anoréctica faz mais repetições que eu...

Sinceramente, eu odeio fazer exercício. É mais chato que aturar um parente realmente velho e senil que nunca gostou de nós e não nos vai deixar nada na herança.

Enfim vou terminar com as elevações do costume e depois tomar um banho quentinho. Agarrei-me ao parapeito alto da janela do telhado e fui levantando o corpo para cima, sentindo os músculos dos braços a queimar, o suor a escorrer lentamente pelo pescoço abaixo e a encharcar-me as costas...

Sabes... com o passar do tempo, o peso que um homem carrega torna-se parte do seu próprio peso.

É por isso que ser um rapaz inconsciente rula tanto! Nascido livre, vivendo sempre sem hesitações para um dia explodir num acidente rodoviário num milhão de pedaços pequeninos irreconhecíveis sem arrependimentos. 

Respirei fundo, e decidi largar as mãos do parapeito, deixando-me cair no chão devagar, como uma tonelada de algodão doce.

Aah, é realmente a única razão decente pra mexer-me, não é por ser saudável, não é pelo culto do corpo, nem sequer porque é divertido. É pelas endorfinas. Para afundar-me neste estado de bem estar em que estamos a flutuar num mar de emoções esvaziadas, e que deixamos de simplesmente pensar. Nada melhor que estimular nos nossos miolos os mesmos receptores de opiáceos sem gastar um cêntimo, nem ter de ir fazer uma visita a um dealer gorduroso que grama enfiar um taco de basebol portentoso pelo cú acima de clientes marotos que não lhe pagam.

Desço então para o meu andar, ligo o gás, vou para a casa de banho despir-me, e estava a meter-me no chuveiro, quando subitamente ouço o telemóvel a tocar. Saio outra vez e vou atendê-lo chateado.

-- Tou.... O que é que se passa pá?

-- Sou eu. – responde o meu amigo o Rapaz-Mocado. Com um camandro, não me apetecia mesmo aturar hoje o morcão. Aposto que vai me pedir um favor ou dinheiro emprestado....

-- Fantástico. O que é que tu queres?

-- Hmm, estavas a fazer alguma coisa de jeito? -- O tipo desde que descobriu o maravilhoso mundo da ganza há uns tempos, anda a ficar muito encravado da cabeça. No entanto, não o consigo censurar muito, visto que se perdesse o amor da minha vida ou coisa que o valha como ele, já me tinha metido em coisas bem mais pesadas.

-- Não, não... Nada. – resmunguei eu cada vez mais impaciente.

-- Então olha, queres vir hoje à noite para uma road trip? Vamos acampar!

-- Hmm... à última da hora? Sem nada planeado? Ok, parece-me bem. -- Eu fiquei mais emocionado, uma aventura imprevisível maluca promete sempre momentos divertidos duma estupidez exacerbada.

-- Vai ser mesmo porreiro. Vamos ter com umas colegas e passamos uns bons dias no parque de campismo e na praia... E se aquilo não prestar pudemos sempre ir à noite entreter-nos nos bares, assediar umas camones e comer muito mexilhão, huh que tal...?

-- Estou nessa, pá. E para que sítio é que vamos?

-- Lá em baixo. Para a Lagoa. – Mal ele disse isso, senti outra vez a velha sensação insuportável a déjà vu a electrocutar a minha mente toda.
Recordei-me subitamente duma série de convites, e planos de Verão todos para o mesmo destino. Fragmentos de memória como Polaroids mal reveladas. E eu já tinha queimado essas fotos todas em cinzas para puder voltar a reencontrar o meu velho ego. O cabrão.

-- Huh... eu...

-- Prepara a mochila, que passo ai daqui a uma hora.

-- Não espera. – disse eu atordoado -- Lembrei-me que já tenho uma cena marcada hoje, e não posso ir.

-- A sério? Não podes desmarcar para outro dia?

-- Não. É impossível. Mas não interessa, também ir para esse cu de judas e aturar certas pessoas da escola outra vez... era o que faltava. Xau, tenho de ir.

-- Pronto, pronto. Tu é que sabes. Adeus. – ele ficou meio espantado, mas não retorquiu nenhum comentário e desligou.

Atirei o telemóvel para o lado, e nem considerei voltar atrás. Queria lá saber se noutra realidade houvesse uma cópia minha que tivesse ido numa road trip catita. Podia distrair-me em Lisboa de maneiras melhores. Há tantos espaços urbanos misteriosos ainda para explorar e pessoas interessantes para chatear e gozar de graça.

Fui para o duche e fiquei debaixo da cascata de água morna durante uma eternidade, um rio inteiro a escorrer pelos cabelos e cara abaixo, deixando toneladas sobre toneladas de água passar pelo meu corpo, mas por muito que me lavasse não conseguia livrar-me desta infecção podre dentro de mim.

Bazei do chuveiro finalmente, e fui-me vestir para o quarto. Só que não sei porquê, não conseguia ficar sossegado. Precisava de sair de casa outra vez. Sim... era isso... já sei o que tinha a fazer esta noite...

Passei só primeiro pelo armário de ferramentas, peguei num martelo, meti-o dentro do bolso do casaco e fui para a rua.

E assim vagueei o bairro à procura daquele gang de mitras que já tinham atormentado demasiados miúdos para o meu gosto.


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