Desliguei o telemóvel, com a tua voz de pita que parecia ter sempre nhanha na boca a ecoar-me nos meus ouvidos e respirei fundo.
Assim encontrava-me sozinho na pacata cidade de Portimão, vendo a noite longa a estender-se à minha frente como um monstro de sete cabeças e cauda bifurcada. O vento soprava pelas ruas entranhando-se por entre as minhas roupas como uma faca a cortar farrapos, desfazendo-me de qualquer réstia de calor, separando os membros do meu corpo, mas no entanto eu começava lentamente a gostar dessa sensação aprazível de dormência.
Viajei 300 km para te chatear e nem estavas aqui. Realmente, hmm, realmente… eu… Hah.
E por alguma razão que não percebo, comecei-me a rir ruidosamente no meio da rua e bati com a mão na testa. Enfim, acho que a minha irmãzinha estava certa quando comentou esta manhã que eu era um rapaz demasiado tonto pra viajar sozinho, e que se eu saísse de Lisboa, me ia perder tanto que até descobria um novo continente.
Pois, pois, encolhi os ombros, e continuei a vaguear por aí.
Fui caminhando pelas ruas vazias, iluminado por um luar minguante e decorações de natal azuis, sem saber para onde ir ou que iria fazer até ao amanhecer.
Hmm… como te encontravas a milhas daqui, e não tinha ninguém com quem falar, parecia-me que a única solução que restava era regressar a casa. Voltei então à paragem para tomar a última camioneta com destino a Lisboa daquela noite.
Aproximei-me do motorista de meia-idade que estava sentado ao volante, e perguntei-lhe:
-- Hei, este autocarro vai para onde?
-- Lisboa. – responde ele roucamente.
-- Ah fixe. Eu podia ir com o senhor? Tenho bilhete só para amanhã, Domingo à tarde, mas precisava de voltar agora…
-- Só se for para a mesma empresa que comprou. Isto é um autocarro da Rennex.
Eu tirei a minha carteira atordoado, rezando para que fosse mesmo, abri o bilhete e li…
Merda. Era doutra empresa.
-- Epá, é da EVA, mas não pode dar um jeitinho?
-- Não, lamento muito. Vai ter de comprar outro bilhete se quiser ir neste.
-- O quê? Outro? – eu olhei para os lados, procurando a bilheteira ali ao pé, mas vendo apenas a paragem de autocarro vazia – E onde é que eu posso fazer isso?
-- Na rua atrás de nós.
-- Ah ok. Então se calhar vou lá falar com eles para me ajudarem.
-- Mas agora aquilo já fechou. – declara ele singelamente sem grande interesse.
-- …… -- cruzei os braços impaciente -- E então agora?
-- Bem, pode ir de manhã.
Eu começava a passar-me da cabeça com este tipo
–- Ok ok. Já percebi. Então obrigado por nada.
-- Não tem de quê.
Afastei-me meio chateado daquele sacana, e continuei a caminhar até perder-me no meio da noite.
Cheguei à Praça 1º de Maio, e sentei-me ali num banco a ver a fonte a esguichar jactos de água por todos os lados. Pensei que se calhar não seria má ideia ir para a pousada de juventude ou arrochar numa residencial baratucha esta noite.
Assim encontrava-me sozinho na pacata cidade de Portimão, vendo a noite longa a estender-se à minha frente como um monstro de sete cabeças e cauda bifurcada. O vento soprava pelas ruas entranhando-se por entre as minhas roupas como uma faca a cortar farrapos, desfazendo-me de qualquer réstia de calor, separando os membros do meu corpo, mas no entanto eu começava lentamente a gostar dessa sensação aprazível de dormência.
Viajei 300 km para te chatear e nem estavas aqui. Realmente, hmm, realmente… eu… Hah.
E por alguma razão que não percebo, comecei-me a rir ruidosamente no meio da rua e bati com a mão na testa. Enfim, acho que a minha irmãzinha estava certa quando comentou esta manhã que eu era um rapaz demasiado tonto pra viajar sozinho, e que se eu saísse de Lisboa, me ia perder tanto que até descobria um novo continente.
Pois, pois, encolhi os ombros, e continuei a vaguear por aí.
Fui caminhando pelas ruas vazias, iluminado por um luar minguante e decorações de natal azuis, sem saber para onde ir ou que iria fazer até ao amanhecer.
Hmm… como te encontravas a milhas daqui, e não tinha ninguém com quem falar, parecia-me que a única solução que restava era regressar a casa. Voltei então à paragem para tomar a última camioneta com destino a Lisboa daquela noite.
Aproximei-me do motorista de meia-idade que estava sentado ao volante, e perguntei-lhe:
-- Hei, este autocarro vai para onde?
-- Lisboa. – responde ele roucamente.
-- Ah fixe. Eu podia ir com o senhor? Tenho bilhete só para amanhã, Domingo à tarde, mas precisava de voltar agora…
-- Só se for para a mesma empresa que comprou. Isto é um autocarro da Rennex.
Eu tirei a minha carteira atordoado, rezando para que fosse mesmo, abri o bilhete e li…
Merda. Era doutra empresa.
-- Epá, é da EVA, mas não pode dar um jeitinho?
-- Não, lamento muito. Vai ter de comprar outro bilhete se quiser ir neste.
-- O quê? Outro? – eu olhei para os lados, procurando a bilheteira ali ao pé, mas vendo apenas a paragem de autocarro vazia – E onde é que eu posso fazer isso?
-- Na rua atrás de nós.
-- Ah ok. Então se calhar vou lá falar com eles para me ajudarem.
-- Mas agora aquilo já fechou. – declara ele singelamente sem grande interesse.
-- …… -- cruzei os braços impaciente -- E então agora?
-- Bem, pode ir de manhã.
Eu começava a passar-me da cabeça com este tipo
–- Ok ok. Já percebi. Então obrigado por nada.
-- Não tem de quê.
Afastei-me meio chateado daquele sacana, e continuei a caminhar até perder-me no meio da noite.
Cheguei à Praça 1º de Maio, e sentei-me ali num banco a ver a fonte a esguichar jactos de água por todos os lados. Pensei que se calhar não seria má ideia ir para a pousada de juventude ou arrochar numa residencial baratucha esta noite.
Espera aí, eu não quero fazer isso. Já que andei tão longe até ao fim do mundo, queimei tempo e dinheiro e depois quando finalmente chego aqui, a única coisa que faço é dormir? Que raio de maneira é essa para passar um Sábado à noite?! Vou mas é vadiar, conhecer a cidade e divertir-me um bocado.
-- Porque esta noite é pra desgraça!!! – exclamei eu, pondo-me de pé e estendendo o braço para um público imaginário. – E vai ser all night long!!! Relax don’t do it, when you want to come! Wohoo!
-- Porque esta noite é pra desgraça!!! – exclamei eu, pondo-me de pé e estendendo o braço para um público imaginário. – E vai ser all night long!!! Relax don’t do it, when you want to come! Wohoo!
Os jactos da fonte param de repente, até que perdem a potência toda, e deixam de lançar jorros de água, ficando silenciosos para o resto da noite…

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