Domingo, Março 23, 2008

Vamos a la playa en el mar de memorias: Parte I

Aproximei-me do areal áspero sob um sol invernal de lágrimas escorridas, vendo a praia de Carcavelos a estender-se à minha frente até beijar as ondas do mar. As nuvens em forma de corpos despidos estagnavam no céu como se tivessem dançado e fodido a noite toda até cair, enquanto as costas fustigadas do oceano se espalhavam sobre um horizonte dorido intocável.

Passeei entre as dunas meio enterradas de beatas, latas e preservativos usados, até que toquei com os pés na linha de água, e descalcei os ténis... Estava bastante fria mas boa. Hmm, prontos, admito que não era certamente a praia mais linda ou mais limpa que tinha visto, muito longe disso, afinal esta era a praia do famoso Pseudo Arrastão de Carcavelos planeado por uma legião de mitras super-ninjas. Mas estava agora completamente vazia. E isso era o que interessava.
Aqui ao pé do mar, longe do barulho da cidade, longe de preocupações humanas, conseguia finalmente ouvir até os murmúrios do meu coração, e sentir-me em paz comigo próprio, mesmo que seja só por um momento efémero...

Como um piscar de olhos dum bebé...

Ah, e lembrei-me subitamente

Como ela gostava tanto disto...

De estar sozinha ao pé do mar...

De longos passeios na praia durante o Inverno...

Enquanto o seu labrador chapinhava através da água loucamente.






Sentei-me na areia semi-húmida onde a maré não chegava e inspirei fundo a brisa que cheirava ao sal duma eternidade de choros desconsolados...

Parece que acabamos todos aqui, desde casais inseparáveis a almas enviuvadas, desde predadores sexuais inveterados a monstros loucos e teimosos que não querem voltar a ser humanos... a olhar para este mar de memórias saudosas, que se tornou já num grande cliché colectivo.

Recordei-me mais da máscara dela...

Do seu riso fácil...

De adorar ir dançar toda bêbada com as amigas...

De estar constantemente a falar sobre pintura, poesia e sexo maroto...

Apesar de estar sempre a brincar que ela não tinha

mesmo jeito para nada disso, e mais valia dedicar-se à pesca.

Mas no fundo, bem lá no fundo, eu sabia que

ela às vezes adormecia à noite entre soluços.

Por todas as razões sentimentais do mundo.

A marada da Rapariga De Lado Nenhum.

Será que era o único que reparava nisso?

Nah. Seria um bocado triste se não houvesse mais ninguém.

E veio-me assim à cabeça aquela canção dos B-Movie.

Com um catano, já não consigo mesmo escapar dos anos 80. Mas não importo muito.






Enfim, nem sei porque me lembrei dela assim do nada...

Hmm, pergunto-me o que é que faria exactamente

se ela aparecesse aqui agora...?

Qual seria a tua atitude inteligente se encontrasses alguém que te queimou?

Ir lá dar uma palmada valente nas costas e chatear-lhe o juízo até que te pague o jantar, ou ignorar essa pessoa e começar a beber seriamente até acordar no dia seguinte com alguém do mesmo sexo...?

Ah ah, ya, quem é que estou a tentar enganar?

Se a visse aqui à minha frente, ia sem sombra de dúvida gozar com a coitada à força toda. E comentar como estava mais gorda, que talvez fosse sensível ir ao ginásio ao pé de minha casa, e como os sapatos dela eram um atentado à moda e a tudo que é bonito e sagrado no mundo.

Há coisas que nunca mudam.

Sorri silenciosamente, perdendo-me na distância do oceano durante um bocado,
até que voltei a minha atenção para a praia.

E notei que tinha escrito inconscientemente o nome dalguém na areia...

Huh...

As quatro letras mais lindas deste lado do oceano.

Mas não era o dela... nem sequer o da...

Raios pá. Não há mesmo paciência para este coração.

Subconsciente vai para o caraças! A tua opinião não conta!

Levantei-me num salto e decidi prosseguir com o meu passeio tardio,

deixando as ondas atrás apagarem o nome na areia.

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