Segunda-feira, Fevereiro 18, 2008

Os Cegos Do Comboio De Destroços: Parte I

What if this is as good as it gets?

Melvin Udall


Tomei o metro até ao Cais de Sodré, e depois na estação apanhei o comboio até Carcavelos. Apetecia-me mesmo passar a tarde na praia a apanhar um solinho de Inverno, espreguiçar-me e fazer uma sesta repousante entre as dunas sem preocupações, obrigações e satisfações para dar a alguém.

Ah pois é, de vez em quando não há nada que sabe melhor na vida do que o gosto puro e inalterado a liberdade... Isso é provavelmente o primeiro passo para essa ideia despistada que é a felicidade, sabes? Assim um prazer sem culpa enrolado num charro grosso de auto-indulgência cheio de esquecimento apagado de quaisquer responsabilidades. Yeah, sinto-me tão bem! 
É como cavalgar só de kilt ao vento, sem os constrangimentos maléficos da roupa interior, pelos montes da Escócia estilo Braveheart, e gritar até saírem os teus pulmões:


FREEEEEDOM!!!





(Só que sem aquela cena pesada no fim de ser esquartejado e decapitado à pala duma pátria claro...)

Sentei-me para trás no meu lugar relaxadamente e olhei para os passageiros do comboio. Não surpreendentemente pareciam estar quase todas com um ar cabisbaixo e sombrio, pessoas anónimas tão sozinhas ali sentadas em silêncio intenso com uma legião de bichos carpinteiros a roerem-lhes as consciências, a esgazearem o vazio ao fundo do túnel pela milésima viagem, sem puderem acender um cigarro para acalmarem os nervos.

Mas que malta tão tristonha pá, não admira que o nosso país esteja neste estado tão lastimável que até mete vergonha mostrar aos estrangeiros.

Parece que pessoal só ganha algum ânimo e entra num estado quase orgâsmico durante o Euro e o Mundial e durante o resto do tempo está a carpir por todos os lados como se isto fosse uma ditadura totalitária dum país do Terceiro Mundo.

Caraças, eu sei que toda gente tem contas para pagar, corações estilhaçados para curar e escolhas difíceis a tomar entre salvar ou foder a vida desta ou doutra pessoa. Mas o que é que isso interessa no fundo? Temos este sol estupendo a aquecer as nossas costas, um valente caminho à frente que é só nosso para traçar, e muitas gargalhadas para partilhar com amigos.

É como dizia aquela poetisa parvalhona:


“Laugh, and the world laughs with you – cry, and you cry alone...”


… apesar de vez quando... huh...

Talvez... nos custe um bocado que o peso dos nossos risos soem quase... fingidos.

Mas desde que ninguém note...

...está tudo bem. Mesmo tudo bem, não achas...? Ah ah...

Ouço então do fundo da carruagem alguém a chamar, e é uma mulher desmazelada de cinquenta e tal anos a manquejar na carruagem por entre os passageiros que a ignoravam completamente. Tinha um rosto cansado delineado por rugas de amargura de uma vida inteira, os cabelos desgrenhados dum tom grisalho prematuro, e uma feição abatida como uma árvore ressequida por chuvas ácidas... Ela segura nas mãos trémulas uma folha do Centro de Saúde que mostra timidamente a toda gente e suplica:

-- Por favor, alguém ajude-me. Sou doente de coração... – as palavras custam-lhe a sair-lhe, devia ser das primeiras vezes que mendigava -- Preciso de dinheiro para medicamentos...

-- Não tenho família... peço-vos ajuda...

Mas ninguém queria realmente saber, e nem se dignavam a olhar para ela duas vezes. Mordi os lábios. E de repente umas pessoas na parte traseira da carruagem afastam-se do corredor, deixando passar alguém.

A mulher volta-se para trás e vê um velho cego com uma mão amputada a arrastar-se através da carruagem com um pau duma esfregona a pedir também.

-- Tenham a bondade de me auxiliar... – implora o velho quase como uma ladainha que já perdeu todo o significado ao final de proferi-la milhares vezes. Um puto adolescente cheio de tatuagens coloca-lhe qualquer coisa no estojo de moedas semi-vazio. Quando ele passa por mim, reparo na aliança que ele traz no dedo e apercebo-me que ele deve ter mais família que a outra desgraçada.

-- Oh, o ceguinho... – ela fica terrivelmente embaraçada e calada, encostando-se a um canto sem saber o que fazer perante alguém que está num estado ainda pior que ela.

Hmm, se já é suficientemente difícil levantarmo-nos às vezes da cama com esta escuridão a assolar-nos por dentro, pergunto como é que encontrarias coragem para te levantar se o mundo inteiro fosse feito de trevas...?

Meti a mão nos bolsos, e tirei uns poucos trocos, hmm, não tinha mesmo onde cair morto. Levantei-me e dirige-me em direcção a eles meio irritado.

Dei o dinheiro que tinha à mulher, ela olha para mim espantada e suspira aliviada um “obrigada”. Não lhe disse nada e fui me sentar para outra carruagem.

Huh... talvez seja só impressão minha... mas notei que a maior parte das mulheres ganham estranhamente uma habilidade especial quando atingem a meia-idade... sabes qual é?

Ficam simplesmente... invisíveis para o resto das pessoas. Parece quase magia. E é um fenómeno paranormal tão profundo que afecta mulheres de todas as classes sociais, tenham família e muitos conhecidos na agenda ou não. Ao ponto de um cego ser mais visível que uma mulher envelhecida.

Gostava que isso nunca te acontecesse a ti, e acredito se conseguires rir-te genuinamente na maior parte dos dias, não tenho razões para me preocupar. Enfim, e apesar de não me lembrar muito da tua fronha, hei de continuar a gozar contigo até não me apetecer mais, seja isso para o mês que vem ou quem sabe, talvez até daqui a quarenta anos.

Fui-me embora e sentei-me no meu sítio favorito à direita, ao lado da janela onde estava um homem de fato e gravata cinzentos.

Quase como um reflexo não consegui deixar de observá-lo. A curiosidade por estranhos é uma mania que eu não consigo curar, a sério...

O tipo tinha um aspecto desnaturadamente exemplar, corte de cabelo rente, roupas impecáveis, barba feita, e uma postura certinha e direita como um soldado de vigia no quartel que acabou de levar um raspanete do sargento. O rosto dele era uma máscara completa, fria, eternamente sem expressão como um manequim duma loja.

Mas o mais marcante nele eram sem dúvida os olhos dele, tão húmidos, distantes e vidrados ao mesmo tempo... O género de olhar que dava a sensação de pertencer a alguém com o espírito consumido em cinzas. Tu reconhecerias facilmente isso, não é preciso ser-se uma pessoa muito perceptiva para ver quem sofre realmente no fundo ou não.

Reparei então numa caixa amarela de cartão que o homem tinha ao colo e segurava entre as mãos como se fosse um bebé doente. Possuía o logótipo duma túlipa na tampa. Havia qualquer coisa escrita de lado, eu examinei melhor e li simplesmente:

Prótese de Mastectomia

Hmm, provavelmente era para a mulher ou a mãe... Pergunto-me qual seria a história dele...? Merda, chateava-me o facto de que não haver nada que eu pudesse fazer. Eu não conheço quaisquer palavras de conforto, nem nunca me meti em conversas sérias, só tenho jeito para contar histórias e fazer piadas machistas de mau gosto.

E naquele momento, senti de certa forma alguma ligeira inveja de ti, porque mesmo que te tornes no futuro numa psicóloga parva e meio incompetente que não topa mesmo nada, ao menos sempre vais ajudar alguém na vida. Eh, tenho a certeza que noutra dimensão paralela, devido a uma pequena escolha diferente numa das bifurcações do destino, estou a fazer exactamente isso como queria quando era adolescente, e tu pelo contrário entreténs pessoas como uma pintora vadia, realizadora despassarada ou uma artista de circo alcoólica que gosta de atirar facas a gajos indefesos amarrados à roda da morte.

Mesmo assim, estaria a mentir se dissesse que desgosto desta nossa realidade. Olho à volta, e interrogo-me como aquele filme com o Jack Nicholson:

E se melhor que isto é impossível?





Talvez dentro de milhares de possibilidades, vivamos verdadeiramente no melhor dos mundos possíveis, é uma ideia batida e um bocado optimista demais eu sei, mas basta acreditar... que a nossa perspectiva muda absolutamente. E não nos custa nada.

Sorri por dentro e vi o homem a levantar-se quando o comboio parou na estação. Ouvi as portas a abrirem-se e fechei os olhos para arrochar um bocado enquanto não chegava à praia...

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