Quinta-feira, Setembro 18, 2008

O Princípio do Fim Do Princípio Daquela Mágoa Familiar: Parte I

O meu pai uma vez contou-me das suas viagens pelo interior rural asiático quando era jovem. E por nenhuma razão especial começou a falar sobre um sítio que ele nunca conseguiu esquecer. Era no meio das montanhas esquecidas da Província de Shandong, onde existia um antigo templo budista com um jardim solitário. E nesse preciso jardim com as flores de lótus mais tenras alguma vez tocadas por mãos humanas jazia uma pedra milenar meia coberta de musgo com o seguinte provérbio Zen:

"A dor é inevitável. O sofrimento é opcional.”

Mas mesmo assim a pedra não deixou de ficar lentamente enegrecida com o passar dos tempos pelas lágrimas de demasiadas almas amarguradas.

Cabrão do calhau...




Há Um Mês Antes...

Tarde de quinta feira, fui dar umas voltas vigorosas pelo bairro fora na minha bicicleta alemã ultra old-school. Telheiras City estava vazia de carros, com muitos cafés e lojas fechadas para férias, ocupada só com uns quantos pássaros e cigarras bêbadas a cantarem nas árvores pelas ruas, enquanto sobre a minha cabeça flutuava um céu azul incrível, onde brilhava um sol torrado ameno que não queimava muito, sob o qual é tão agradável ficar de olhos fechados deitado num relvado qualquer e apreciar a alegria de estarmos genuinamente vivos.

Às vezes é tão fácil escorregarmos na fossa sem saída de procurarmos desesperadamente algo que nos liberte, como se fosse preciso realmente um factor externo para justificarmos a nossa própria felicidade. Uma espécie de Messias Pessoal tm para meter as nossas vidas em ordem.

Só que no fundo as coisas não têm de ser sempre perfeitas, justas ou divertidas, mas simplesmente são o que são...

Já dizia o manhoso filósofo Jagger:

You can't always get what you want
But if you try sometimes you might find
You get what you need…


Ah, pois, se abre um bocado a nossa perspectiva pitosga, lá isso abre.

Afinal, quem é que quer mesmo saber do amor das nossas vidas, se tivermos numa limusina portentosa com cocaína e groupies em excesso, e formos jovens para fazer o que nos der na gana?

Nem tu, nem ninguém, a não ser.......

Huh....

Lembrei-me de alguém, e suspirei disperso num mar de memórias turvas. Não queria pensar nisso. Quando dei por mim, vi que tinha fechado as mãos com tanta força no guiador, que fiquei com os nós dos punhos brancos e já nem sentia sequer os dedos... Travei então as rodas da bicicleta e parei ao pé do jardim do metro, para descansar também os músculos das pernas que já começavam a latejar ardentemente. Sentei-me num banco, saboreando o vento vivo que soprava por entre as folhas das árvores e acariciava duma forma apaziguadora as lâminas de relva como um amante malandro antes de metê-lo no cano de trás duma miúda reticente.

À minha frente passa então um velho de sessenta anos, de cabelo desgrenhado e camisa desabotoada, meio a coxear pelo pavimento, e vai se encostar sozinho a um candeeiro de rua. Tira do bolso um walkman e um par de headphones, mete-os na cabeça e carrega no play. E de repente assim do nada, começa a movimentar os braços mecanicamente como se estivesse a fazer robot dancing. Vira os antebraços paralelamente, depois o tronco para o lado, revirando as articulações todas do corpo dum modo independente. E continua a dançar durante uns minutos, até que subitamente cessa os seus movimentos, fazendo robot shut down, e fica parado durante uns segundos provavelmente com o ritmo da música que ouvia...  um silêncio estático de fazer o cabelo e os pêlos púbicos levantarem percorreu o pátio do jardim... e no momento seguinte ele a reinicia o motor gloriosamente com o power todo, enquanto eu fico parvo a olhar para ele sem saber o que dizer. Ele não estava a mendigar, nem a exibir-se-- estava a dançar simplesmente porque sim...
Pergunto-me que música fenomenal de disco fever de derreter o coração e incendiar as entranhas é que ele estaria a ouvir para dançar daquela maneira....?

Hm.... Provavelmente “Hot Stuff” da senhora Donna Summer.




Ou talvez não.

O homem depois parou finalmente com a sua manifestação física dos seus sentimentos profundos ao mundo, (seja eles quais forem, mas sempre expressos cheios de doce amor robô pra dar e vender), continuando o caminho em direcção à estação do metro como se nada tivesse acontecido.

Eu encolhi os ombros, e meti-me outra vez na minha bicicleta, pedalando rua abaixo. Já nada me espantava em Telheiras City.

Contornei o teu antigo prédio, não havia ninguém à vista a não ser um brasileiro ao telemóvel a falar lascivamente com alguém em voz alta, como se toda gente da rua quisesses ouvir a conversa dele, e ao passar pelos arredores do colégio alemão, vi uns putos mitras a libertarem as suas frustrações, empurrando um rapazinho franzino dum lado para o outro como uma boneca de trapos, e a gozar com ele à força toda. Estes gangs de miúdos ficavam na cidade a maior parte do Verão, e sem professores para espancar, contentavam-se com o peixe miudinho que caía à rede. Fechei os olhos, não me apetecia mais interferir nos assuntos dos outros e prossegui caminho. Se uma certa pessoa acha que sou um monstro egoísta, então é porque sou se calhar mesmo. Além disso um só aprende a tornar-se mais forte através da dor. E só assim é que se sobrevive neste mundo darwinista de cão come cão.

Sentia o olhar desaprovador de alguém nas minhas costas, e por uns instantes estive quase pra voltar atrás, só que ignorei completamente esse anseio.
Mordi os lábios, e pedalei, pedalei, pedalei o mais depressa que podia, tomando outra vez o caminho para casa.

E estava eu calmamente a virar uma esquina quando de repente avisto alguém no canto do olho. Uma silhueta tão familiar... Como se fosse uma cena duma cassete vídeo rebobinada centenas de vezes até a imagem ficar cheia de ruído e desmagnetizada nos confins esquecidos do Rio de Electrões. Ah... era ela... acho eu... há tantos anos... uma mulher de óculos escuros a passear o seu labrador.

Não...

Eu não sou um cão. Eu não sou um cão. Eu não sou um cão.
Eu não sou um cão. Eu não sou um cão. Eu não sou um cão.
Eu não sou um cão. Eu não sou um cão. Eu não sou um cão.
Eu não sou um cão. Eu não sou um cão. Eu não sou um cão.

Só um cão não consegue deixar de salivar quando vê a sua dona na cozinha a abrir as compras.

Só um cão para estar feliz em ver a sua dona depois de ela o ter deixado num canil sobrelotado o Verão inteiro.




Eu tenho uma escolha.

Eu posso desviar o olhar para o lado.

Eu consigo ignorar este impulso condicionado.

Sou melhor do que isto.

Não é o que dizemos sempre a nós próprios sozinhos antes de fazermos o maior erro das nossas vidas? Tipo a mãe boazona do nosso melhor amigo... hmmm....

Mas eu fitei-a à mesma...

Sou mesmo um cromo.

E pressenti o tempo a parar, o coração a bater mais depressa, a boca a ficar seca como serradura, um frio antárctico a percorrer-me o corpo, e uma dor de cabeça do catano por causa do sangue todo a escorrer lá para baixo.

Não me consegui conter...

Porque quando revejo aqueles contornos imperfeitos, aqueles lábios de sorriso difícil, aquele andar tão seguro e ao mesmo tempo disfarçadamente desajeitado como uma miúda que usa saltos altos pela primeira vez, nem sei o que pensar...

Sinto-me um ex-heroínado hardcore finalmente sóbrio há anos... mas que um dia encontra a sua antiga dealer num McDonald’s e ela oferece-lhe uma mala cheia de todas as amostras grátis do mundo para reviver os bons velhos tempos...

Ouvi outra vez ecos longínquos a soarem pelos corredores da minha memória.

Ela não me tinha visto, avançando pela rua acima, com o cão dela. Um golden retriever tão lindo que parecia irreal.

Hmm...?

Um golden retriever...?

Pisquei os olhos e reparei então que o cão tinha mudado...

A sensação intensa de déjà vu estava a matar-me.

Não pode ser... era aquele cão preto... não....

Só flashes a explodirem no meu subconsciente.

O cão da rapariga era mesmo um Pitbull Terrier...!




Ela desaparece então como por magia ao contornar por detrás do tronco duma árvore... sem deixar rasto de que alguma vez existiu.

Nesse instante voltei a minha atenção para o que se encontrava à minha frente, observando um carro preto a acelerar a toda a velocidade como se estivesse a fugir da polícia, com uma mala cheia de dinheiro roubado ao fundo de caridade para órfãos abusados e ainda por cima uma mulher raptada a entrar em trabalho de parto.

E para mal dos meus pecados estava a dirigir-se violentamente na minha direcção...

Oh raios...

1 commentários:

Anna disse...

Palestina, palestina, palestina...

K atrasado mental!