Quinta-feira, Dezembro 27, 2007

Down The Rabbit Hole All Night Long




One day Alice came to a fork in the road and saw a Cheshire cat in a tree.
‘Which road do I take?’ she asked.
‘Where do you want to go?’ was his response.
‘I don't know’, Alice answered.
‘Then’, said the cat, ‘it doesn't matter.’



Acordei na sala de cinema com as luzes a ligarem-se, e o barulho das poucas pessoas que estavam lá a levantarem-se dos seus lugares. Notei que eram todos ucranianos... estranho. Na tela do projector rolavam os créditos e admito que mal me lembrava do filme que tinha visto. Odeio quando saio do cinema e fico apenas com a impressão de que os efeitos especiais eram fantásticos, e tudo o resto é apagado da minha memória selectivamente por uma entidade endiabrada qualquer que adora gozar connosco. Sinto-me um bocado roubado, porque já sei que vou acabar nalgum dia por ver aquilo outra vez e outra e outra...
Enfim, esfreguei os olhos sonolentamente, vesti o meu casaco e saí do cinema meio badalhoco da cabeça. Mal passei para a rua, o ar gélido cortante tratou-me da saúde e acordou-me de vez.

1:25 da noite.

Acho que agora só me restava a opção de ir tomar uns copos talvez num bar quentinho e acolhedor aqui perto, com música catita estilo Tears For Fears, e uma barmaid boa como o milho que tenha rompido com o namorado e só queira saber de truca-truca sem compromissos. E depois quando chegar finalmente a manhã crua, vou apanhar a camioneta e bater uma sorna na viagem de volta a Lisboa. Ahuh, parecia-me bem.

E assim continuei pela rua abaixo, dando passadas largas numa direcção desconhecida sem me importar muito para onde ia, visto que eventualmente encontraria alguma coisa no meu caminho. Nem que fosse ter ao Oceano Atlântico, com os peixinhos e o pólen de haxixe atirado ao mar.
Mas porra, já estava a caminhar há uns bons dez minutos e ainda não tinha visto ninguém a passear nas ruas de Portimão, para além duns carros com os mesmos rostos anónimos sentados na escuridão das suas carcaças de metal e plástico, sempre com pressa para chegar a casa ou algures onde as mulheres não os possam chatear.
Ah era realmente uma daquelas noites em que o meu corpo não projectava nenhuma sombra sob o olhar desapaixonado da Lua minguante, e os meus passos não faziam qualquer ruído ao tocarem no chão. Sabes aquele dilema filosófico parvo, sobre a árvore que caí sozinha na floresta...? Era um bocado como isso, se ninguém te vê, ouve ou toca-te, então não passas dum fantasma, e pergunto-me se existes mesmo verdadeiramente? Como é que será viver eternamente nessa sensação? Hmm... acho que só vamos satisfazer essa curiosidade parva quando esticarmos o pernil. Enfim, mas deixemos essas ideias absurdas para outro dia num futuro longínquo.

As minhas mãos estavam geladas, começando a arder completamente de tanto frio que sentia, por isso meti as minhas luvas pretas, apertei o casaco, e abri a garrafa de licor que tinha comprado para molhar a garganta. Urrgh, não era mesmo grande coisa... O que eu não fazia por um vodka melancia fresquinho acabado de ser mexido.
Mas onde é que raios pára esse bar?? Fónix, até uma espelunca de strip servia, deve haver de certeza aqui alguma sempre aberta prós os turistas mais rebarbados.

Até que ao passar por uma rua mais transversal, ouço os graves abafados duma musiquinha irritante a soarem na zona. Olhei para o lado e vejo uma porta negra fechada sobriamente, um enorme cartaz a dizer “Proibida a entrada a menores de 18 anos”. Tinha como nome o bar do Pato, ou do Lagarto, já não me lembro, mas era dum bicho qualquer. Fiquei um bocado hesitante em entrar naquilo que parecia ser um sítio ligeiramente duvidoso, só que o ar de arrepiar ali fora não me deixava outra escolha à minha carcaça que estava a ficar azul e bati à porta.

Um homem corpulento de bigode abriu-me a porta, e eu dei-me com um bar realmente indescritível...

Ena pá... sabes aquelas cenas clichés dos westerns em que o cowboy forasteiro entra no saloon decadente, empurrando as portas movediças, e toda gente olha para ele, desde o velho bêbado zarolho à dançarina de cabaret atiradiça? Depois o vilão mal-humorado cospe pra o balde do cuspo e tu já sabes que vai acontecer zaragata a qualquer momento, porque o forasteiro chega ao barman e pede um copo de leite...

Pois eu não sei porquê, tive exactamente essa sensação de entrar na Twilight Zone de todos os Westerns de série B quando meti os pés lá dentro. Havia uma atmosfera tão cerrada a fumo de tabaco que podia agarrá-lo e pesá-lo ao quilo, misturada com um cheiro a suor velho e música portuguesa dos anos 80 a soar dumas colunas pequenas todas rebentadas. Era uma daquelas bandas de rock, os UHF, GNR ou Xutos... (euh, os fans que me perdoem pois nunca consegui distingui-los...)

O pessoal estava todo a inspeccionar-me da cabeça aos pés, e eu engoli em seco. Aquilo era um bar castiço povoado pelos mesmos rostos enrugados e sombrios sentados nos mesmos lugares, noite após noite, há sei lá quantos anos... e via-se nos olhos baços pelo nevoeiro dos cigarros que cada um tinha uma história triste por contar.
Ali dentro só se encontravam homens de barba rija, todos com mais de cinquenta anos, e nenhum deles sorria, mas muito menos choravam alguma vez na vida, com umas expressões indecifráveis de estátuas da Ilha da Páscoa, acentuadas pela amargura doce das luzes esverdeadas e vermelhas dum candeeiro mágico mal decorado, e lâmpadas incandescentes a morrerem amareladamente por detrás das prateleiras das bebidas. Não sei como explicar concretamente, mas havia ali uma certa harmonia tensa sustentada por copos de uísque meios vazios e pratos de amendoins salgados que nem o despoletar duma guerra iria mudar. Aproximei-me timidamente do balcão, o barman observando-me como se eu tivesse vindo doutro planeta pergunta-me:

-- Então o que é que vai ser?

Eu coço a cabeça e peço uma imperial. O tipo sem qualquer reacção enche-me aquilo, eu pago-lhe, ficando calado sem saber o que dizer.

E pus-me a beber devolvendo o olhar à malta que não parava de me perscrutar da semi-escuridão à volta do bar minúsculo. Alguns conversavam sobre futebol, o jogo do Benfica VS Porto daquela noite, outros sobre a vaga de emigrantes na cidade enquanto uns limitavam-se a esgazear em silêncio o reflexo no fundo dos seus copos.
Normalmente acenar com a cabeça compreensivamente mostrando o meu sorriso estúpido livra-me de muitos sarilhos, e dá para entender-me com a maior parte racional da Humanidade, desde ex-combatentes da guerra colonial a junkies intelectuais amantes de trance e até à crew residente de No Name Boys da Amadora. Mas hoje... Nunca tiveste uma daquelas noites que nem o menino Jesus terias paciência para ouvir? Pois, eu não conseguia realmente comunicar com a malta à minha volta. Talvez a única pessoa que aturaria naquele momento seria uma certa badalhoca meio passada dos carretos, mas ya, não se pode ter tudo. E assim o mundo continua a girar sob suspiros e risos mal contidos, as estações do ano a irem e virem, e o ciclo da vida a dirigir-se para o raio que o parta.

Bom, ao menos não tinha calhado num bar gay ou de extrema direita... por isso o meu rabiosque tava à salvo por esta noite. Mas não era por isso que andava mais confortável... sentia-me demasiado observado e foi sem dúvida a imperial mais interminável que eu alguma vez bebi, quase como tar enrolado com alguém enquanto bebes uns shots mesmo à frente dos pais, dum padre e um coro inteiro de miúdos da primária. Mal tinha acabado com aquilo, estava a pensar em pedir outra quando o barman vira-se para mim e diz:

-- Desculpe lá, mas vou fechar o estabelecimento. – e começa a limpar os copos e arrumar as coisas. Eu olho para o relógio.

2:00 da noite.

-- Huh? Ainda é um bocado cedo. Pensava que só noutros países da Europa os bares fechavam a esta hora. Aqui geralmente a festa dura até as tantas, não é? – perguntei meio espantado com a sobriedade destes algarvios.

-- Não no meu bar. – respondeu-me simplesmente.

Ok, eu também não ia insistir em quebrar com a longa tradição de negócio dele. Encolhi os ombros, levantei-me e bazei outra vez.

Regressei às sombras das ruas de Portimão, e continuei o meu passeio nocturno em busca do próximo local onde pudesse relaxar até de madrugada. O upgrade tão esperado. O Santo Graal. Era mesmo o El Dorado das noites urbanas tão carregadas de ansiedade suave e cobertas por um lençol complacente de inquietação que nos deixa tão loucos à medida que envelhecemos.

Prontos, prontos, pra ser sincero, apesar de querer desgraçar-me, não andava mesmo seriamente à procura de companhia ou daquela magia voodoo sintetizada em pequenos comprimidos para me abrir as portas a outros mundos. Dispenso a pílula vermelha, não me ia ajudar muito a divertir naquela noite, e quanto à azul, felizmente ainda não preciso de Viagra.





Não sei o que dizer ao viajar sempre pela vida através desta área cinzenta de interferência que não é confortavelmente segura como nadar aos círculos num aquário sem predadores, nem é propriamente o inferno duma experiência verdadeira e dura de escalar o Monte Evereste sem oxigénio de rebentar com os nossos próprios limites.
Será que isto é apenas mera teimosia ou simplesmente muitas noites mal dormidas por causa de indecisões pessoais? E nós conhecemos bem aonde isso leva, não é toa que o sacana do Hamlet com o seu “ser ou não ser” existencial provoca a morte acidental ou não da Ofélia e de toda gente que o rodeia. E depois de fazer tanta merda, vai também com os porcos. É por isso que eu gosto é daquele personagem menor, o Príncipe da Noruega que anda por ali a passear sabe-se lá a fazer o quê na peça, sempre distante e na boa, e depois rouba a última cena em toda a sua glória. Que estilo, pá.
Hmmm... Agora quanto a ti.... também não tenho a certeza onde te encontras exactamente... Mas tenho uma vaga noção que vais mudando e atravessando os dias às vezes como te dá na gana e outras vezes deixas-te levar apenas ao sabor das ondas.

Fazer uma escolha, tomar uma atitude, desde escolher o sabor dum gelado a decidir o que fazer da vida num mundo em que não há certos nem errados é certamente a coisa mais difícil que um ser humano tem que inevitavelmente enfrentar.

Felizmente hoje eu só precisava de escolher qual era o bar seguinte em que eu ia fritar.

Sexta-feira, Dezembro 21, 2007

Sessão da Meia Noite No Cinema Paraíso

O som fantasmagórico dos meus passos ecoava pela calada das ruas vazias. Passei pelas lojas fechadas com manequins de olhares tristonhos enjaulados nas montras, passei pelas luzes dos candeeiros de rua que só atraíam traças solitárias, queimando-lhes as asas em pleno voo, passei por gatos pretos a lamberem-se nas sombras sob o calor dos motores de carros estacionados, mas como não tinha destino certo, nunca chegava a lado nenhum.

Que sossego desconcertante... E ainda nem eram nove da noite em Portimão. O que é que se passa com esta cidade? Parece Telheiras na Noite das bruxas, ou do Caloiro, ou de Santo António... suspiro...

Bem já chega destas andanças desvairadas, vou é procurar um sítio pra comer, que um homem de estômago vazio não se consegue divertir, a não ser que esteja forrado com álcool e ecstasy.

Andei, vasculhei pelo centro da cidade inteiro e mais além mas encontrava-se tudo de portas fechadas. Caraças, até os restaurantes estão trancados aos sábados? Quase parece que estes algarvios malucos vivem no Verão da massa dos turistas e passam o Inverno mesmo na fossa. A única coisa aberta eram restaurantes chineses, mas esses tanto no Natal, no Ano Novo e provavelmente no Dia do Juízo Final recebem clientes. E eu sinceramente já não podia ver um prato de chop suey com gambas e arroz chau chau à frente, depois duma infância inteira a enfardar porco agri-doce ao pequeno-almoço... eh eh.

O que me apetecia mesmo era um banquete sumptuoso, algo com classe, à luz das velas, música de piano por detrás, e a companhia certa... ahhh.... era mesmo isso...

Corta para um gordo de boné, de aspecto mal-humorado e barba mal por fazer a devorar um maxi hambúrguer. Estava agora numa bomba de gasolina ali ao pé, a consumir um menu do Burguer Ranch enquanto olhava silenciosamente do outro lado da minha mesa o gordo. O homem mal cabia no casaco de ganga que tinha vestido, e despachou o hambúrguer gigante em três tempos enquanto encharcava-se em coca cola e molhava as batatas em litros de ketchup espalhados sob o tabuleiro.

Ah, nada melhor para aniquilar a fome do que com uma pesada refeição cheia de colesterol e gordura! Bem... podes achar pouco saudável, mas sempre vivo mais do que se me deliciasse nas tuas obras magistrais de culinária.

Continuei o meu jantar entope-artérias todo contente enquanto observava as redondezas. A bomba estava mesmo às moscas à excepção dum quarentão a fumar tabaco e a ver futebol na TV. Parecia que era noite de jogo. Uma partida entre o Benfica e o Porto acho eu. Enfim, o meu consolo é que vou hoje parar em sítios mais divertidos que esta pasmaceira. Espero eu. Espero eu...

Enquanto tava sentado à mesa a mastigar as minhas batatas fritas, um agarrado magrinho vestido de casaco de cabedal esfolado entra pelo restaurante adentro e põe-se a falar com o gordo ao meu lado. Pareciam mesmo o Bucha e o Estica dos tempos modernos.

-- Epá homem, tenho ali o material guardado. Queres ir lá ver?

-- Tou a comer.

-- Vá lá, são móveis muito catitas.

-- Tou a comer. – retorque ele sem expressão, enquanto empanturra mais outro hambúrguer abaixo.

-- Epá aquilo é coisa de primeira categoria. 3G com máquinas fotográficas e tudo pá! -- explica o agarrado todo nervoso, mexendo imenso.

-- Tou a comer. – responde ele outra vez muita calmamente sem olhar para o tipo.

-- Estas coisas vendem-se como putas num quartel! A sério! Faço-te 50 mocas por cada um.

-- FODA-SE!! Não vês que tou a comer?! – gritou o Bucha finalmente cuspindo um bocado da alface para o tabuleiro.

-- Ok ok. Então despacha-te lá que eu preciso de vender aquilo depressa. Senão arranjo outra pessoa. – choramingou o Estica.

Estive pra dizer que comprava dois por 60 euros para vender na feira da ladra, mas depois ficava sem trocos para o resto da noite. Paciência, menos um contributo para o FCA, Fundo de Caridade ao Agarrado.

-- Ah tá bem porra… mostra-me lá essa merda. – o gordo termina o hambúrguer meio chateado, limpa a boca num guardanapo e parte com o agarrado dali para fora.

Uns minutos depois terminei também o meu jantar e desapareci na noite outra vez. Ao pé das docas do rio, vi um preto a correr que nem um louco com um saco às costas. Naturalmente deduzi que estava atrasado para o emprego. Emigrantes são os únicos que ainda fazem alguma coisa neste país!

Caminhei através dumas ruas em reparações no centro de Portimão seladas ao trânsito. Eram crateras, vedações e montes de terra por todos os lados, é mesmo estranho, porque é que apesar de fazerem tantas obras nesta terra as coisas continuam a desfazer-se sempre da pior maneira? É um bocado como aquelas almas de corações destroçados que sorriem, sorriem e sorriem todos os dias só que nunca mais recuperam de si próprias... e passam os anos a viver suavemente numa mágoa desfeita em cinzas que nunca deixa de queimar, não importa quantas vezes mudem de visual, ideias, relações ou façam redecorações à casa. Hmm, porque é que eu fiz uma analogia tão esquisita assim do nada? Enfim, ainda bem que não fazemos parte desse grupo, por isso é na boa. Ou não. Não interessa.

Meti-me pelas traseiras duma rua sem candeeiros e uma escuridão quase opressiva e confortável encostava-se sobre estes prédios e condomínios iguais uns aos outros, e reparei no único ser vivo por aquelas bandas, um velhote sinistro a fumar cachimbo à janela enquanto me seguia com o olhar. Eu apressei o passo e ao atravessar a estrada mais à frente quase que fui atropelado por uma carrinha Volkswagen escura que ia com o pé na tábua, faróis apagados e três indivíduos sérios vestidos de preto lá dentro. Também deviam ir começar a sua noite de trabalho.

Respirei o ar frio da noite, que ardia tão refrescantemente nos meus pulmões, enquanto procurava um sítio para me entreter. No meio das lojas apagadas dos edifícios vi uma luz acesa ao fundo e fui lá ver o que era. Cheguei e deparei-me só com uma montra de vidro que dava para uma sala branca com luzes fluorescentes pálidas, e uma mulher sentada atrás duma secretária. Hmm. Li o letreiro: Espaço Holístico, Problemas Amorosos, Pessoais, de Saúde e Financeiros.

Ah, sim, era uma daquelas pessoas tipo... huh... psicóloga. Só que mais honesta porque não te pedem dinheiro durante anos de terapia. Bem hoje não queria resolver nenhuns problemas pá, só me apetecia desgraçar-me completamente que é muito mais giro.

Fui me afastando da zona ribeireinha para oeste até que fui dar ao centro comercial do Modelo/Continente. Yup, nunca gramei muito grandes espaços capitalistas, não têm o mesmo charme da feira da ladra, a tradição de regatear com ciganos aldrabões, nem os preços atraentes “livra-me desta merda que a bófia tá a chegar”... Mas prontos ainda eram só nove e meia, e na falta de melhor, dava bem para matar tempo.

Passei pelas portas automáticas e obviamente encontrei grupos de adolescentes rebeldes todos de Levis compradas com dinheiro dos pais, e casais infelizes com miúdos hiperactivos por todos os lados, e eu ali no meio. Vi uma livraria e escapei lá para dentro, não sei porquê, talvez estivesse à espera de encontrar naquela noite o tal livro mítico e assombroso que nos deixa marcados para o resto da vida. E que nos transforma indistintamente duma forma especial, talvez não numa pessoa melhor, mas certamente diferente.

Peguei num exemplar do Kama Sutra com fotografias. Hmm. Posição da Lótus Invertida.





Isto era de quebrar as costas a uma pessoa normal. Ai ai, vê-se logo que o Kama Sutra só podia ser escrito por uma mente virgem, todas aquelas noites a pensar em sexo, afectam a cachola e é caminho certo para pensamentos pervertidos.

Fui ter às prateleiras dos clássicos, vendo as capas dos livros até que me deparei com “O Grande Gatsby”. Mordi os lábios, e abanei a cabeça, como quem reconhece subitamente um amigo parvo doutros tempos com quem não apetece nada falar. Abri na última página do romance e li o último parágrafo sobriamente:





“Gatsby acreditava na luz verde, no futuro orgiástico que, ano após ano, recua diante dos nossos olhos, nessa altura iludiu-nos, mas não importa – amanhã correremos mais depressa, esticaremos mais os braços... E uma bela manhã....

Assim vamos persistindo, como barcos contra a corrente, incessantemente levados de volta ao passado.”

Ah, grande Gatsby, velho amigo, fiel camarada... seu cabrão.

Fez-me lembrar daquele dia de Verão há poucos anos atrás... estava um sol amargo de bronzear o corpo, tinha acabado de ler aquilo e não sei o que me deu mas perdi de repente a vontade de vê-la. Passeei atordoado pelo bairro fora, aos tropeções e pontapés todo queimado do peito, e à frente da tua antiga casa vi-a sentada no café. Amava-a tanto e ela estava a minha espera mas eu já sabia bem o que me ia dizer. Era óbvio que ou esquecia o que havia para esquecer ou acabava como o desgraçado do Jay Gatsby. E eu...

Foda-se pá.


Saí dali a correr que nem um piromaníaco furioso dum incêndio que eu próprio ateei.

Precisava de qualquer coisa para escrever. Vasculhei os bolsos mas nada. Raios, precisava da minha dose diária, estava a ressacar pá, sem a minha seringa na veia e a minha heroína amiga. Atravessei o centro comercial e entrei no hipermercado, dirigi-me à zona do material escolar e peguei no primeiro bloco e caneta que me apareceram à frente. Ahhh. Melhor. Muito melhor. Dirige-me então aos balcões para pagar quando me recordei o quão frio estava lá fora, e ainda por cima ia andar sozinho a noite toda, por isso achei melhor buscar alguma companhia para a minha jornada. Levei comigo uma garrafa de licor rasca de 5 euros, não era o amigalhaço do Jack Daniels, mas servia para aquecer um bocado as entranhas.

Bazei do hipermercado e a caminhar por entre a praça do centro comercial vi cartazes de cinema no andar de cima. Decidi ir dar uma olhadela por mera curiosidade o que ia passar na sessão das 22h.

Hmm... estavam em cena o Beowulf, Uma História de Encantar, o Shoot em Up, Hitman etc...
Não eram maus filmes para ver com a malta, mas não tava hoje com grande vontade em me entreter com um desses sem ninguém com quem pudesse rir. E agora, o que é que eu ia fazer? Aproximei-me então da menina giraça que trabalhava nas bilheteiras.

-- Desculpa, mas tu por acaso não sabes se há outro cinema por estas bandas? Apetecia-me ver um filme sossegado que não me desse dores de cabeça.

-- Ah, pois, há outro cinema mais pequenino aqui perto, é só desceres a rua e virar à esquerda. – respondeu-me ela simplesmente num sotaque algarvio mesmo sexy.

-- Ok óptimo.

-- Mas tens a certeza que não queres ver aqui? Recebes desconto se fores estudante.

-- Pá não sei.

-- E as pipocas estão quentes e acabadas de fazer.

-- Ah, eu só me metia aí dentro se hoje tivesse companhia... – olhei para a carinha laroca dela e perguntei meio a brincar– hei, e tu quando é que acabas o teu turno?

-- Oh, só às 2 e tal. Porquê?

Sorrimos um para outro, e pensei no que estava a fazer. Não consegui. Sentia-me tão desorientado dos cornos, quase alienado do presente e do sítio onde me encontrava que parecia que estava a escorregar e a perder o juízo de quem eu era a sério.

-- Nada, nada, só curiosidade.

-- Ah ok. – encolhe ela os ombros – Então queres um bilhete ou não?

-- Nah, eu vou então lá para a outra sala ver se há qualquer coisa mais relaxada. Xau, xau, até à próxima.

-- Adeus.

Deambulei dali para fora durante uns bons minutos, até encontrar o cinema da cidade ali no meio de Portimão. Era um edifício amarelado só com um andar. Ah, eles devem passar aqui uns clássicos como aquela merda da Cinemateca de Lisboa, ou uns filmes catitas em que ao menos uma pessoa sente alguma coisa.
Entrei lá no hall vazio e deparei-me em cartaz com o Beowulf, Uma História de Encantar e o Não Sei Que Mais.

Entãaao....

Ok prontos. Já percebi. Lá terá de ser o Beowulf, parece que ia ter de ver a fronha da Angelina Jolie esta noite ou ficava lá fora ao frio...

Aproximei-me da vendedora dos bilhetes que tinha um aspecto tão amaciado e cansado de estar ali que parecia 15 anos mais velha que realmente era.

Comprei um bilhete depressa e não flirtei com ela.

Quando entrei na sala estava à espera dum sítio muita decadente, com um casal adolescente na fila de trás na marmelada e um velho rebarbado voyeur a bater uma, mas tive sorte e só se encontravam umas quatro pessoas sentadas sozinhas que pareciam caladas demais para o meu gosto. Enfim. Tavam como eu... Abanquei-me no meio da sala, o projector ligou-se, as luzes apagaram-se e senti-me a apagar-me também, perdendo a noção do tempo e morrendo para o mundo durante a mais longa eternidade. A sessão da Meia-Noite. E eu vislumbrei um bocado o Céu durante esse breve momento de inconsciência infinita.
 





Quinta-feira, Dezembro 06, 2007

Um Pinguim Perdido Em Portimão

Desliguei o telemóvel, com a tua voz de pita que parecia ter sempre nhanha na boca a ecoar-me nos meus ouvidos e respirei fundo.

Assim encontrava-me sozinho na pacata cidade de Portimão, vendo a noite longa a estender-se à minha frente como um monstro de sete cabeças e cauda bifurcada. O vento soprava pelas ruas entranhando-se por entre as minhas roupas como uma faca a cortar farrapos, desfazendo-me de qualquer réstia de calor, separando os membros do meu corpo, mas no entanto eu começava lentamente a gostar dessa sensação aprazível de dormência.

Viajei 300 km para te chatear e nem estavas aqui. Realmente, hmm, realmente… eu… Hah.

E por alguma razão que não percebo, comecei-me a rir ruidosamente no meio da rua e bati com a mão na testa. Enfim, acho que a minha irmãzinha estava certa quando comentou esta manhã que eu era um rapaz demasiado tonto pra viajar sozinho, e que se eu saísse de Lisboa, me ia perder tanto que até descobria um novo continente.

Pois, pois, encolhi os ombros, e continuei a vaguear por aí.

Fui caminhando pelas ruas vazias, iluminado por um luar minguante e decorações de natal azuis, sem saber para onde ir ou que iria fazer até ao amanhecer.

Hmm… como te encontravas a milhas daqui, e não tinha ninguém com quem falar, parecia-me que a única solução que restava era regressar a casa. Voltei então à paragem para tomar a última camioneta com destino a Lisboa daquela noite.

Aproximei-me do motorista de meia-idade que estava sentado ao volante, e perguntei-lhe:

-- Hei, este autocarro vai para onde?

-- Lisboa. – responde ele roucamente.

-- Ah fixe. Eu podia ir com o senhor? Tenho bilhete só para amanhã, Domingo à tarde, mas precisava de voltar agora…

-- Só se for para a mesma empresa que comprou. Isto é um autocarro da Rennex.

Eu tirei a minha carteira atordoado, rezando para que fosse mesmo, abri o bilhete e li…

Merda. Era doutra empresa.

-- Epá, é da EVA, mas não pode dar um jeitinho?

-- Não, lamento muito. Vai ter de comprar outro bilhete se quiser ir neste.

-- O quê? Outro? – eu olhei para os lados, procurando a bilheteira ali ao pé, mas vendo apenas a paragem de autocarro vazia – E onde é que eu posso fazer isso?

-- Na rua atrás de nós.

-- Ah ok. Então se calhar vou lá falar com eles para me ajudarem.

-- Mas agora aquilo já fechou. – declara ele singelamente sem grande interesse.

-- …… -- cruzei os braços impaciente -- E então agora?

-- Bem, pode ir de manhã.

Eu começava a passar-me da cabeça com este tipo

–- Ok ok. Já percebi. Então obrigado por nada.

-- Não tem de quê. 

Afastei-me meio chateado daquele sacana, e continuei a caminhar até perder-me no meio da noite.

Cheguei à Praça 1º de Maio, e sentei-me ali num banco a ver a fonte a esguichar jactos de água por todos os lados. Pensei que se calhar não seria má ideia ir para a pousada de juventude ou arrochar numa residencial baratucha esta noite.





Espera aí, eu não quero fazer isso. Já que andei tão longe até ao fim do mundo, queimei tempo e dinheiro e depois quando finalmente chego aqui, a única coisa que faço é dormir? Que raio de maneira é essa para passar um Sábado à noite?! Vou mas é vadiar, conhecer a cidade e divertir-me um bocado.

-- Porque esta noite é pra desgraça!!! – exclamei eu, pondo-me de pé e estendendo o braço para um público imaginário. – E vai ser all night long!!! Relax don’t do it, when you want to come! Wohoo!





Os jactos da fonte param de repente, até que perdem a potência toda, e deixam de lançar jorros de água, ficando silenciosos para o resto da noite…