Domingo, Janeiro 06, 2008

After Hours No País Das Maravilhas: Parte I




'But I don’t want to go among mad people,' Alice remarked.
'Oh, you can’t help that,' said the Cat. 'We’re all mad here. I’m mad. You’re mad.'
'How do you know I’m mad?' said Alice.
'You must be,” said the Cat. 'or you wouldn’t have come here.'



Epá, não me orientava mesmo por Portimão, e acabava uma vez atrás da outra por dar de caras com ruas sem saída e traseiras de prédios degradados. Bem… isso também já me aconteceu num passeio pelo meu bairro. Foi numa noite depois de enveredar por uma rua misteriosa que nunca tinha visto antes, daquelas que te puxam como um imã e simplesmente tens de enfiar-te lá dentro, sabes? E quando dei por mim, reparei que estranhamente não conseguia encontrar o caminho de regresso a casa. Tive que apanhar depois um táxi pra casa… huh… okay, não tenho culpa de ter o sentido orientação duma gaivota cegueta bêbada.

Por isso decidi perguntar a alguém o caminho para o bar hospitaleiro mais próximo.

Só que não encontrava absolutamente nenhum indivíduo que se dignasse a espairecer ali na cidade.

Nas ruas reinava apenas uma solidão profunda tão desumana que começava a sentir o cheiro a queimado dos rastos que Monstros sem nome deixaram ao passar por estas estradas de alcatrão ardente. A sério. Não andava ali a alucinar uma fantasia qualquer, nem sequer estava mocado, eh eh. Como é que eu hei de explicar esta cena…?
Hmm, às vezes no preciso momento antes de alguém enlouquecer, e de a vida sofrer uma viragem terrível sem precedentes, nunca tiveste um ligeiro pressentimento de que ia acontecer alguma coisa? Eu sei que é uma ideia meio esquisita, mas desde puto que sinto de vez em quando um cheiro esquisito a ácido a ameaçar a atmosfera minutos antes dum desastre colidir com a realidade. Aliás um facto engraçado é que quando eu era criança tinha a mania de dar nomes a todas as emoções estranhas que ninguém mais parecia ter, ou pelo menos admitia que tinha, e não sei porquê… cheguei mesmo a criar um nome para essa impressão: Eu chamava-lhe o Hálito do Monstro.

Só que mesmo quando era miúdo eu sabia muito bem que este Hálito não provinha da terra, ou do inferno ou do céu, mas da gente à nossa volta. Mais precisamente do interior dos nossos corações. Porque em cada peito existe uma jaula de vidro. E em cada jaula dorme um Monstro. Se ficarmos suficientemente silenciosos durante algum tempo conseguimos ouvi-lo a respirar. E quando a situação em que nos encontramos se tornar negra, pudemos ouvi-lo a revirar-se desconfortavelmente no seu sono encarcerado. Até que nas raras vezes em que enfrentamos um dia de raiva a sério, o Monstrengo acorda, estilhaça a jaula num abrir de olhos e é libertado no mundo para mal dos nossos pecados.
Deixando atrás apenas um rasto de destruição coberto de corações mutilados, almas consumidas pela loucura, e este maldito fedor indescritível.

É um bocado como os instantes finais dum pesadelo em que ganhamos noção que estamos apenas dentro dum mau sonho, e através duma espécie de sexto sentido desconstruímos subitamente todas as peças do cenário através do qual andamos inconscientemente, e o mundo todo que conhecemos desaba para outra dimensão à qual gostamos de apelidar de realidade. E é uma mudançazinha que se sucede só por causa dum pressentimento inconfundível de que algo está errado.

Enfim, suponho que se pensarmos racionalmente deve ser só uma partida que a cabeça nos prega. Pois, huh, claro, é tudo psicológico. E eu não acredito em fenómenos sobrenaturais nem em tretas do género. Mas no entanto….

Eu olhei para o céu que se escondia por entre os prédios, e avistei um punhado de estrelas que beijava o tecto celestial avermelhado dum modo indiferente, enquanto que aqui em baixo o meu corpo era embaciado de ambos os lados por uma fileira de luzes néon outrora esperançosas de lojas de roupa, e candeeiros de rua que piscavam epilepticamente para ninguém, afogando uma rua inteira na sua própria escuridão mal disfarçada.

Até que no meio desta penumbra toda reparei numa sombra a mover-se solitariamente ao fundo da alameda. Oh meu finalmente, uma pessoa! Apressei o meu passo em direcção ao homem. Ao chegar-me ao pé dele, perguntei-lhe:

-- Eh perdão, mas podia fazer o favor de dizer onde é que fica o bar mais próximo?

O tipo era um gajo entroncado com um rosto de pedra e queixo endurecido, vira-se pra mim com cara de poucos amigos e diz numa pronúncia do Leste:

-- Não falar Português. -- encolhendo os ombros.

-- Ah... desculpe lá. – e afastei-me do homem a resmungar comentários menos apropriados para menores de 16 anos.

Eu continuei as minhas andanças procurando então um algarvio indígena que me pudesse mostrar o caminho.

Passei por praças tétricas, por ruelas estreitas, pelo cemitério, vendo os telhados das criptas iluminados pelo luar doentio e já estava a começar a afectar-me este ambiente fúnebre todo, vim para tão longe de casa só para descobrir que este sítio é exactamente a mesma merda que Telheiras. Acho que quando passeamos por outras cidades do mundo e mais além, provavelmente até pensamos a mesma coisa, afinal de contas, pessoas serão pessoas, prédios serão prédios, e franchises do MacDonalds serão MacDonalds seja em que lado for. Mas como gastámos tanto dinheiro na viagem, temos necessidade de provar o contrário, trazendo imensas fotografias e vídeos para chatearmos os amigos. Ah ah bons tempos. Tá-me mesmo apetecer viajar daqui pra fora e nunca mais voltar, foda-se.

Paro um bocadinho à debaixo dum patamar dum prédio para recuperar o Zen, respiro fundo algumas vezes, e tento alinhar os meus cristais internos de espiritualidade. Sim.
Eu estou uno com o Universo. A minha carne é a poeira das estrelas. A minha alma o éter do paraíso. Concentra-te, concentra-te, concentra-te e liberta-te... e tudo à volta torna-se espaço, matéria e electricidade. E tudo à volta deixa de existir.

Uff... Okay. Agora que estou lúcido como um bebé recém-nascido acabado de sair da vulva duma gaja gorda que não parava de gritar, devo ser capaz de encontrar uma resposta ao meu dilema.

E não é que... do outro lado da rua um homenzinho de boné e mãos nos bolsos do casaco sai de casa apressado e passa por mim. Eu levanto-me num ápice e não o deixo escapar, colando-me logo a ele.

-- Ehh, okay, se faz favor, podia dizer-me onde é que ficam os bares mais catitas daqui?

-- Huh? O quê falar? – diz ele numa pronúncia do Leste.

Hei, não pode ser. Outro ucraniano? Mas o que é que se passa aqui?

-- Epá, tipo um sítio onde se bebe, sabe? BAR... – fiz um gesto desesperado de eu a beber uma imperial meiguinha e doce como leite – Como é que eu hei de descrever, é um bocado uma fossa onde geralmente ficamos bêbados e fazemos figuras tristes?

-- Huh?

Eu já nem sabia o que havia de dizer a este.

-- Hmm, às vezes saímos de lá com uma desgraça qualquer agarrada a nós, outras vezes somos expulsos por distúrbios públicos, e a maior parte das vezes são os amigos que nos arrastam para casa. Suplico-lhe... Diga-me lá onde fica um bar decente.... por favor....





-- AAAhhh! Bar! Haver muito bar bom na praia. – declara ele todo contente.

-- Aleluia, louvado seja Deus. E qual é o caminho para lá?

-- Fácil fácil. Andar sempre para ali, depois para ali, depois esquerda, não passar rio, andar para baixo passar ao lado de estádio futebol, depois andar sempre em frente e encontrar praia, depois direita mas não ir para aí porque tem muito africano! Melhor ir sempre até acabar rua e encontrar bar OK! Mulher muito barata lá! – e levanta o polegar pra cima sorrindo imenso.

-- Euhhh... está bem, muito obrigado. – odeio quando peço indicações e fico na mesma.

Ufa... os russos estavam aqui pra ficar. A União Soviética não perdeu por completo porque invadiu Portimão em força aparentemente.

Seja como for, pus-me então a caminho, mais esperançado, vendo o bar mítico no horizonte ali à minha espera iluminada por uma aura brilhante e dourada, com uma loura boazona a estender-me uma cerveja fresquinha e umas batatas fritas ligeiramente mas não muito salgadas, e me dissesse numa voz rouca de bagaço mas terrivelmente sedutora:

-- Hoje é George Michael’s Night. Se cantares “I Want Your Sex” e assediares alguém na casa de banho duma maneira marota bebes de graça!

Isso é que seria.

Num cruzamento mais à frente encontrei um sinal a indicar para o Centro da Cidade e outro para a Praia da Rocha. Pois, pois, calculei que lá é que devia tar aquela merda toda por causa dos turistas e da malta original que invade esta terra no Verão. Então bora para lá que já se faz tarde.

Follow the Yellow Brick Road, homie...

2:30 da noite.

Fui seguindo as placas de indicação, mas estava a ficar cada vez mais desconfiado nelas quando me apontavam em direcções contrárias às anteriores. Andei para cima, andei para baixo, andei de lado estilo caranguejo, ao pé coxinho, mas tinha a impressão que estava ali às voltas feito parvo.

É como aquela pergunta que o Bob Dylan canta: quantos estradas tem que um homem percorrer até que se possa chamar um homem?

Imensas pra caralho é o que tou a descobrir.

Subitamente numa das ruas vazias ouço uma música fantasmagórica duma mulher a cantar em russo a ecoar etereamente pelo ar. Fui-me aproximando da fonte e vi por cima duma agência funerária, uma janela aberta, com o interior completamente às escuras e as cortinas a esvoaçar ao vento. Vi um flash sinistro das entranhas do apartamento que desapareceu tão depressa entre um batimento cardíaco. Senti um arrepio na espinha, e os pêlos da nuca a ficarem todos de pé. E desatei a correr dali para fora meio assustado sem saber porquê.

0 commentários: