Quarta-feira, Fevereiro 27, 2008

Os Que Seguem No Comboio De Destroços: Parte II




“Não me sigas, merda, não me sigas, pensas que eu sei para onde vou...?”


A Rapariga De Lado Nenhum

--há uma eternidade atrás



Estava na linha de Cascais, o comboio continuava a percorrer vagarosamente as linhas em mau estado demorando séculos só para andar uns quilómetros... Que marasmo, sentia as carruagens a ranger, a doer, todo o comboio a arrastar-se como uma lesma ferida numa estrada de agulhas enferrujadas...
Huh, se pensarmos nisso, é algo hilariante essa ideia de quererem meter TGV’s nesta rebaldaria... Seria tipo conduzir um Ferrari num carreiro de cabras montanhesas, ou meter um raver speedado com síndroma de Tourette como o animador do bailarico das avozinhas lá da terrinha. Man, simplesmente não funciona!

Enfim, não interessa nada o rumo para onde este país vai, se não queremos mais seguir neste comboio para o raio que o parta, pudemos sempre mudarmo-nos para o estrangeiro. Tipo o Allgarve, ou o arquipélago da Madeira... Os nativos de lá são meio esquisitos mas bastante inofensivos.

Suspirei, e vasculhei o casaco à procura de algo pra me entreter. Tirei um livro do bolso que andava a folhear ultimamente. Era “Uma breve História do Tempo”, do Stephen Hawking, e tratava a origem do Universo, viagens do Tempo, entre outras coisas. Achava giro, mas não estava com muita paciência pra leituras complicadas naquele dia.





Por isso guardei-o outra vez e virei-me para a janela da carruagem, observando lá fora a paisagem de cimento e vidro ao longo do Tejo. Era desoladora e familiar até à exaustão. Esta arquitectura saturada de caixinhas e caixotes, onde moramos e trabalhamos a maior parte das nossas vidas adultas voluntariamente...

Só dá vontade às vezes de incendiar isto tudo e ver a cidade inteira a arder em chamas do topo da Torre Vasco da Gama, enquanto arranhas numa guitarra eléctrica o “Smoke On The Water”, estilo Imperador Nero num dia mau em que se esqueceu de tomar lítio.

Mas toda gente que tem pelo menos meio-cérebro sabe que nem com a bomba atómica em cima apagaria este inferno e resolveria algum problema... parecia só boa ideia na altura quando foi inventada...

Hmm, se hipoteticamente tivesses o poder para isso, qual seria a tua solução para terminar com toda a corrupção, violência e sofrimento da Humanidade de vez?

Com beijinhos, abraços de grupo e franchises da Hello Kitty...?

Pois... provavelmente a alma libertadora que descobrirá a resposta a essa pergunta difícil vai ser uma dona de casa de Alfama chamada Pulquéria Josefina que vai ter assim um rasgo de inspiração quando passa a roupa a ferro. E ao sair de casa a correr para avisar toda gente, é subitamente atropelada por um Volkswagen do Tuning.

Deus terá sempre um sentido de humor lixado.

E mesmo assim continuo a ter esperança nas pessoas, apesar de os cínicos acharem que é um sentimento vão raramente retribuído.

Lembro-me de ter lido na Visão um artigo que me deixou a reflectir sobre isso e a incomodar-me insistentemente na parte mais funda da consciência... Falava da descoberta e pesquisa das mais velhas civilizações humanas do Neolítico por todo o mundo nas últimas décadas. Basicamente estes arqueólogos andaram a escavar no Peru, na Turquia, no Paquistão e começaram a ficar intrigados com um pequeno pormenor estranho de que qualquer coisa não batia certo com os vestígios destas sociedades primitivas...

E sabes qual era?

Era o simples facto de não encontrarem quaisquer indícios de fortificações, armas e garrafas de coca cola... Nem sequer sinais de violência nos corpos enterrados nos cemitérios, ou sacrifícios rituais humanos, nada...

E até agora ninguém sabe muito bem porquê...

Se isto é mesmo verdade, consegues imaginar as implicações antropológicas desta descoberta...?

Que muitas das primeiras sociedades não eram compostas por selvagens sanguinários ao contrário da malta do mundo moderno, e viviam calmamente em paz e prosperidade... Que o ser humano não é inerentemente um animal violento, mas até bastante porreiro, e que foi na realidade lentamente brutalizado e endurecido por circunstâncias sociais externas?

Só de imaginar pessoas a viverem felizes juntas num tempo em que estavam livres de ideias de guerra, criminalidade e medo de violência, parece uma piada de mau gosto improvável tirada dum episódio da Twilight Zone ou dos Teletubbies...

Bah, nem quero pensar nisso, é demasiado bom, e se as pessoas podem ser realmente assim, quer dizer que deve haver maneira de voltar a curar-nos... agora como?
Nem todas as religiões organizadas da História, doutores de psicologias e a Madame Oprah sabem dizer-nos.

Estiquei-me todo no meu lugar, e descansei a cabeça, sem conseguir deixar de ouvir o constante estremecer e o esganiçar mecânico do metal que me estava a causar uma sonolência do caraças. E depois da minha noite de insónias não ia tardar muito pra passar pelas brasas.


O comboio continuava a andar pela margens do Tejo enquanto do outro lado passava pela zona mais decadente de Lisboa, cheia de espaços urbanos mortos para demolir. Mas entre os armazéns abandonados, barracões cobertos de graffiti e prédios a envelhecerem com o passar dos anos sob o bafo do rio envenenado, começo subitamente a ver aparecer do nada um nevoeiro violeta espesso que cobre ameaçadoramente a paisagem citadina, engolindo tudo como um manto asfixiante sobre uma vítima adormecida.

E através do nevoeiro obscuro testemunho com os meus próprios olhos a paisagem a transformar-se como se estivesse viva, vendo répteis enormes a rastejarem num pântano com uma vegetação exótica há muito que a Terra não suportava, enquanto que uma libelinha gigante pairava como um helicóptero do outro lado do vidro da janela, caiem relâmpagos por entre a bruma, o nevoeiro violeta intensifica-se, e vejo agora um mamute lanudo a ser encurralado com lanças por um grupo de homens vestidos de peles, o bicho selvagem a ser arpoado nos flancos por todos os lados, deixando escorrer na neve alva rios de sangue vermelho, e na sua fúria derradeira enlouquecida, espezinha até à morte vários caçadores que não conseguem escapar a tempo, a névoa muda outra vez o cenário e depois fico pasmado ao avistar numa planície verdejante à beira do rio um bando de mouros a cavalo, de cimitarras nas mãos a atacarem um grupo de cavaleiros cristãos, matando-se uns aos outros sem misericórdia, até serem devorados pela neblina outra vez e darem lugar a uma cadeia de arranha-céus envoltos num inferno de chamas e fumo negro, na entrada está um homem sozinho de costas que entra a correr num deles para salvar os sobreviventes lá dentro quando tudo se desmorona apocalipticamente no meio da bruma violeta, e nascer entre as cinzas doutra civilização esquecida, uma espécie de criaturas estranhas de seis membros que não se parecem nem com répteis, peixes ou seres humanos, atravessando o deserto solitariamente em busca da terra prometida no limiar da memória...

Memória...

Memória...

Memória...







Ela desfaz-se, desintegra-se e desaparece...

Escorrendo por entre os meus dedos...

Para além do horizonte da minha consciência...

E foi no fim do mundo que vi então o próprio tecido da realidade a derreter-se à minha frente como lençóis de chocolate negro num dia de Verão, até que o Sol se apaga dum momento para o outro, deixando o que resta do planeta a esmorecer-se eternamente numa escuridão tumular mais gélida para além do que podes imaginar.

Onde todas as estrelas se extinguem uma a uma, consumindo cada galáxia após a outra, e numa espiral de gravidade irregular começar a atrair toda a poeira, energia e anti-matéria libertada no espaço num único ponto, para ir comprimindo-se apenas numa dimensão inconcebível, cada vez mais, mais e mais, até começar a transbordar por todos os lados, colapsando por completo e implodir na criação de um novo Universo...

Quando finalmente o nevoeiro nasce do vazio outra vez, ele move-se como um predador à procura do coração que o pode destruir, aproximando-se do comboio progressivamente, até eu não conseguir ver nada através da janela e o próprio manto violeta irromper pelo interior da carruagem.

Entrei em pânico no meio desta névoa cerrada, e levantei-me num salto, correndo pelo comboio abaixo completamente desvairado. Corria o que parecia ser há horas, mas a carruagem era interminável e mesmo assim não encontrava ninguém, nem um único vestígio dalgum passageiro vivo.

E na minha fuga descuidada tropecei mal no chão, e cai pelo corredor violentamente, raspando as palmas das mãos. Tentei compor-me outra vez e ao levantar a cabeça, encontro alguém sentado no meu lugar preferido da direita ao pé da janela.

De sandálias, calças rasgadas e uma T-shirt casual do estilo, “Eu tou me a lixar...”, estava uma mulher de óculos de sol a olhar para o nevoeiro lá fora. Tinha as madeixas do cabelo caído, e uma postura relaxada não sei se por cansaço ou indiferença. Mas eu reconhecia em qualquer lugar aqueles lábios tenros que só delineavam sorrisos melancólicos por muitos anos que passassem...

Merda, comecei a ouvir o bater acelerado do meu coração nos ouvidos, a faltar-me ar e saliva na boca, e uma tempestade cruel a levantar-se nas entranhas....

Era ela. A Rapariga De Lado Nenhum...

-- O que é que estás aqui a fazer?

-- Sabes... Adoro andar de comboio... é tão bom. Apesar de estar cheio de pessoas deprimidas. Será que as coisas mais doces da vida têm de ser sempre amargas também? – interroga-se ela sempre com a cabeça encostada ao vidro da janela sem olhar para mim.

-- Hum? O quê? Nem acredito que tás... há tanto tempo que não te vejo... eu...

-- O tempo não é uma linha linear, que se move de A para B. É mais um poço circular sem fundo onde mergulhas e na água estão todos os momentos do Universo, inseparáveis, indistintos, simultâneos. – profere ela mecanicamente.

-- Não estou a perceber...

-- Eu estive, estou, estarei aqui. Como tu também. Saudades não passam duma limitação que as pessoas sofrem em não conseguir assimilar e percepcionar o tempo como um todo. – continua a mulher na sua onda enigmática.

-- O que é que estás para aí a dizer? Tu não podes ser ela... Quem és tu pá?

Ela tira os óculos escuros, revelando aqueles olhos castanhos profundos e quase tão familiares como se estivesse diante dum espelho. Ela fita algo na distância atrás de mim e fala outra vez.

-- Não faz diferença quem eu sou... O que interessa apenas é se vais escolher ficar no comboio até ao fim ou se vais fugir...

-- Eu não vou sair...

-- E porquê? Queres salvar-me é? Dar a tua vida por mim? Deixa-te de ser infantil. Isso passa-te. – retorquiu ela meio-zangada como se fosse um eco duma voz que ouvi há uma eternidade atrás.

-- Raios, é sempre a mesma merda contigo. Vê lá, se vais ser condescendente comigo, levas mas é um enxerto de porrada. Badalhoca. Eu tou aqui porque me apetece. – repeti eu as mesmas palavras duma existência passada há muito esquecida.

-- Muito bem faz o que quiseres. Mas eu vou para a praia no fim do mundo sozinha... por isso não me sigas. – pede ela tristemente sem olhar para mim.

-- Não pára... não podes--

Eu dirigi-me a ela e toquei-lhe no rosto mas nesse preciso momento ela desfez-se em nevoeiro, fazendo-me agarrar apenas farrapos de ar... e é então que a névoa começa a reunir-se num turbilhão consciente, envolvendo-me profundamente até entranhar-se na pele e pelos pulmões adentro e fazer parte de mim... explodindo no meu âmago como um milhão de bombas nucleares.

Abri os olhos, todo confuso dos cornos, ao encontrar-me outra vez sentado na mesma carruagem cheia de pessoas. Massajo a cara. Olho para as horas, e reparo para a minha irritação que os ponteiros tinham parado. Estranho, este relógio automático só devia deixar de andar se eu não me mexer durante um dia...

Não conseguia ou nem queria reflectir sobre outro dos meus sonhos alucinados, mas por algum motivo misterioso, fiquei com a sensação paranormal que ela andou realmente neste comboio há anos atrás.

Excepto que desta vez eu não estava a segui-la, e em vez disso a fazer o meu próprio caminho. Se calhar um dia destes, também tu venhas a andar no mesmo comboio, ah...

Não sei dizer se isso vai acontecer quando encontrares-te a ti própria finalmente, ou quando conheceres e desafiares o teu Destino sozinha. Mas vai saber bem, disso podes ter a certeza.

O comboio parou por fim numa estação solitária e eu sai de lá calmo e lúcido. Desci a longa alameda com fileiras de árvores frondosas de ambos os lados até ao mar, e dirigi-me para a praia sozinho de mãos nos bolsos a trautear uma musiquinha jazz, Follow me...


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