Fui cambaleando ao longo do rio Arade até dar de caras com um cenário familiar à minha frente...
E lá estava a bomba de gasolina solitária com o Burguer Ranch aberto 24 horas onde tinha jantado mais cedo. Em noite de tempestade qualquer porto serve de abrigo, e como estava cheio de frio e farto de queimar a borracha das solas entrei lá dentro aliviado.
Era mesmo um sítio desencantado, sem clientes a comer, com apenas o som sóbrio do televisor a ressoar pelo restaurante. Aquilo estava mesmo mais deserto que um bairro étnico depois de um ataque químico. Aproximei-me do balcão a tremer das mãos que tinham congelado e dirigi-me ao empregado africano encostado à parede de braços cruzados.
-- Boa noite... por acaso não tem aí chá?
O rapaz levantou o sobrolho cepticamente como se fosse a primeira vez que tivesse ouvido alguém a pedir chá naquele sítio.
-- Huh... acho que sim...
Ele foi perguntar ao supervisionador, um tipo com um penteado todo perfeito e uma camisa branca arregaçada, sobre se havia chá e ele respondeu meio inseguro que sim. O empregado africano pôs-se a revirar umas gavetas debaixo da máquina do café, à procura das coisas até que reuniu um bule de lata e uns pacotes.
-- Quer chá de quê?
-- Verde é claro. Preciso de acordar mesmo pra a vida.
-- Ah ok.
Levei o tabuleiro com água quente pra mesa e fiz a minha infusão preferida sem açúcar. Acho que foi um poeta inglês qualquer que disse que chá é a única bebida que nos acalma quando estamos exaltados e nos excita quando estamos calmos. Enfim, não era feito de folhas das montanhas do Dragão, mas servia pra aquecer o corpo e o meu espírito cansado.
4:52
Estava a dar na TV uma série americana genérica qualquer de polícias e criminosos e ainda faltavam muitas horas até ao amanhecer para chegada da camioneta. Assim achei melhor sacar do meu caderninho novo e tentar escrevinhar algo giro para te entreter.
Comecei com um poema.....
Batata, batatinha,
Néons na escuridão,
Reflexos no rio,
Batata batatinha,
Semáforos abertos,
Estradas desertas,
Batata batatinha,
Insónias latejantes
Uma overdose ofegante
De ansiedade e loucura
São o nosso fardo de cada noite
Batata, batatinha,
ALELUIA!
Ok.... não era bem isto... os miolos não prestam mesmo pra nada às 5 da matina... o que eu queria dizer... aquilo que guardo no coração era... huh... hmm... desisto. Não te interessa.
De repente começaram a aparecer carros, trazendo com eles um fluxo constante de pessoas e o restaurante encheu-se de pitas do secundário, quarentões bêbados, e montes de estrangeiros com um aspecto fashion pós-moderno de gosto duvidoso. Realmente esta pseudo década que está a nascer tem ainda menos identidade que os anos 90...
Os sacanas vinham em massa e os empregados não tinham mãos a medir assim a meio da madrugada. Calculei que deviam ter saído dos bares, hmm, pois, pra próxima encontro essa merda e desgraço-me completamente. A sério.
Estava ali sentado a tentar escrevinhar qualquer coisa, mas vieram logo os embriagados do costume sentar-se ao pé de mim, para contarem-me piadas cujo punch-line não se lembravam.
Enfim... é a minha sina de atrair sempre esta malta por alguma razão cósmica desconhecida. O mesmo borrão embaciado de caras de sempre. No entanto lembro-me bem dum africano completamente musculado que falava francês como língua materna e usava uma camisa vermelha do Pantera Negra do Benfica. Ele disse-me umas banalidades que ficaram na minha consciência sei lá porquê.
-- Sabes, vês este sítio tua volta? Esta cidade sempre com obras e mal governada? Para ti pode ser lixo, não presta pra nada, e só queres sair daqui para muito longe.
-- Um bocado. Mas eu sou de Lisboa.
-- Igual igual, não interessa. Eu vim de Marrocos, arrisquei a vida para vir trabalhar na Europa e mandar dinheiro a família. Vocês em Portugal não imaginam a sorte que ter! Até os mais pobres aqui passam menos fome do que em Africa.
-- Pois…
-- Tu tens ar que parece mesmo triste como as pessoas de cá.
-- Não não, simplesmente não dormi nada esta noite. Tou morto. – desculpei-me meio embaraçado.
-- A felicidade depende de cada homem, devias rir mais pá, porque esta é a terra de esperança e bom futebol!
-- BENFICA!!!! – grita um puto já mais vermelho que o seu próprio cachecol – granda jogo que foi pá esta noite! Viva o glorioso!!
O optimismo do marroquino era contagiante e até tinha uma certa razão. Mas era por isso mesmo que eu ia fugir um dia. Não são os problemas deste sítio que me incomodam, são só as memórias dele e o facto de não conseguir apagá-las. Talvez aquele vaso atirado à cabeça não fosse assim tão má ideia.
Levantei-me para ir buscar outro chá e fiquei na fila durante um bom bocado. Quando voltei já tinham me ocupado o lugar, e fiquei parado até que uma mulher me chama para o pé dos amigos dela. Sentei-me com eles, e reparei que era malta de trinta e muitos anos, completamente bêbados e de olhos cheios de sangue. A gaja estava acompanhada do marido mais velho de bigode e duma amiga com o olhar fixo no vazio. E como sempre não parava de falar comigo.
-- Hei tu não pareces daqui, pois não...? Onde é que nasceste, rapaz?
-- Hmm, na maternidade Alfredo da Costa. Em Lisboa.
-- Ah, porreiro. Falas muito bem português.
-- É o que 12 anos de escola fazem a uma pessoa.
-- E tás aqui em Portimão a fazer o quê? Férias? – continuou a interrogar-me curiosa.
-- Não.
-- Ah, já sei, vieste ver uma menina, huh? Como é que ela se chama...?
Eu suspirei um bocado impaciente.
-- Não. Só estou aqui a matar tempo e a beber chá.
-- Ah ah nós também, tava com uma fomeca, e precisava de encher o bucho antes de ir pra casa... Tivemos ali uma aventura com a bófia, que nos queria apanhar por causa da cena do capacete, mas conseguimos fugir de mota a alta velocidade, foi alucinante. Temos de repetir não é querido?
-- Se tu o dizes. – retorquiu o marido motard placidamente.
A outra continuava calada sem comer nada a esgazear a parede. Eu bebi mais um bocado da minha chávena de chá. A gaja ri-se para mim.
-- Ah ah tens mesmo um ar distinto. Nem pareces pertencer aqui.
-- Pois não, pertenço a Telheiras, o melhor bairro dormitório do mundo!
-- Alguém já te disse que és mesmo jeitoso? O rapaz é bonito, não é querido?
-- Se tu o dizes. – retorquiu o marido motard placidamente.
Eu encolhi os ombros. Realmente mulheres bêbadas são uma alegria, eu devia é ter te conhecido numa manhã destas, as coisas teriam sido mesmo diferentes.
Eles finalmente acabam de comer e preparam-se para ir-se embora. Eu respiro de alívio até que de repente a amiga silenciosa pega na minha mala.
-- Então menino, bora lá, já sei que te tenho de levar pra casa.
-- Huh?
-- Vem comigo, não vais ficar ai sozinho.
Eu olho para ela e sinceramente era inconsequente se fosse a gaja mais linda ou mais feia da terra, porque por muito confuso que estivesse, pelo menos tinha a certeza que não tinha vindo para Portimão pra afogar as mágoas nos braços doutra pessoa. E assim sorri genuinamente.
-- Ah ah, nah, fica pra próxima.
-- Ok, ok, tu é que sabes.
E vão se embora do restaurante nas motas fazendo-se à estrada. O empregado africano que estava a varrer o chão ali ao pé vira-se pra mim:
-- Poça, que paciência que tens. Não paravam de te chatear.
-- É na boa. Se ninguém se metesse com os copos, o mundo seria um marasmo e quase ninguém engravidava.
-- Ah ah tens razão.
Com o restaurante esvaziado passei depois o resto da madrugada a meter conversa com o cabo-verdiano e a ensinar palavras no meu dialecto ao pessoal do restaurante.
E lá estava a bomba de gasolina solitária com o Burguer Ranch aberto 24 horas onde tinha jantado mais cedo. Em noite de tempestade qualquer porto serve de abrigo, e como estava cheio de frio e farto de queimar a borracha das solas entrei lá dentro aliviado.
Era mesmo um sítio desencantado, sem clientes a comer, com apenas o som sóbrio do televisor a ressoar pelo restaurante. Aquilo estava mesmo mais deserto que um bairro étnico depois de um ataque químico. Aproximei-me do balcão a tremer das mãos que tinham congelado e dirigi-me ao empregado africano encostado à parede de braços cruzados.
-- Boa noite... por acaso não tem aí chá?
O rapaz levantou o sobrolho cepticamente como se fosse a primeira vez que tivesse ouvido alguém a pedir chá naquele sítio.
-- Huh... acho que sim...
Ele foi perguntar ao supervisionador, um tipo com um penteado todo perfeito e uma camisa branca arregaçada, sobre se havia chá e ele respondeu meio inseguro que sim. O empregado africano pôs-se a revirar umas gavetas debaixo da máquina do café, à procura das coisas até que reuniu um bule de lata e uns pacotes.
-- Quer chá de quê?
-- Verde é claro. Preciso de acordar mesmo pra a vida.
-- Ah ok.
Levei o tabuleiro com água quente pra mesa e fiz a minha infusão preferida sem açúcar. Acho que foi um poeta inglês qualquer que disse que chá é a única bebida que nos acalma quando estamos exaltados e nos excita quando estamos calmos. Enfim, não era feito de folhas das montanhas do Dragão, mas servia pra aquecer o corpo e o meu espírito cansado.
4:52
Estava a dar na TV uma série americana genérica qualquer de polícias e criminosos e ainda faltavam muitas horas até ao amanhecer para chegada da camioneta. Assim achei melhor sacar do meu caderninho novo e tentar escrevinhar algo giro para te entreter.
Comecei com um poema.....
Batata, batatinha,
Néons na escuridão,
Reflexos no rio,
Batata batatinha,
Semáforos abertos,
Estradas desertas,
Batata batatinha,
Insónias latejantes
Uma overdose ofegante
De ansiedade e loucura
São o nosso fardo de cada noite
Batata, batatinha,
ALELUIA!
Ok.... não era bem isto... os miolos não prestam mesmo pra nada às 5 da matina... o que eu queria dizer... aquilo que guardo no coração era... huh... hmm... desisto. Não te interessa.
De repente começaram a aparecer carros, trazendo com eles um fluxo constante de pessoas e o restaurante encheu-se de pitas do secundário, quarentões bêbados, e montes de estrangeiros com um aspecto fashion pós-moderno de gosto duvidoso. Realmente esta pseudo década que está a nascer tem ainda menos identidade que os anos 90...
Os sacanas vinham em massa e os empregados não tinham mãos a medir assim a meio da madrugada. Calculei que deviam ter saído dos bares, hmm, pois, pra próxima encontro essa merda e desgraço-me completamente. A sério.
Estava ali sentado a tentar escrevinhar qualquer coisa, mas vieram logo os embriagados do costume sentar-se ao pé de mim, para contarem-me piadas cujo punch-line não se lembravam.
Enfim... é a minha sina de atrair sempre esta malta por alguma razão cósmica desconhecida. O mesmo borrão embaciado de caras de sempre. No entanto lembro-me bem dum africano completamente musculado que falava francês como língua materna e usava uma camisa vermelha do Pantera Negra do Benfica. Ele disse-me umas banalidades que ficaram na minha consciência sei lá porquê.
-- Sabes, vês este sítio tua volta? Esta cidade sempre com obras e mal governada? Para ti pode ser lixo, não presta pra nada, e só queres sair daqui para muito longe.
-- Um bocado. Mas eu sou de Lisboa.
-- Igual igual, não interessa. Eu vim de Marrocos, arrisquei a vida para vir trabalhar na Europa e mandar dinheiro a família. Vocês em Portugal não imaginam a sorte que ter! Até os mais pobres aqui passam menos fome do que em Africa.
-- Pois…
-- Tu tens ar que parece mesmo triste como as pessoas de cá.
-- Não não, simplesmente não dormi nada esta noite. Tou morto. – desculpei-me meio embaraçado.
-- A felicidade depende de cada homem, devias rir mais pá, porque esta é a terra de esperança e bom futebol!
-- BENFICA!!!! – grita um puto já mais vermelho que o seu próprio cachecol – granda jogo que foi pá esta noite! Viva o glorioso!!
O optimismo do marroquino era contagiante e até tinha uma certa razão. Mas era por isso mesmo que eu ia fugir um dia. Não são os problemas deste sítio que me incomodam, são só as memórias dele e o facto de não conseguir apagá-las. Talvez aquele vaso atirado à cabeça não fosse assim tão má ideia.
Levantei-me para ir buscar outro chá e fiquei na fila durante um bom bocado. Quando voltei já tinham me ocupado o lugar, e fiquei parado até que uma mulher me chama para o pé dos amigos dela. Sentei-me com eles, e reparei que era malta de trinta e muitos anos, completamente bêbados e de olhos cheios de sangue. A gaja estava acompanhada do marido mais velho de bigode e duma amiga com o olhar fixo no vazio. E como sempre não parava de falar comigo.
-- Hei tu não pareces daqui, pois não...? Onde é que nasceste, rapaz?
-- Hmm, na maternidade Alfredo da Costa. Em Lisboa.
-- Ah, porreiro. Falas muito bem português.
-- É o que 12 anos de escola fazem a uma pessoa.
-- E tás aqui em Portimão a fazer o quê? Férias? – continuou a interrogar-me curiosa.
-- Não.
-- Ah, já sei, vieste ver uma menina, huh? Como é que ela se chama...?
Eu suspirei um bocado impaciente.
-- Não. Só estou aqui a matar tempo e a beber chá.
-- Ah ah nós também, tava com uma fomeca, e precisava de encher o bucho antes de ir pra casa... Tivemos ali uma aventura com a bófia, que nos queria apanhar por causa da cena do capacete, mas conseguimos fugir de mota a alta velocidade, foi alucinante. Temos de repetir não é querido?
-- Se tu o dizes. – retorquiu o marido motard placidamente.
A outra continuava calada sem comer nada a esgazear a parede. Eu bebi mais um bocado da minha chávena de chá. A gaja ri-se para mim.
-- Ah ah tens mesmo um ar distinto. Nem pareces pertencer aqui.
-- Pois não, pertenço a Telheiras, o melhor bairro dormitório do mundo!
-- Alguém já te disse que és mesmo jeitoso? O rapaz é bonito, não é querido?
-- Se tu o dizes. – retorquiu o marido motard placidamente.
Eu encolhi os ombros. Realmente mulheres bêbadas são uma alegria, eu devia é ter te conhecido numa manhã destas, as coisas teriam sido mesmo diferentes.
Eles finalmente acabam de comer e preparam-se para ir-se embora. Eu respiro de alívio até que de repente a amiga silenciosa pega na minha mala.
-- Então menino, bora lá, já sei que te tenho de levar pra casa.
-- Huh?
-- Vem comigo, não vais ficar ai sozinho.
Eu olho para ela e sinceramente era inconsequente se fosse a gaja mais linda ou mais feia da terra, porque por muito confuso que estivesse, pelo menos tinha a certeza que não tinha vindo para Portimão pra afogar as mágoas nos braços doutra pessoa. E assim sorri genuinamente.
-- Ah ah, nah, fica pra próxima.
-- Ok, ok, tu é que sabes.
E vão se embora do restaurante nas motas fazendo-se à estrada. O empregado africano que estava a varrer o chão ali ao pé vira-se pra mim:
-- Poça, que paciência que tens. Não paravam de te chatear.
-- É na boa. Se ninguém se metesse com os copos, o mundo seria um marasmo e quase ninguém engravidava.
-- Ah ah tens razão.
Com o restaurante esvaziado passei depois o resto da madrugada a meter conversa com o cabo-verdiano e a ensinar palavras no meu dialecto ao pessoal do restaurante.

Até que vi os primeiros raios da aurora ao longe através do vidro da porta. O rio parecia-me bem mais calmo que a noite anterior, com um belo veleiro ancorado magnificamente na marina. Eu despedi-me da malta e fui sentar-me num banco à beira da ria, na primeira fila deste espectáculo diário de graça.
Hmm, o nascer do sol são como as oportunidades, espera muito por ele e acabas por perdê-lo.
Mas este foi dos mais radiantes e quentes que eu já apreciei em toda a minha vida e fiquei de olhos fechados a aquecer-me debaixo do calor da alvorada.
Levantei-me uma hora depois, meti os auscultadores e fui apanhar a camioneta para Lisboa.
Hmm, o nascer do sol são como as oportunidades, espera muito por ele e acabas por perdê-lo.
Mas este foi dos mais radiantes e quentes que eu já apreciei em toda a minha vida e fiquei de olhos fechados a aquecer-me debaixo do calor da alvorada.
Levantei-me uma hora depois, meti os auscultadores e fui apanhar a camioneta para Lisboa.
Durante a viagem de regresso, acordei a transpirar de medo dum sonho contigo...
Hmm... Mas estava tudo bem. Estava tudo bem...


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