Quarta-feira, Outubro 22, 2008

Noites De Déjà Vu De Vidas Demasiado Acreditáveis: Parte I

Há uma dor profunda que nunca iremos conhecer na vida, que é a dor sentida por alguém que sente a nossa falta duma forma inapagável e a esconde por detrás dum sorriso meigo todos os dias. E ainda bem que somos salvos dessa merda. Ou estávamos tão duplamente fodidos como um bebé metido no micro-ondas dum pedófilo canibal, right?
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Ele dançava...

Ele dançava como se houvesse um enorme lança chamas nas mãos duma feminista nazi violada vingativa a queimar-lhe os tomates e a ameaçar a sua descendência futura toda. Como se através do simples acto de dançar pudesse espantar todos os males e mágoas da vida moderna e perder-se em si mesmo. 

Filho da mãe sortudo.



Discover Stevie Wonder!



E não parava um instante, sempre aos saltos, possuído por uma euforia tribal que cuspia por todos os lados. Fiquei durante uns minutos a vê-lo ondular através da rua pejada de noctívagos e garrafas partidas dum Bairro Alto ainda não completamente desertado de gente que se foi entrincheirar numa praia algarvia ou brasileira qualquer.

O cabrão dançava...

Dançava...

Dançava...

Porque era o Rasta Blasta. 

Gajo branco de barba comprida, óculos de sol e boina, com as dreadlocks a esvoaçarem por todos os lados, batendo com os pés no pavimento, flutuava à volta das pessoas mais acelerado que um beija flor depois de andar à marmelada com uma planta de coca.




A crew dele estava no passeio, e pareciam ser todos suspeitos mais velhos que eu que fugiram duma vida confortável de classe média pra estas jornadas relaxadas de cidade em cidade, acompanhadas por cantorias muito espirituais e pacotes de vinho do Lidl. Os outros rastas arranhavam uma guitarra que já viu melhores dias, cheia de auto colantes e tags jocosos como “JAMAICA POWER!”, enquanto curtiam também com uma flauta melódica. E eles cheiravam tão cronicamente a fumo de marijuana queimada que até metia vergonha à mãe de todos os clichés...

Estávamos no final do Verão, os dias de serenidade e paz a desaparecerem cada vez mais depressa do calendário um atrás do outro, e notava-se um certo desespero no ar, de espremer sofregamente cada gota de divertimento pela goela abaixo, como se isso nos fosse salvar, mas... 
No fundo éramos todos ratos condenados dentro dum navio a afundar-se. O SS SUMMER. Podia até ser um barco do amor terrivelmente deslumbrante cheio de prazeres, memórias escaldantes e pessoas interessantes, mas sofria dum rombo no casco irreparável causado por um certo senhor que não perdoa ninguém. 

O Tempo.

Não que eu me importe, tempo era tudo o que me restava. Isso e pra aí 2 euros no Multibanco. 

-- Merda de Verão. Merda de cidade fantasma. Mas até às moscas consegue estar à noite entupida de gente insuportável. Quem são estas pessoas pá? E onde é que estes bêbados todos se escondem de dia?? – pergunta-se o Rapaz-Chillout entre tragos duma litrosa meio-cheia. 

Ele era um amigo meu mais afastado que estava permanentemente com boas vibrações, tranquilo na sua onda a ouvir uma playlist com musiquinhas tipo Ministry of Sound, Groove Armada, Café Del Mar, esse género de cenas místicas de afagar a alma, feitas em programas de computador... Quer dizer eu conhecia-o desta maneira das poucas vezes que falei com o gajo, mas a personalidade duma pessoa nunca é assim tão simples como gostamos de acreditar. Excepto se for mulher. Tipo uma tal pacóvia admirável que apesar de pensamentos complicados devido a década e meia de escolaridade, continua a ser a parva da vila. Ok, prontos, tou a meio a brincar, não gramo insultar ninguém por escrito. Só tem graça gozar com alguém na cara ao vivo, de preferência em frente de montes de crianças terríveis com um sentido de humor à Calvin & Hobbes.

E ouvi de repente um eco consumido vindo do fundo escuro do coração, como um moribundo a gemer sob os destroços de memórias de mil toneladas que não consigo enterrar nem varrer, incendiado de déjà vu e coberto dum nevoeiro velho e entorpecido. Era a voz gentil dela a sussurrar-me apenas duma forma condescendente:

“És tão linear.”

Eu ignorei esse flashback e continuei a conversar com o gajo. 

-- Huh, por acaso acho que ainda existem por aí muitos malucos bem fixes. E sóbrios ainda por cima. -- respondi eu, lembrando-me do velho excêntrico que fazia robot dancing em Telheiras. 

Reparei então que a malta da rua em redor dos rastafari andava com um sorriso amarelo nos lábios, miúdas a dançar, tipos a assobiarem, realmente, a música faz isso às pessoas, é a linguagem universal, mesmo que seja muito duvidosa. Hmm... O que me põe a pensar... eu devia era formar uma banda estilo Tokyo Hotel para arranjar groupies. E provavelmente ser preso depois por assédio repetido a pitas menores. Bons tempos que isso seria!

-- Pá, tirando os malucos, acho que só há pessoal triste nesta cidade do caralho. É só betinhos, mitras, badalhocas, cabrões, morcões, benfiquistas, camones, testemunhas de Jeová, bichas malucas, góticos, skinheads, escuteiros-mirins, aaaaahhh.... e estes clones do Bob Marley, pedintes dum raio. Que vão arranjar um emprego, foda-se. – exclamou o Rapaz-Chillout duma forma tão agressiva que não parecia mesmo nada dele... 

-- Tás a ser negativo. Se calhar, por detrás da máscara social e deste ritual de estupor alcóolico semanal em que a maior parte das pessoas se refugiam, existem seres humanos belos, felizes e dignos de serem amados...!

-- O quê?! Pessoas felizes? Em Lisboa? Mas do que é que estás a falar??

-- É assim, viemos todos do mesmo sítio e vamos acabar no mesmo sítio. No Nada. Poeira interestelar. Não existe Céu, Nirvana, 70 virgens loucas esfomeadas, ou qualquer outra recompensa eterna à nossa espera. Isto é tudo o que temos pá. Por isso mais vale apreciar a viagem e partilhar a alegria com o próximo enquanto duramos. Porque haverá algo mais prometedor do que a possibilidade de encontrar uma história fantástica em cada pessoa que temos o prazer de nos cruzar?

-- Não estás a fazer sentido nenhum, homem.... O que é que te aconteceu? Conheceste uma miúda mórmon ou uma hippie boazona? Ela converteu-te à religião do amor, foi?

-- Nah, a fé não passa dum par de muletas psicológicas pra almas desgraçadas que não querem andar sozinhas. Porque sabes, para uma pessoa ser feliz basta simplesmente o ser... 

-- WTF? Onde é que foste buscar isso? Ao Segredo? 




O tipo encolheu os ombros. 

– Quem me dera que as coisas fossem assim tão fáceis. Foda-se.

Eu não estava com cabeça para discutir com ele, principalmente porque não andava com muitas convicções por detrás dos meus argumentos... e por isso deixei a conversa morrer. Fiquei calado, também já tínhamos chegado àquela parte da noite em que já não há nada de jeito para se dizer sóbrio, e só falta mesmo começarmos a debitar uma série de merdas incoerentes sobre a ligação entre o rabo tão perfeito do George Clooney e o Triângulo das Bermudas. O rasta parou finalmente com a sua performance e começou a pedir bem educadamente por moedas, mas eu não me apetecia dar mais nada a ninguém, e entrei lentamente no meu modo introspectivo, a lembrar-me de coisas que não me recordava há anos...

“.... és tão linear....” 

Eh... que comentário engraçado. Pergunto-me se era mesmo um tipo limitado como ela achava... e se isso era assim tão péssimo?

Pergunto-me também porque nunca mais voltei a falar-lhe...?

Provavelmente porque não queria mandá-la pró caralho e atirar-lhe com um móvel do Ikea à cabeça... 

Enfim, que se lixe o passado, vou mas é apreciar o resto da noite.

Mas fiquei com uma última questão na parte detrás da minha consciência, hmm... o que é que faria realmente se me dissesses a mesma coisa?

Acho que só haveria uma solução...





O Rapaz-Chillout pôs-se então a meter conversa com uma espanhola de Erasmus, e via-se na cara que estava com intenções de comê-la por debaixo das falinhas mansas do costume, por isso afastei-me dele e fui pra galhofa com o resto do pessoal.

Tinha saído com um grupo grande de pessoas, a maior parte amigos de conhecidos do vizinho das primas do cão da colega da turma, ou seja não fazia a menor ideia de quem esta gente era, mas estava tudo numa boa. 

E no meio deste bando notei em alguém que me apanhou a atenção duma forma inexplicável. Ela não era uma beldade fabulosa, nem tinha um riso agradável, nem sequer parecia uma tipa podre de rica capaz de comprar o coração a qualquer homem. Mas havia qualquer coisa nela, quase familiar, que me suscitou alguma vontade e interesse em conhecê-la. E não tou a referir-me ao sentido bíblico da palavra por muito incrível que pareça. 

Assim, dirigi-me na direcção dela e fui falar com a Rapariga-Perturbadora.


1 commentários:

Ziza's N.E.M. disse...

pelo que pude consttar do teu blogue rapaz imaginário és uma pessoa travessa xD mas sigo xP