Voltei...
Não acredito que voltei...
Que alívio...
Entrei em casa aos trambolhões, descalcei os meus ténis enlameados pela noite anterior, e atirei o casaco para o sofá da sala. Ufa, estava a ver que nunca mais chegava ao meu lar doce lar. Sentia mesmo a pele e o cabelo meio peganhentos de suor e cerveja barata entornada, enquanto que as minhas roupas estavam obviamente com um cheiro entranhado a fumo de tabaco como se tivesse escorregado por uma chaminé duma fábrica abaixo. Mas tinha demasiada preguiça para tomar um duche agora.

Fui abrir a janela para arejar a sala um bocado e podia ouvir lá fora todos os pássaros da rua a cantar desvairadamente com o quebrar da aurora, recomeçando logo o seu frenesim de acasalamento depois duma breve pausa de algumas horas. Estas aves exibicionistas são piores que uma vizinha multi-orgásmica. É sempre a mesma barulheira aqui em Telheiras todas as manhãs.
Enfim, fiquei depois caído e refastelado no sofá a pensar nas últimas horas passadas de lazer nada extraordinário. Foi uma daquelas noites de sexta feira em que não me diverti muito por aí além nem apanhei assim uma seca profunda. Noites de Baunilha. Sem limão, chocolate ou sequer aqueles confettis coloridos em cima. Em que o copo não tá meio cheio nem meio vazio, e até podíamos beber uma garrafa inteira de vodka com a puta mais experiente da região que não nos sabe a nada. Conheces a sensação? Nem tem a ver muito com o facto hipotético de possuirmos preocupações pessoais inomináveis ou com a falta de acontecimentos excitantes no nosso quotidiano... Sentimos um certo tédio perro difícil de descrever, simplesmente porque sim. Não há nada mais vulgar e humano que isso. É um daqueles estados de espírito de lusco-fusco em que não temos razão para lágrimas, mas dá demasiado trabalho rirmo-nos. O mais irónico é que provavelmente deve haver pessoas que passam as suas vidas inteiras assim. E é complicado de decidir-mos se devemos sentir pena delas ou no fundo invejar a sua grande sorte.
Ok, ok, já chega de reflexões parvas, vou mas é passar pela cozinha para tomar o meu pequeno almoço dos campeões; waffles quentinhas com mel, nesquick e batatas fritas. Ando até lá e encontro o meu pai sentado silenciosamente à mesa a olhar ao longe, para um nascer do sol vigoroso que incendiava a atmosfera toda de tons de laranja. Ele costumava acordar cedo ultimamente, as dores no peito não o deixavam dormir em paz. Estou sempre a convencê-lo a ir ver um médico, mas ele não me ouve, e também pelo que passei nos centros de saúde aquilo é mesmo para esquecer. Realmente este país é uma espelunca do piorio para se ficar doente.
-- Acordado tão cedo?
-- Sim acho que vou à feira da ladra dar uma volta.
-- Fazes bem, encontras sempre pechinchas que nem ao diabo lembram.
-- Pois é, não há nada mais barato que arranjar um laptop novo dum puto cigano nervoso. Ah ah.
-- Sem dúvida alguma. Então e... como é que vai isso pá? – perguntei eu preocupado.
-- Já estive melhor. Sempre a mesma merda. – respondeu o meu velho, encolhendo os ombros.
-- Bem se os medicamentos da farmácia dão-te problemas, podias perguntar àquela velha do Martim Moniz por remédios chineses. Cenas naturais costumam ter menos efeitos secundários.
-- Também experimentei essas ervas esquisitas, mas estou na mesma.
-- Se calhar ir visitar um médico na China não seria má ideia.
-- Depois logo se vê. O mundo continua a girar, e Cristo mijou numa garrafa.
Ele levanta-se e foi-se vestir para sair de casa. Hmm... eu nunca percebi muito bem essas frases profundas de sabedoria ancestral oriental, e o meu velho também nunca as explica. Talvez um dia venha a entender, e deixe finalmente de ser um rapaz burro e imaturo... ou não.
Despedi-me dele e fui tomar o meu pequeno almoço.
Não acredito que voltei...
Que alívio...
Entrei em casa aos trambolhões, descalcei os meus ténis enlameados pela noite anterior, e atirei o casaco para o sofá da sala. Ufa, estava a ver que nunca mais chegava ao meu lar doce lar. Sentia mesmo a pele e o cabelo meio peganhentos de suor e cerveja barata entornada, enquanto que as minhas roupas estavam obviamente com um cheiro entranhado a fumo de tabaco como se tivesse escorregado por uma chaminé duma fábrica abaixo. Mas tinha demasiada preguiça para tomar um duche agora.
Fui abrir a janela para arejar a sala um bocado e podia ouvir lá fora todos os pássaros da rua a cantar desvairadamente com o quebrar da aurora, recomeçando logo o seu frenesim de acasalamento depois duma breve pausa de algumas horas. Estas aves exibicionistas são piores que uma vizinha multi-orgásmica. É sempre a mesma barulheira aqui em Telheiras todas as manhãs.
Enfim, fiquei depois caído e refastelado no sofá a pensar nas últimas horas passadas de lazer nada extraordinário. Foi uma daquelas noites de sexta feira em que não me diverti muito por aí além nem apanhei assim uma seca profunda. Noites de Baunilha. Sem limão, chocolate ou sequer aqueles confettis coloridos em cima. Em que o copo não tá meio cheio nem meio vazio, e até podíamos beber uma garrafa inteira de vodka com a puta mais experiente da região que não nos sabe a nada. Conheces a sensação? Nem tem a ver muito com o facto hipotético de possuirmos preocupações pessoais inomináveis ou com a falta de acontecimentos excitantes no nosso quotidiano... Sentimos um certo tédio perro difícil de descrever, simplesmente porque sim. Não há nada mais vulgar e humano que isso. É um daqueles estados de espírito de lusco-fusco em que não temos razão para lágrimas, mas dá demasiado trabalho rirmo-nos. O mais irónico é que provavelmente deve haver pessoas que passam as suas vidas inteiras assim. E é complicado de decidir-mos se devemos sentir pena delas ou no fundo invejar a sua grande sorte.
Ok, ok, já chega de reflexões parvas, vou mas é passar pela cozinha para tomar o meu pequeno almoço dos campeões; waffles quentinhas com mel, nesquick e batatas fritas. Ando até lá e encontro o meu pai sentado silenciosamente à mesa a olhar ao longe, para um nascer do sol vigoroso que incendiava a atmosfera toda de tons de laranja. Ele costumava acordar cedo ultimamente, as dores no peito não o deixavam dormir em paz. Estou sempre a convencê-lo a ir ver um médico, mas ele não me ouve, e também pelo que passei nos centros de saúde aquilo é mesmo para esquecer. Realmente este país é uma espelunca do piorio para se ficar doente.
-- Acordado tão cedo?
-- Sim acho que vou à feira da ladra dar uma volta.
-- Fazes bem, encontras sempre pechinchas que nem ao diabo lembram.
-- Pois é, não há nada mais barato que arranjar um laptop novo dum puto cigano nervoso. Ah ah.
-- Sem dúvida alguma. Então e... como é que vai isso pá? – perguntei eu preocupado.
-- Já estive melhor. Sempre a mesma merda. – respondeu o meu velho, encolhendo os ombros.
-- Bem se os medicamentos da farmácia dão-te problemas, podias perguntar àquela velha do Martim Moniz por remédios chineses. Cenas naturais costumam ter menos efeitos secundários.
-- Também experimentei essas ervas esquisitas, mas estou na mesma.
-- Se calhar ir visitar um médico na China não seria má ideia.
-- Depois logo se vê. O mundo continua a girar, e Cristo mijou numa garrafa.
Ele levanta-se e foi-se vestir para sair de casa. Hmm... eu nunca percebi muito bem essas frases profundas de sabedoria ancestral oriental, e o meu velho também nunca as explica. Talvez um dia venha a entender, e deixe finalmente de ser um rapaz burro e imaturo... ou não.
Despedi-me dele e fui tomar o meu pequeno almoço.

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