
We'll I'm standing by a river but the water doesn't flow
It boils with every poison you can think of.
Then I'm underneath the streetlights
But the light of joy I know
Scared beyond belief way down in the shadows.
And the perverted fear of violence chokes a smile on every face
And common sense is ringing out the bells.
This ain't no technological breakdown
Oh no
this is the road to hell.
É curioso o facto dum sítio puder transformar-se tanto do dia para a noite, e estas casinhas pacatas e sem personalidade tornarem-se quase loucamente ameaçadoras ao cair do sol, como trabalhadores dum escritório de contabilidade virados psychos depois de terem sido despedidos.
E sozinho num lugar desprovido de qualquer calor humano, no coração das trevas, uma sensação aguilhoada de paranóia começava lentamente a crescer na parte detrás do meu crânio até inundar a minha consciência toda e eu passar a ver movimentos fantasmagóricos no canto da minha visão periférica, mas que desapareciam sempre que olhava directamente para eles...
Pá, ao fim ao cabo, eu sabia no fundo que não havia nada escondido nas sombras à minha espera, isto de ser assaltado só acontece a pessoas com karmas desgraçados, e nunca a pessoas tão fixes como eu! (e se por acaso fosse emboscado, também sei correr pra caraças)
Mas no entanto não conseguia arrancar a sensação que estava a ser observado, perseguido e precedido por um doppelgänger de mau agoiro, por muito que tentasse racionalizar a minha cabeça. Havia qualquer instinto animal mais básico sob a pele que me controlava o pensamento completamente. O medo é mesmo um sistema de protecção lixado.
Ouvi o ruído de latas a rolar pelo pavimento, vasculhei a rua procurando algum ser vivo, mas estava completamente só. E nem sequer havia vento a soprar...
Merda, é bastante raro eu ter algum receio de passear no escuro, já tinha perdido a conta das vezes que vagueei sozinho à noite em sítios mal frequentados, e no entanto havia qualquer coisa indescritível nesta cidade pacífica que me incomodava. Mas o que é que raios seria...?
As minhas pernas desvairadas levaram-me por ruas atrás de ruas e desemboquei finalmente numa praça dum jardim onde estava a carcaça enferrujada dum avião da força área. Era um daqueles monumentos erguidos provavelmente para celebrar o sacrifício voluntário de soldados desconhecidos, porque o resto é tudo uma farsa inconsequente. Sentei-me ao pé dele, e limpei o suor que me escorria pelo queixo abaixo.
3:07 da noite.
Fogo, tava a caminhar há uma hora, se eu soubesse que este bar era tão difícil de encontrar tinha mas é ido bater uma sorna numa espelunca qualquer.
Depois de ter descansado um bocado, levantei-me e retomei caminho. Até que ouvi ali perto a voz grossa dum homem a ecoar pela praça. Olhei para a esquerda e reparei em alguém sentado à mesa do jardim, a falar imenso sozinho, e quem sabe? Talvez estivesse a conduzir a conversa mais filosoficamente importante para a existência da Humanidade ou então a cuspir uns arrotos incoerentes quaisquer sobre putas e anacondas devoradoras de homens. Tava tão podre de bêbado que eu não conseguia distinguir nem uma palavra do tipo, que bem podia estar a falar em swahili arcaico.
O homem viu-me também e interpelou-me, gritando comigo qualquer coisa, eu encolhi os ombros e achei melhor bazar, não tava hoje com grande pachorra pra aturar o discurso meio cómico meio triste de bêbados. Eu só queria era ficar assim.
Virei as costas ao gajo e continuei pelo jardim, só que notei que o homem tinha se levantado também e estava a dirigir-se para mim.
Um bocado enervado com o comportamento dele, atravessei a estrada pra meter-me noutra rua, mas ele fez exactamente o mesmo, no seu andar vacilante arrastado, com a cabeça inclinada pra frente.
Cabrão, o que é que este tipo queria?? Caminhei apressadamente para o outro lado da rua na esperança de o despistar, mas o filho da puta teimoso não cessava de me perseguir, cada vez mais próximo sob o meu encalço, como um zombie esfomeado por carne humana.
Tinha já o coração a bater mais depressa, as mãos a tremer, e a respiração mais pesada, o que é que eu ia fazer agora...?
Foi então que naquele preciso momento senti finalmente alguma coisa a partir-se dentro de mim, lá nas profundezas do meu âmago. E ouvi o Monstro a acordar.
Sim, só havia um final para isto. Levei-o outra vez para o meio do jardim, para longe de olhares alheios, ia acabar com esta brincadeira agora.
Fiquei à espera dele, com os punhos cerrados, a sorrir de euforia... há tanto tempo que não me sentia assim... esta noite era mesmo para a desgraça duma forma ou outra.
O tipo estava cada vez mais perto de mim, um homem pesado todo comido dos olhos, sujo de vómito velho e que não devia estar sóbrio há anos no meio deste fim do mundo.
Quando ele chegou finalmente a alguns passos de mim, preparei-me para partir-lhe a cara toda, e gritei-lhe:
-- O que é que foi pá??
-- Huh... eurgh. Eshh tu, tu! – grunhiu ele.
-- O que é que tu queres?? – era agora que ia desfazê-lo, já não me conseguia conter mais...
-- Ah, olha tens lume...? – e mostra-me um cigarro meio dobrado.
E de repente, toda a sensação de perigo desapareceu num gesto tão simples desapontante como este. E o Monstro voltou a adormecer.
-- Euh. Não, não fumo. – limitei-me a responder fracamente.
-- Porra, ninguém tem um isqueiro. – e afasta-se de mim desinteressado, seguindo pela rua acima com um andar coxo.
Esfreguei os olhos, sem saber se devia estar irritado ou aliviado, e simplesmente tomei um gole do meu licor em caso de dúvida.
Prossegui a minha caminhada pela noite, de mãos nos bolsos e chumbo nos pés.
Cada vez mais perdido.
Cada vez mais e mais perdido.
Um pássaro negro voou sobre a minha cabeça através da escuridão.
É uma merda estar perdido, porque sempre que não conhecemos o nosso caminho, não estamos em controlo do nosso destino. E coisas más geralmente tem a tendência de nos encontrar nessas alturas, como cães de caça que sentem o nosso desespero a milhas de distância.
Ouvi de repente um latido violento mesmo por detrás de mim que até senti o coração na boca. Dei um salto para a frente e virei-me, confrontando um enorme cão negro a rosnar enraivecidamente e a mostrar os dentes na minha direcção. O pêlo dele e os olhos dele eram tão pretos que pareciam estar a arder ameaçadoramente no escuro.
Grrr, o cabrão assustou-me.
-- Wof wof pra ti também, filho duma cadela! -- Ladrei também dum modo irritado, até que peguei numa pedra do chão e atirei ao raio do bicho com toda a força. Não lhe acertei mas o desgraçado do cão desatou a correr dali para fora.
Prossegui o caminho até encontrar uma estrada onde passavam alguns carros ligada a um túnel estreito pelo qual eu me limitei a passar por cima, mas tinha a impressão que estava a afastar-me cada vez mais da praia, e do meu bar sagrado.
Fui dar a uma zona sem prédios e subi por uma encosta que só continha casinhas e vivendas. Precisava de indicações, mas as placas só me deixavam mais desorientado. Se eu encontrasse alguém agora seria tão porreiro....
3:40.
Estava ali no meio de nenhures quando vejo um Renault Clio vermelho com gente a estacionar no outro lado do passeio. E saem de lá uns putos de secundário que deviam tar a voltar pra casa duma festa qualquer. As duas miúdas despedem-se dum rapaz mais velho de óculos e vão para uma casinha enquanto que este ainda fica a limpar qualquer coisa no banco detrás do carro. Eu não tinha outra opção e fui abordá-lo:
-- Desculpa, mas pra onde é que ficam os bares da Praia da Rocha??
-- Huh? Bares?
-- Ya, ando aqui meio perdido à procura.
-- Meu, tu tás bué da longe! Mesmo. A praia fica aí a uns 5 quilómetros daqui! Tens que entrar em Portimão e atravessar tudo até lá abaixo!
-- O quê??? – eu já devia estranhar o pequeno insignificante facto de estar num sítio vazio sem prédios ser sinal de ter saído da cidade.... huh....
-- Pois, segues esta estrada, vais ter ao centro e continuas sempre pra sul ao longo do rio. Devias é apanhar um táxi ali ao pé do Continente, chegavas lá em 5 minutos.
-- Hmm ok, brigado. – francamente até um cego com os copos
E assim voltei a fazer o raio do percurso de volta.
Fast-forward para 4:20.
Parei de andar, tentado relaxar os músculos das pernas e observei as minhas redondezas. Estava num local sem candeeiros de rua, cheio de armazéns e casarões abandonados. Ao pé dum muro coberto de graffiti estava um homem a mijar. E mais ao longe conseguia ver o estádio de futebol vazio com as luzes todas acessas pra cobrir uma partida entre equipas imaginárias.
Eu estava no meio da estrada a decidir em que direcção prosseguir quando um automóvel preto enorme abranda ao pé de mim. O vidro da janela baixa e lá dentro um homem de cabelo grisalho com cinquenta e tal anos, mas de aspecto apresentável dirige-me a palavra:
-- Então estás perdido?
-- Quem eu?
-- Sim, passei a noite a ver-te aqui às voltas. Esta zona é perigosa.
-- Ah, imagino que sim, mas não há crise.
-- Andas à procura de alguma coisa?
-- Huh, sim procurava um bar para ficar até ao amanhecer.
-- Se quiseres eu dou-te boleia.
Eu ia entrar quando me lembrei da minha mãezinha a dizer-me pra não aceitar boleia de estranhos. Não que eu tivesse medo de malta pervertida, não me conseguiriam superar nesse aspecto, mas com a sorte que eu tenho ainda me calhava um traficante de orgãos. E eu gosto muito dos meus rins onde estão.
-- Euh.... não é preciso, eu chego lá sozinho.
-- Tens a certeza? Ainda és assaltado, acho melhor entrares no carro e vires comigo.
-- Obrigado, mas eu desenrasco-me. Xau. – e afastei-me do homem, o tipo abanou a cabeça e arrancou com o automóvel, desaparecendo estrada abaixo.
Huh, talvez fosse só um homem com boas intenções, mas como já sabia que nesta terra só nascem pessoas malucas (deve ser da água ou do Sol que afecta as cabeças da malta aqui) achei melhor estar sossegado.
Fogo, estas vadiagens nocturnas fizeram-me lembrar um filme que vi quando era puto, After Hours, sobre um gajo que conhece uma mulher num café, e que vai visitá-la depois à noite para um bairro nova-iorquino muita decadente. E a história consiste nele a deambular pela madrugada fora, sempre a encontrar personagens e a acontecerem-lhe azares progressivamente maiores. Se calhar já viste, e até achaste piada e tal, mas quanto a mim, não sei porquê, acho que foi uma das comédias que me deixou mais deprimido...
E sozinho num lugar desprovido de qualquer calor humano, no coração das trevas, uma sensação aguilhoada de paranóia começava lentamente a crescer na parte detrás do meu crânio até inundar a minha consciência toda e eu passar a ver movimentos fantasmagóricos no canto da minha visão periférica, mas que desapareciam sempre que olhava directamente para eles...
Pá, ao fim ao cabo, eu sabia no fundo que não havia nada escondido nas sombras à minha espera, isto de ser assaltado só acontece a pessoas com karmas desgraçados, e nunca a pessoas tão fixes como eu! (e se por acaso fosse emboscado, também sei correr pra caraças)
Mas no entanto não conseguia arrancar a sensação que estava a ser observado, perseguido e precedido por um doppelgänger de mau agoiro, por muito que tentasse racionalizar a minha cabeça. Havia qualquer instinto animal mais básico sob a pele que me controlava o pensamento completamente. O medo é mesmo um sistema de protecção lixado.
Ouvi o ruído de latas a rolar pelo pavimento, vasculhei a rua procurando algum ser vivo, mas estava completamente só. E nem sequer havia vento a soprar...
Merda, é bastante raro eu ter algum receio de passear no escuro, já tinha perdido a conta das vezes que vagueei sozinho à noite em sítios mal frequentados, e no entanto havia qualquer coisa indescritível nesta cidade pacífica que me incomodava. Mas o que é que raios seria...?
As minhas pernas desvairadas levaram-me por ruas atrás de ruas e desemboquei finalmente numa praça dum jardim onde estava a carcaça enferrujada dum avião da força área. Era um daqueles monumentos erguidos provavelmente para celebrar o sacrifício voluntário de soldados desconhecidos, porque o resto é tudo uma farsa inconsequente. Sentei-me ao pé dele, e limpei o suor que me escorria pelo queixo abaixo.
3:07 da noite.
Fogo, tava a caminhar há uma hora, se eu soubesse que este bar era tão difícil de encontrar tinha mas é ido bater uma sorna numa espelunca qualquer.
Depois de ter descansado um bocado, levantei-me e retomei caminho. Até que ouvi ali perto a voz grossa dum homem a ecoar pela praça. Olhei para a esquerda e reparei em alguém sentado à mesa do jardim, a falar imenso sozinho, e quem sabe? Talvez estivesse a conduzir a conversa mais filosoficamente importante para a existência da Humanidade ou então a cuspir uns arrotos incoerentes quaisquer sobre putas e anacondas devoradoras de homens. Tava tão podre de bêbado que eu não conseguia distinguir nem uma palavra do tipo, que bem podia estar a falar em swahili arcaico.
O homem viu-me também e interpelou-me, gritando comigo qualquer coisa, eu encolhi os ombros e achei melhor bazar, não tava hoje com grande pachorra pra aturar o discurso meio cómico meio triste de bêbados. Eu só queria era ficar assim.
Virei as costas ao gajo e continuei pelo jardim, só que notei que o homem tinha se levantado também e estava a dirigir-se para mim.
Um bocado enervado com o comportamento dele, atravessei a estrada pra meter-me noutra rua, mas ele fez exactamente o mesmo, no seu andar vacilante arrastado, com a cabeça inclinada pra frente.
Cabrão, o que é que este tipo queria?? Caminhei apressadamente para o outro lado da rua na esperança de o despistar, mas o filho da puta teimoso não cessava de me perseguir, cada vez mais próximo sob o meu encalço, como um zombie esfomeado por carne humana.
Tinha já o coração a bater mais depressa, as mãos a tremer, e a respiração mais pesada, o que é que eu ia fazer agora...?
Foi então que naquele preciso momento senti finalmente alguma coisa a partir-se dentro de mim, lá nas profundezas do meu âmago. E ouvi o Monstro a acordar.
Sim, só havia um final para isto. Levei-o outra vez para o meio do jardim, para longe de olhares alheios, ia acabar com esta brincadeira agora.
Fiquei à espera dele, com os punhos cerrados, a sorrir de euforia... há tanto tempo que não me sentia assim... esta noite era mesmo para a desgraça duma forma ou outra.
O tipo estava cada vez mais perto de mim, um homem pesado todo comido dos olhos, sujo de vómito velho e que não devia estar sóbrio há anos no meio deste fim do mundo.
Quando ele chegou finalmente a alguns passos de mim, preparei-me para partir-lhe a cara toda, e gritei-lhe:
-- O que é que foi pá??
-- Huh... eurgh. Eshh tu, tu! – grunhiu ele.
-- O que é que tu queres?? – era agora que ia desfazê-lo, já não me conseguia conter mais...
-- Ah, olha tens lume...? – e mostra-me um cigarro meio dobrado.
E de repente, toda a sensação de perigo desapareceu num gesto tão simples desapontante como este. E o Monstro voltou a adormecer.
-- Euh. Não, não fumo. – limitei-me a responder fracamente.
-- Porra, ninguém tem um isqueiro. – e afasta-se de mim desinteressado, seguindo pela rua acima com um andar coxo.
Esfreguei os olhos, sem saber se devia estar irritado ou aliviado, e simplesmente tomei um gole do meu licor em caso de dúvida.
Prossegui a minha caminhada pela noite, de mãos nos bolsos e chumbo nos pés.
Cada vez mais perdido.
Cada vez mais e mais perdido.
Um pássaro negro voou sobre a minha cabeça através da escuridão.
É uma merda estar perdido, porque sempre que não conhecemos o nosso caminho, não estamos em controlo do nosso destino. E coisas más geralmente tem a tendência de nos encontrar nessas alturas, como cães de caça que sentem o nosso desespero a milhas de distância.
Ouvi de repente um latido violento mesmo por detrás de mim que até senti o coração na boca. Dei um salto para a frente e virei-me, confrontando um enorme cão negro a rosnar enraivecidamente e a mostrar os dentes na minha direcção. O pêlo dele e os olhos dele eram tão pretos que pareciam estar a arder ameaçadoramente no escuro.
Grrr, o cabrão assustou-me.
-- Wof wof pra ti também, filho duma cadela! -- Ladrei também dum modo irritado, até que peguei numa pedra do chão e atirei ao raio do bicho com toda a força. Não lhe acertei mas o desgraçado do cão desatou a correr dali para fora.
Prossegui o caminho até encontrar uma estrada onde passavam alguns carros ligada a um túnel estreito pelo qual eu me limitei a passar por cima, mas tinha a impressão que estava a afastar-me cada vez mais da praia, e do meu bar sagrado.
Fui dar a uma zona sem prédios e subi por uma encosta que só continha casinhas e vivendas. Precisava de indicações, mas as placas só me deixavam mais desorientado. Se eu encontrasse alguém agora seria tão porreiro....
3:40.
Estava ali no meio de nenhures quando vejo um Renault Clio vermelho com gente a estacionar no outro lado do passeio. E saem de lá uns putos de secundário que deviam tar a voltar pra casa duma festa qualquer. As duas miúdas despedem-se dum rapaz mais velho de óculos e vão para uma casinha enquanto que este ainda fica a limpar qualquer coisa no banco detrás do carro. Eu não tinha outra opção e fui abordá-lo:
-- Desculpa, mas pra onde é que ficam os bares da Praia da Rocha??
-- Huh? Bares?
-- Ya, ando aqui meio perdido à procura.
-- Meu, tu tás bué da longe! Mesmo. A praia fica aí a uns 5 quilómetros daqui! Tens que entrar em Portimão e atravessar tudo até lá abaixo!
-- O quê??? – eu já devia estranhar o pequeno insignificante facto de estar num sítio vazio sem prédios ser sinal de ter saído da cidade.... huh....
-- Pois, segues esta estrada, vais ter ao centro e continuas sempre pra sul ao longo do rio. Devias é apanhar um táxi ali ao pé do Continente, chegavas lá em 5 minutos.
-- Hmm ok, brigado. – francamente até um cego com os copos
E assim voltei a fazer o raio do percurso de volta.
Fast-forward para 4:20.
Parei de andar, tentado relaxar os músculos das pernas e observei as minhas redondezas. Estava num local sem candeeiros de rua, cheio de armazéns e casarões abandonados. Ao pé dum muro coberto de graffiti estava um homem a mijar. E mais ao longe conseguia ver o estádio de futebol vazio com as luzes todas acessas pra cobrir uma partida entre equipas imaginárias.
Eu estava no meio da estrada a decidir em que direcção prosseguir quando um automóvel preto enorme abranda ao pé de mim. O vidro da janela baixa e lá dentro um homem de cabelo grisalho com cinquenta e tal anos, mas de aspecto apresentável dirige-me a palavra:
-- Então estás perdido?
-- Quem eu?
-- Sim, passei a noite a ver-te aqui às voltas. Esta zona é perigosa.
-- Ah, imagino que sim, mas não há crise.
-- Andas à procura de alguma coisa?
-- Huh, sim procurava um bar para ficar até ao amanhecer.
-- Se quiseres eu dou-te boleia.
Eu ia entrar quando me lembrei da minha mãezinha a dizer-me pra não aceitar boleia de estranhos. Não que eu tivesse medo de malta pervertida, não me conseguiriam superar nesse aspecto, mas com a sorte que eu tenho ainda me calhava um traficante de orgãos. E eu gosto muito dos meus rins onde estão.
-- Euh.... não é preciso, eu chego lá sozinho.
-- Tens a certeza? Ainda és assaltado, acho melhor entrares no carro e vires comigo.
-- Obrigado, mas eu desenrasco-me. Xau. – e afastei-me do homem, o tipo abanou a cabeça e arrancou com o automóvel, desaparecendo estrada abaixo.
Huh, talvez fosse só um homem com boas intenções, mas como já sabia que nesta terra só nascem pessoas malucas (deve ser da água ou do Sol que afecta as cabeças da malta aqui) achei melhor estar sossegado.
Fogo, estas vadiagens nocturnas fizeram-me lembrar um filme que vi quando era puto, After Hours, sobre um gajo que conhece uma mulher num café, e que vai visitá-la depois à noite para um bairro nova-iorquino muita decadente. E a história consiste nele a deambular pela madrugada fora, sempre a encontrar personagens e a acontecerem-lhe azares progressivamente maiores. Se calhar já viste, e até achaste piada e tal, mas quanto a mim, não sei porquê, acho que foi uma das comédias que me deixou mais deprimido...
Por fim acabei por dar à zona ribeirinha, vendo a Ponte Velha fechada ao trânsito a estender-se solitariamente para a outra margem onde algumas luzes néon brilhavam fracamente na distância.
Caminhei até à beira do Rio Arade, olhando para as águas negras pouco convidativas, e respirando o vento frio que vinha do mar não muito longe dali. Dei um último gole na garrafa, fechei os olhos, e atirei-a para o meio da água. Não prestava mesmo aquilo. Fez-me perder completamente a vontade de meter-me em festas, e deixou-me tão entorpecido que sou incapaz de apreciar a beleza à minha volta, seja ela qual for. Sempre a fugir, e já nem sei o que é que me assustava tanto... E o meu único arrependimento naquele momento era não poder agora estar aqui a rir-me com o meu amigalhaço de Portimão. Se eu soubesse... Talvez as coisas tivessem sido diferentes, e estaríamos agora a beber juntos e a fazer figuras tristes à frente de miúdas em vez de tentar beber à memória dele...
Sentei-me na borda do pavimento, com as pernas a abanar no ar, e pensei realmente no que é que estava ali a fazer?
E não era uma pergunta filosófica sem resposta.
Caminhei até à beira do Rio Arade, olhando para as águas negras pouco convidativas, e respirando o vento frio que vinha do mar não muito longe dali. Dei um último gole na garrafa, fechei os olhos, e atirei-a para o meio da água. Não prestava mesmo aquilo. Fez-me perder completamente a vontade de meter-me em festas, e deixou-me tão entorpecido que sou incapaz de apreciar a beleza à minha volta, seja ela qual for. Sempre a fugir, e já nem sei o que é que me assustava tanto... E o meu único arrependimento naquele momento era não poder agora estar aqui a rir-me com o meu amigalhaço de Portimão. Se eu soubesse... Talvez as coisas tivessem sido diferentes, e estaríamos agora a beber juntos e a fazer figuras tristes à frente de miúdas em vez de tentar beber à memória dele...
Sentei-me na borda do pavimento, com as pernas a abanar no ar, e pensei realmente no que é que estava ali a fazer?
E não era uma pergunta filosófica sem resposta.

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