Avancei pela praia fora com as mãos nos bolsos, enquanto gaivotas esvoaçavam sobre a minha cabeça, gritando umas para as outras insultos e piropos jocosos, e traineiras ferrugentas mugiam ruidosamente ao pé da costa.
Epá, calem-se mas é todos! Onde é que está o sossego sagrado do mar? Vou mas é meter os auscultadores e passar uma musiquinha de sintetizador cheio de amor potente em cada nota electrónica!
Epá, calem-se mas é todos! Onde é que está o sossego sagrado do mar? Vou mas é meter os auscultadores e passar uma musiquinha de sintetizador cheio de amor potente em cada nota electrónica!
Cheguei lá mesmo ao fundo da praia, e ao pé dos rochedos, vi um miúdo a lançar um papagaio dragão de duas cordas. Uau, senti um ataque de nostalgia com sabor a férias de Verão intermináveis, de quando era um puto muito mal comportado e fazia trinta por uma linha desde atirar balões de água a meninas, a meter bombas de mau cheiro nos restaurantes e bares da praia. Aproximei-me e fiquei a ver o rapazinho moreno a controlar o voo do papagaio com um estilo e mestria de meter inveja a todas as gaivotas ali. Não me consegui conter mais e perguntei ao miúdo:
-- Eh, desculpa..., tou com umas saudades de lançar papagaios, não te importas que eu brinque por um bocado?
-- Na boa man. Toma lá.
-- Fixe brigado.
E senti nas minhas mãos todo o poder do vento a meu favor, wohoo!!! Fazendo o dragão voador flutuar e a elevar-se cada vez mais nos céus orgulhosamente, senti uma euforia a correr nas veias que me deixava nas nuvens como uma velhota caquéctica a quem trocaram os medicamentos por morfina. Foi então que ouvi uma gargalhada genuína a sair da minha voz, porra, há já muito tempo que não me sentia tão radiante com um prazer tão simples. Mas não durou muito até que uma brisa lateral mais traiçoeira começou a soprar e o dragão ficou a esvoaçar embriagadamente, e apesar das minhas tentativas para salvá-lo, acabou por cair na areia.
-- Tu és mesmo mau nisto. Tens que agarrar com pujança, mas ao mesmo tempo com muita meiguice para não se despenhar, como uma mulher!
-- O quê? – fiquei eu bué espantado com o comentário profundo do puto – Quem é que julgas que és? O Dr Phil dos Papagaios? Onde é que ouviste isso?
-- Foi o meu pai que me ensinou.
-- Tipo esperto o teu velho.
-- Pois é. Agora deixa-me mostrar-te como é que um verdadeiro pro faz.
-- Eh, desculpa..., tou com umas saudades de lançar papagaios, não te importas que eu brinque por um bocado?
-- Na boa man. Toma lá.
-- Fixe brigado.
E senti nas minhas mãos todo o poder do vento a meu favor, wohoo!!! Fazendo o dragão voador flutuar e a elevar-se cada vez mais nos céus orgulhosamente, senti uma euforia a correr nas veias que me deixava nas nuvens como uma velhota caquéctica a quem trocaram os medicamentos por morfina. Foi então que ouvi uma gargalhada genuína a sair da minha voz, porra, há já muito tempo que não me sentia tão radiante com um prazer tão simples. Mas não durou muito até que uma brisa lateral mais traiçoeira começou a soprar e o dragão ficou a esvoaçar embriagadamente, e apesar das minhas tentativas para salvá-lo, acabou por cair na areia.
-- Tu és mesmo mau nisto. Tens que agarrar com pujança, mas ao mesmo tempo com muita meiguice para não se despenhar, como uma mulher!
-- O quê? – fiquei eu bué espantado com o comentário profundo do puto – Quem é que julgas que és? O Dr Phil dos Papagaios? Onde é que ouviste isso?
-- Foi o meu pai que me ensinou.
-- Tipo esperto o teu velho.
-- Pois é. Agora deixa-me mostrar-te como é que um verdadeiro pro faz.

Ficámos ali durante mais meia hora, até que começou a fazer-se tarde e o puto disse que tinha de ir para casa lanchar. Despedimo-nos e segui depois com as minhas vadiagens à beira do oceano.
Quando voltei para o meio da praia, passou de repente a poucos metros de mim um rapaz louro queimado, de fato negro e prancha de surf debaixo do braço. O tipo vira-se para mim durante um instante, olhando-me de relance com um rosto sem expressão de partir o ânimo. Ele não me diz nada, e continua com o seu caminho indiferente, arrastando os pés na areia em direcção às ondas. Fogo, nunca vi nenhum surfista assim tão amargurado por entrar na água...
E lembrei-me dele... do meu amigo perdido, mas não me apetecia pensar nisso...
Vi o tipo a nadar até ao fundo e ao voltar, tentar cortar uma onda média suavemente, mas acabou por escorregar para o meio da água dum modo desajeitado, e a prancha a saltar descontrolada entre a espuma do mar como um gato atirado para uma panela a ferver.
Fechei os olhos e no meio da escuridão, senti chamas frias a percorrerem-me o corpo todo espalhando-se do meu peito dolorosamente até aos dedos. Levantei as minhas mãos, e reparei numa aura ardente a queimar duma forma branca e tão intensa que me assolava para além da possibilidade de qualquer descrição...
Aaaahh...
Um fogo sem fim que me incinera até ao óleo da medula.
Um corpo que não é um corpo.
Uma alma que não é uma alma.
Um mar de memórias que não contêm memórias.
Átomos, células, sinapses, ossos, músculos, pele...
desfazem-se completamente até deixarem de fazer parte de mim
num milhão de cinzas que o vento levanta cada vez mais alto pelo ar
erguendo-se nos céus como plumas na tempestade
até perderem-se na distância do universo por entre a poeira das estrelas...
e tornar-me parte de tudo, desde o princípio ao fim, o Alpha e Ómega.
Num deus de mim próprio e de mais nada.
Eu ouvi de repente uns latidos ao longe e abri lentamente os olhos outra vez. Virei-me para e esquerda e reparei num cão a correr doido pela praia enquanto que uma mulher sozinha vestida de branco caminhava calmamente atrás dele, com os cabelos castanhos a soprar ao vento.
Um arrepio percorreu-me a espinha... Seria... ela...?
Fiquei a perscrutar a rapariga, só que ainda não conseguia ver o rosto dela, andava sem qualquer pressa, demorando-se a contemplar a paisagem, a brincar com o seu labrador, mas percebia que estava pouco a pouco a vir inevitavelmente na minha direcção.
No entanto, antes de ela chegar ao pé de mim e descobrir quem era, encolhi os ombros, e voltei as costas, caminhando para fora da praia. Era tempo de regressar a casa.
Pois é, tenho tantas obras para acabar, festas parvas para fazer, e pessoas que estão a precisar de rir. Eu sei que nunca é suficiente, mas já é um começo. Realmente, já chega de vadiagens por hoje.
E por algum motivo estranho, nunca mais sonhei com ela.
Quando voltei para o meio da praia, passou de repente a poucos metros de mim um rapaz louro queimado, de fato negro e prancha de surf debaixo do braço. O tipo vira-se para mim durante um instante, olhando-me de relance com um rosto sem expressão de partir o ânimo. Ele não me diz nada, e continua com o seu caminho indiferente, arrastando os pés na areia em direcção às ondas. Fogo, nunca vi nenhum surfista assim tão amargurado por entrar na água...
E lembrei-me dele... do meu amigo perdido, mas não me apetecia pensar nisso...
Vi o tipo a nadar até ao fundo e ao voltar, tentar cortar uma onda média suavemente, mas acabou por escorregar para o meio da água dum modo desajeitado, e a prancha a saltar descontrolada entre a espuma do mar como um gato atirado para uma panela a ferver.
Fechei os olhos e no meio da escuridão, senti chamas frias a percorrerem-me o corpo todo espalhando-se do meu peito dolorosamente até aos dedos. Levantei as minhas mãos, e reparei numa aura ardente a queimar duma forma branca e tão intensa que me assolava para além da possibilidade de qualquer descrição...
Aaaahh...
Um fogo sem fim que me incinera até ao óleo da medula.
Um corpo que não é um corpo.
Uma alma que não é uma alma.
Um mar de memórias que não contêm memórias.
Átomos, células, sinapses, ossos, músculos, pele...
desfazem-se completamente até deixarem de fazer parte de mim
num milhão de cinzas que o vento levanta cada vez mais alto pelo ar
erguendo-se nos céus como plumas na tempestade
até perderem-se na distância do universo por entre a poeira das estrelas...
e tornar-me parte de tudo, desde o princípio ao fim, o Alpha e Ómega.
Num deus de mim próprio e de mais nada.
Eu ouvi de repente uns latidos ao longe e abri lentamente os olhos outra vez. Virei-me para e esquerda e reparei num cão a correr doido pela praia enquanto que uma mulher sozinha vestida de branco caminhava calmamente atrás dele, com os cabelos castanhos a soprar ao vento.
Um arrepio percorreu-me a espinha... Seria... ela...?
Fiquei a perscrutar a rapariga, só que ainda não conseguia ver o rosto dela, andava sem qualquer pressa, demorando-se a contemplar a paisagem, a brincar com o seu labrador, mas percebia que estava pouco a pouco a vir inevitavelmente na minha direcção.
No entanto, antes de ela chegar ao pé de mim e descobrir quem era, encolhi os ombros, e voltei as costas, caminhando para fora da praia. Era tempo de regressar a casa.
Pois é, tenho tantas obras para acabar, festas parvas para fazer, e pessoas que estão a precisar de rir. Eu sei que nunca é suficiente, mas já é um começo. Realmente, já chega de vadiagens por hoje.
E por algum motivo estranho, nunca mais sonhei com ela.

1 commentários:
E fika assim? nunca mais se escreve? Perdeste a motivação pela escrita? Lamento muito se contribui para isso. Gostava de passar aqui de vez em quando e ler manifestações do teu ser.
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