Depois do pequeno almoço, sentei-me na cama do meu quarto, mas sentia-me tão cansado que até me passou o sono, e assim liguei a televisão. Estava a dar desenhos animados, e fez-me lembrar aqueles nostálgicos sábados de manhã quando era puto em que acordava hiperactivamente logo às sete para fazer uma maratona de bonecos até à hora de almoço. Mas em vez do Dartacão, dos Transformers ou do Dragonball não parava de ver agora uma esponja amarela falante e aquele Noddy do caralho. Eu juro que isto torna até a criança mais sossegada numa louca furiosa psicótica. Depois admiram-se de haver muita violência escolar, sinceramente...
Corri os canais pela manhã fora quando parei num documentário da natureza... eh lá pinguins!
Eu gosto de pinguins! Gosto muito. E até tinha aquele narrador de voz grave que retrata sempre a vida dos animais selvagens duma forma muito dramática...
“O pinguim imperador no início do Inverno antárctico tem de percorrer até 120 quilómetros de deserto de gelo para chegar às suas colónias em que fazem os ninhos, passando por um dos habitats mais extremos à face da terra onde nenhuma outra espécie consegue sobreviver, e temperaturas de 40 negativos são a norma.”
São tão hardcore o raio destes animais.

“Depois dos casais porem os ovos, o macho faz outra vez o longo caminho de volta para o oceano para se alimentar e armazenar reservas de energia. Pode demorar até 100 dias a regressar, até que troque finalmente com a fêmea no processo de incubação. Basta nesse momento o ovo tocar mais que dois segundos no gelo para a cria morrer congelada. As probabilidades de sobrevivência são tão baixas que também é só preciso um dos muitos predadores atacar um dos membros do casal durante a viagem ao oceano, para o ovo estar perdido naquele ano...”
Corri os canais pela manhã fora quando parei num documentário da natureza... eh lá pinguins!
Eu gosto de pinguins! Gosto muito. E até tinha aquele narrador de voz grave que retrata sempre a vida dos animais selvagens duma forma muito dramática...
“O pinguim imperador no início do Inverno antárctico tem de percorrer até 120 quilómetros de deserto de gelo para chegar às suas colónias em que fazem os ninhos, passando por um dos habitats mais extremos à face da terra onde nenhuma outra espécie consegue sobreviver, e temperaturas de 40 negativos são a norma.”
São tão hardcore o raio destes animais.

“Depois dos casais porem os ovos, o macho faz outra vez o longo caminho de volta para o oceano para se alimentar e armazenar reservas de energia. Pode demorar até 100 dias a regressar, até que troque finalmente com a fêmea no processo de incubação. Basta nesse momento o ovo tocar mais que dois segundos no gelo para a cria morrer congelada. As probabilidades de sobrevivência são tão baixas que também é só preciso um dos muitos predadores atacar um dos membros do casal durante a viagem ao oceano, para o ovo estar perdido naquele ano...”
Estes bichos têm uma vida mesmo lixada. Tadinhos. Continuei a ver o documentário mas estava a sentir os meus olhos a ficarem cada vez mais pesados, e bocejei intensamente.
“E um dos piores predadores do pinguim Imperador é o terrível urso polar. Apesar de conseguir facilmente escapar na água, sob o gelo, o pinguim com o seu andar desajeitado não tem a menor hipótese contra o maior carnívoro terrestre, acabando todas as suas tentativas de fuga duma forma patética entre os dentes ensanguentados do urso polar.”
Imaginei-me no meio da planície antárctica, e de repente ouço os passos pesados a esmagarem o gelo atrás de mim, viro-me e deparo-me com o urso polar mais feroz de sempre. Era uma fêmea enorme com patas capazes de desfazer um homem como um boneca de trapos, uma mandíbula possante de esmagar metal, e um focinho vermelho de sangue fresco...
Mas tinha os olhos escuros dela.
E naquele momento senti qualquer coisa a desfalecer dentro do meu coração ao perceber quem era realmente.
Tudo na vida tem a ver com atitude, e a minha atitude foi fugir em pânico como um pinguim perseguido por um urso polar esfomeado.

Sim desatei a correr, mesmo sabendo que não tinha onde esconder-me, que mesmo que viajasse milhares de milhas de distância não conseguiria escapar, e iria acabar por tropeçar e ser trucidado vivo pelo meu próprio passado.
Ouvia a ursa polar cada vez mais próximo no meu encalço, o bafo nauseabundo quente a tocar-me nas costas.
Suponho que não seja assim um cliché demasiado triste procurar conforto nos braços doutra pessoa, não é o que toda gente faz? Mas pressinto que é só uma desculpa pessoal para continuar a fugir...
E não apetecia mais fazer isso, já fiquei farto dessa atitude há muitos anos atrás. Por isso parei de correr e virei-me para trás, enfrentando a ursa polar decidido.
Porém ela não fez quaisquer cerimónias, olhou para mim sem qualquer sentido de misericórdia e começou a desfazer-me com as garras num monte de carne viva, arrancando pedaços dos meus braços com os dentes e estilhaçando-me os ossos em poeira, mas eu já nem me importava com nada e parei de me defender.
Até que no meio deste turbilhão de violência, lembrei-me subitamente dum pequeno facto irritante... Não existem ursos polares na Antárctica… eles estão separados dos pinguins a um hemisfério inteiro de distância...
A minha boca ficou seca, o coração parou e a imagem da ursa derreteu-se nos meus olhos como gelo ao sol...
Acordei outra vez no meu quarto, à frente do televisor ligado... Demorei algum tempo a voltar a conceber-me como um ser humano, visto que ainda sentia que tinha sido um pinguim uma vida inteira... era uma impressão latente que nunca me larga depois de ter passado pelas brasas e sonhado meio-acordado.
Levantei-me, e fui lavar a cara à casa de banho. Quando voltei ao quarto, pensei como seria bom desertar para o outro lado do planeta, o mais longe possível e nunca mais regressar. Sim, para esquecer quem eu sou ao menos, e talvez passar os meus últimos dias numa felicidade ignorante tão desejada. Até que reparei no teclado do computador, ele estava a sorrir sarcasticamente para mim com todos os dentes, conhecendo no fundo o que eu iria fazer...
E começa a teclar no ecrã como se tivesse sido possuído por um demónio do Naked Lunch...

“Just remember this.
All agents defect, and all resisters sell out.
That's the sad truth, Bill.
And a writer?
A writer lives the sad truth like anyone else.
The only difference is, he files a report on it.”
Ri-me do comentário sem piada dele, mas por algum motivo misterioso que desconheço e que me ultrapassa, acabei por sentar-me de qualquer das maneiras à frente do teclado... E comecei a escrever outra vez estes sonhos parvos para uma certa rapariga subnutrida da cabeça que de vegetariana não tem nada.
All agents defect, and all resisters sell out.
That's the sad truth, Bill.
And a writer?
A writer lives the sad truth like anyone else.
The only difference is, he files a report on it.”
Ri-me do comentário sem piada dele, mas por algum motivo misterioso que desconheço e que me ultrapassa, acabei por sentar-me de qualquer das maneiras à frente do teclado... E comecei a escrever outra vez estes sonhos parvos para uma certa rapariga subnutrida da cabeça que de vegetariana não tem nada.

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