O som fantasmagórico dos meus passos ecoava pela calada das ruas vazias. Passei pelas lojas fechadas com manequins de olhares tristonhos enjaulados nas montras, passei pelas luzes dos candeeiros de rua que só atraíam traças solitárias, queimando-lhes as asas em pleno voo, passei por gatos pretos a lamberem-se nas sombras sob o calor dos motores de carros estacionados, mas como não tinha destino certo, nunca chegava a lado nenhum.
Que sossego desconcertante... E ainda nem eram nove da noite em Portimão. O que é que se passa com esta cidade? Parece Telheiras na Noite das bruxas, ou do Caloiro, ou de Santo António... suspiro...
Bem já chega destas andanças desvairadas, vou é procurar um sítio pra comer, que um homem de estômago vazio não se consegue divertir, a não ser que esteja forrado com álcool e ecstasy.
Andei, vasculhei pelo centro da cidade inteiro e mais além mas encontrava-se tudo de portas fechadas. Caraças, até os restaurantes estão trancados aos sábados? Quase parece que estes algarvios malucos vivem no Verão da massa dos turistas e passam o Inverno mesmo na fossa. A única coisa aberta eram restaurantes chineses, mas esses tanto no Natal, no Ano Novo e provavelmente no Dia do Juízo Final recebem clientes. E eu sinceramente já não podia ver um prato de chop suey com gambas e arroz chau chau à frente, depois duma infância inteira a enfardar porco agri-doce ao pequeno-almoço... eh eh.
O que me apetecia mesmo era um banquete sumptuoso, algo com classe, à luz das velas, música de piano por detrás, e a companhia certa... ahhh.... era mesmo isso...
Corta para um gordo de boné, de aspecto mal-humorado e barba mal por fazer a devorar um maxi hambúrguer. Estava agora numa bomba de gasolina ali ao pé, a consumir um menu do Burguer Ranch enquanto olhava silenciosamente do outro lado da minha mesa o gordo. O homem mal cabia no casaco de ganga que tinha vestido, e despachou o hambúrguer gigante em três tempos enquanto encharcava-se em coca cola e molhava as batatas em litros de ketchup espalhados sob o tabuleiro.
Ah, nada melhor para aniquilar a fome do que com uma pesada refeição cheia de colesterol e gordura! Bem... podes achar pouco saudável, mas sempre vivo mais do que se me deliciasse nas tuas obras magistrais de culinária.
Continuei o meu jantar entope-artérias todo contente enquanto observava as redondezas. A bomba estava mesmo às moscas à excepção dum quarentão a fumar tabaco e a ver futebol na TV. Parecia que era noite de jogo. Uma partida entre o Benfica e o Porto acho eu. Enfim, o meu consolo é que vou hoje parar em sítios mais divertidos que esta pasmaceira. Espero eu. Espero eu...
Enquanto tava sentado à mesa a mastigar as minhas batatas fritas, um agarrado magrinho vestido de casaco de cabedal esfolado entra pelo restaurante adentro e põe-se a falar com o gordo ao meu lado. Pareciam mesmo o Bucha e o Estica dos tempos modernos.
-- Epá homem, tenho ali o material guardado. Queres ir lá ver?
-- Tou a comer.
-- Vá lá, são móveis muito catitas.
-- Tou a comer. – retorque ele sem expressão, enquanto empanturra mais outro hambúrguer abaixo.
-- Epá aquilo é coisa de primeira categoria. 3G com máquinas fotográficas e tudo pá! -- explica o agarrado todo nervoso, mexendo imenso.
-- Tou a comer. – responde ele outra vez muita calmamente sem olhar para o tipo.
-- Estas coisas vendem-se como putas num quartel! A sério! Faço-te 50 mocas por cada um.
-- FODA-SE!! Não vês que tou a comer?! – gritou o Bucha finalmente cuspindo um bocado da alface para o tabuleiro.
-- Ok ok. Então despacha-te lá que eu preciso de vender aquilo depressa. Senão arranjo outra pessoa. – choramingou o Estica.
Estive pra dizer que comprava dois por 60 euros para vender na feira da ladra, mas depois ficava sem trocos para o resto da noite. Paciência, menos um contributo para o FCA, Fundo de Caridade ao Agarrado.
-- Ah tá bem porra… mostra-me lá essa merda. – o gordo termina o hambúrguer meio chateado, limpa a boca num guardanapo e parte com o agarrado dali para fora.
Uns minutos depois terminei também o meu jantar e desapareci na noite outra vez. Ao pé das docas do rio, vi um preto a correr que nem um louco com um saco às costas. Naturalmente deduzi que estava atrasado para o emprego. Emigrantes são os únicos que ainda fazem alguma coisa neste país!
Caminhei através dumas ruas em reparações no centro de Portimão seladas ao trânsito. Eram crateras, vedações e montes de terra por todos os lados, é mesmo estranho, porque é que apesar de fazerem tantas obras nesta terra as coisas continuam a desfazer-se sempre da pior maneira? É um bocado como aquelas almas de corações destroçados que sorriem, sorriem e sorriem todos os dias só que nunca mais recuperam de si próprias... e passam os anos a viver suavemente numa mágoa desfeita em cinzas que nunca deixa de queimar, não importa quantas vezes mudem de visual, ideias, relações ou façam redecorações à casa. Hmm, porque é que eu fiz uma analogia tão esquisita assim do nada? Enfim, ainda bem que não fazemos parte desse grupo, por isso é na boa. Ou não. Não interessa.
Meti-me pelas traseiras duma rua sem candeeiros e uma escuridão quase opressiva e confortável encostava-se sobre estes prédios e condomínios iguais uns aos outros, e reparei no único ser vivo por aquelas bandas, um velhote sinistro a fumar cachimbo à janela enquanto me seguia com o olhar. Eu apressei o passo e ao atravessar a estrada mais à frente quase que fui atropelado por uma carrinha Volkswagen escura que ia com o pé na tábua, faróis apagados e três indivíduos sérios vestidos de preto lá dentro. Também deviam ir começar a sua noite de trabalho.
Respirei o ar frio da noite, que ardia tão refrescantemente nos meus pulmões, enquanto procurava um sítio para me entreter. No meio das lojas apagadas dos edifícios vi uma luz acesa ao fundo e fui lá ver o que era. Cheguei e deparei-me só com uma montra de vidro que dava para uma sala branca com luzes fluorescentes pálidas, e uma mulher sentada atrás duma secretária. Hmm. Li o letreiro: Espaço Holístico, Problemas Amorosos, Pessoais, de Saúde e Financeiros.
Ah, sim, era uma daquelas pessoas tipo... huh... psicóloga. Só que mais honesta porque não te pedem dinheiro durante anos de terapia. Bem hoje não queria resolver nenhuns problemas pá, só me apetecia desgraçar-me completamente que é muito mais giro.
Fui me afastando da zona ribeireinha para oeste até que fui dar ao centro comercial do Modelo/Continente. Yup, nunca gramei muito grandes espaços capitalistas, não têm o mesmo charme da feira da ladra, a tradição de regatear com ciganos aldrabões, nem os preços atraentes “livra-me desta merda que a bófia tá a chegar”... Mas prontos ainda eram só nove e meia, e na falta de melhor, dava bem para matar tempo.
Passei pelas portas automáticas e obviamente encontrei grupos de adolescentes rebeldes todos de Levis compradas com dinheiro dos pais, e casais infelizes com miúdos hiperactivos por todos os lados, e eu ali no meio. Vi uma livraria e escapei lá para dentro, não sei porquê, talvez estivesse à espera de encontrar naquela noite o tal livro mítico e assombroso que nos deixa marcados para o resto da vida. E que nos transforma indistintamente duma forma especial, talvez não numa pessoa melhor, mas certamente diferente.
Peguei num exemplar do Kama Sutra com fotografias. Hmm. Posição da Lótus Invertida.
Que sossego desconcertante... E ainda nem eram nove da noite em Portimão. O que é que se passa com esta cidade? Parece Telheiras na Noite das bruxas, ou do Caloiro, ou de Santo António... suspiro...
Bem já chega destas andanças desvairadas, vou é procurar um sítio pra comer, que um homem de estômago vazio não se consegue divertir, a não ser que esteja forrado com álcool e ecstasy.
Andei, vasculhei pelo centro da cidade inteiro e mais além mas encontrava-se tudo de portas fechadas. Caraças, até os restaurantes estão trancados aos sábados? Quase parece que estes algarvios malucos vivem no Verão da massa dos turistas e passam o Inverno mesmo na fossa. A única coisa aberta eram restaurantes chineses, mas esses tanto no Natal, no Ano Novo e provavelmente no Dia do Juízo Final recebem clientes. E eu sinceramente já não podia ver um prato de chop suey com gambas e arroz chau chau à frente, depois duma infância inteira a enfardar porco agri-doce ao pequeno-almoço... eh eh.
O que me apetecia mesmo era um banquete sumptuoso, algo com classe, à luz das velas, música de piano por detrás, e a companhia certa... ahhh.... era mesmo isso...
Corta para um gordo de boné, de aspecto mal-humorado e barba mal por fazer a devorar um maxi hambúrguer. Estava agora numa bomba de gasolina ali ao pé, a consumir um menu do Burguer Ranch enquanto olhava silenciosamente do outro lado da minha mesa o gordo. O homem mal cabia no casaco de ganga que tinha vestido, e despachou o hambúrguer gigante em três tempos enquanto encharcava-se em coca cola e molhava as batatas em litros de ketchup espalhados sob o tabuleiro.
Ah, nada melhor para aniquilar a fome do que com uma pesada refeição cheia de colesterol e gordura! Bem... podes achar pouco saudável, mas sempre vivo mais do que se me deliciasse nas tuas obras magistrais de culinária.
Continuei o meu jantar entope-artérias todo contente enquanto observava as redondezas. A bomba estava mesmo às moscas à excepção dum quarentão a fumar tabaco e a ver futebol na TV. Parecia que era noite de jogo. Uma partida entre o Benfica e o Porto acho eu. Enfim, o meu consolo é que vou hoje parar em sítios mais divertidos que esta pasmaceira. Espero eu. Espero eu...
Enquanto tava sentado à mesa a mastigar as minhas batatas fritas, um agarrado magrinho vestido de casaco de cabedal esfolado entra pelo restaurante adentro e põe-se a falar com o gordo ao meu lado. Pareciam mesmo o Bucha e o Estica dos tempos modernos.
-- Epá homem, tenho ali o material guardado. Queres ir lá ver?
-- Tou a comer.
-- Vá lá, são móveis muito catitas.
-- Tou a comer. – retorque ele sem expressão, enquanto empanturra mais outro hambúrguer abaixo.
-- Epá aquilo é coisa de primeira categoria. 3G com máquinas fotográficas e tudo pá! -- explica o agarrado todo nervoso, mexendo imenso.
-- Tou a comer. – responde ele outra vez muita calmamente sem olhar para o tipo.
-- Estas coisas vendem-se como putas num quartel! A sério! Faço-te 50 mocas por cada um.
-- FODA-SE!! Não vês que tou a comer?! – gritou o Bucha finalmente cuspindo um bocado da alface para o tabuleiro.
-- Ok ok. Então despacha-te lá que eu preciso de vender aquilo depressa. Senão arranjo outra pessoa. – choramingou o Estica.
Estive pra dizer que comprava dois por 60 euros para vender na feira da ladra, mas depois ficava sem trocos para o resto da noite. Paciência, menos um contributo para o FCA, Fundo de Caridade ao Agarrado.
-- Ah tá bem porra… mostra-me lá essa merda. – o gordo termina o hambúrguer meio chateado, limpa a boca num guardanapo e parte com o agarrado dali para fora.
Uns minutos depois terminei também o meu jantar e desapareci na noite outra vez. Ao pé das docas do rio, vi um preto a correr que nem um louco com um saco às costas. Naturalmente deduzi que estava atrasado para o emprego. Emigrantes são os únicos que ainda fazem alguma coisa neste país!
Caminhei através dumas ruas em reparações no centro de Portimão seladas ao trânsito. Eram crateras, vedações e montes de terra por todos os lados, é mesmo estranho, porque é que apesar de fazerem tantas obras nesta terra as coisas continuam a desfazer-se sempre da pior maneira? É um bocado como aquelas almas de corações destroçados que sorriem, sorriem e sorriem todos os dias só que nunca mais recuperam de si próprias... e passam os anos a viver suavemente numa mágoa desfeita em cinzas que nunca deixa de queimar, não importa quantas vezes mudem de visual, ideias, relações ou façam redecorações à casa. Hmm, porque é que eu fiz uma analogia tão esquisita assim do nada? Enfim, ainda bem que não fazemos parte desse grupo, por isso é na boa. Ou não. Não interessa.
Meti-me pelas traseiras duma rua sem candeeiros e uma escuridão quase opressiva e confortável encostava-se sobre estes prédios e condomínios iguais uns aos outros, e reparei no único ser vivo por aquelas bandas, um velhote sinistro a fumar cachimbo à janela enquanto me seguia com o olhar. Eu apressei o passo e ao atravessar a estrada mais à frente quase que fui atropelado por uma carrinha Volkswagen escura que ia com o pé na tábua, faróis apagados e três indivíduos sérios vestidos de preto lá dentro. Também deviam ir começar a sua noite de trabalho.
Respirei o ar frio da noite, que ardia tão refrescantemente nos meus pulmões, enquanto procurava um sítio para me entreter. No meio das lojas apagadas dos edifícios vi uma luz acesa ao fundo e fui lá ver o que era. Cheguei e deparei-me só com uma montra de vidro que dava para uma sala branca com luzes fluorescentes pálidas, e uma mulher sentada atrás duma secretária. Hmm. Li o letreiro: Espaço Holístico, Problemas Amorosos, Pessoais, de Saúde e Financeiros.
Ah, sim, era uma daquelas pessoas tipo... huh... psicóloga. Só que mais honesta porque não te pedem dinheiro durante anos de terapia. Bem hoje não queria resolver nenhuns problemas pá, só me apetecia desgraçar-me completamente que é muito mais giro.
Fui me afastando da zona ribeireinha para oeste até que fui dar ao centro comercial do Modelo/Continente. Yup, nunca gramei muito grandes espaços capitalistas, não têm o mesmo charme da feira da ladra, a tradição de regatear com ciganos aldrabões, nem os preços atraentes “livra-me desta merda que a bófia tá a chegar”... Mas prontos ainda eram só nove e meia, e na falta de melhor, dava bem para matar tempo.
Passei pelas portas automáticas e obviamente encontrei grupos de adolescentes rebeldes todos de Levis compradas com dinheiro dos pais, e casais infelizes com miúdos hiperactivos por todos os lados, e eu ali no meio. Vi uma livraria e escapei lá para dentro, não sei porquê, talvez estivesse à espera de encontrar naquela noite o tal livro mítico e assombroso que nos deixa marcados para o resto da vida. E que nos transforma indistintamente duma forma especial, talvez não numa pessoa melhor, mas certamente diferente.
Peguei num exemplar do Kama Sutra com fotografias. Hmm. Posição da Lótus Invertida.

Isto era de quebrar as costas a uma pessoa normal. Ai ai, vê-se logo que o Kama Sutra só podia ser escrito por uma mente virgem, todas aquelas noites a pensar em sexo, afectam a cachola e é caminho certo para pensamentos pervertidos.
Fui ter às prateleiras dos clássicos, vendo as capas dos livros até que me deparei com “O Grande Gatsby”. Mordi os lábios, e abanei a cabeça, como quem reconhece subitamente um amigo parvo doutros tempos com quem não apetece nada falar. Abri na última página do romance e li o último parágrafo sobriamente:
Fui ter às prateleiras dos clássicos, vendo as capas dos livros até que me deparei com “O Grande Gatsby”. Mordi os lábios, e abanei a cabeça, como quem reconhece subitamente um amigo parvo doutros tempos com quem não apetece nada falar. Abri na última página do romance e li o último parágrafo sobriamente:

“Gatsby acreditava na luz verde, no futuro orgiástico que, ano após ano, recua diante dos nossos olhos, nessa altura iludiu-nos, mas não importa – amanhã correremos mais depressa, esticaremos mais os braços... E uma bela manhã....
Assim vamos persistindo, como barcos contra a corrente, incessantemente levados de volta ao passado.”
Ah, grande Gatsby, velho amigo, fiel camarada... seu cabrão.
Fez-me lembrar daquele dia de Verão há poucos anos atrás... estava um sol amargo de bronzear o corpo, tinha acabado de ler aquilo e não sei o que me deu mas perdi de repente a vontade de vê-la. Passeei atordoado pelo bairro fora, aos tropeções e pontapés todo queimado do peito, e à frente da tua antiga casa vi-a sentada no café. Amava-a tanto e ela estava a minha espera mas eu já sabia bem o que me ia dizer. Era óbvio que ou esquecia o que havia para esquecer ou acabava como o desgraçado do Jay Gatsby. E eu...
Foda-se pá.
Saí dali a correr que nem um piromaníaco furioso dum incêndio que eu próprio ateei.
Precisava de qualquer coisa para escrever. Vasculhei os bolsos mas nada. Raios, precisava da minha dose diária, estava a ressacar pá, sem a minha seringa na veia e a minha heroína amiga. Atravessei o centro comercial e entrei no hipermercado, dirigi-me à zona do material escolar e peguei no primeiro bloco e caneta que me apareceram à frente. Ahhh. Melhor. Muito melhor. Dirige-me então aos balcões para pagar quando me recordei o quão frio estava lá fora, e ainda por cima ia andar sozinho a noite toda, por isso achei melhor buscar alguma companhia para a minha jornada. Levei comigo uma garrafa de licor rasca de 5 euros, não era o amigalhaço do Jack Daniels, mas servia para aquecer um bocado as entranhas.
Bazei do hipermercado e a caminhar por entre a praça do centro comercial vi cartazes de cinema no andar de cima. Decidi ir dar uma olhadela por mera curiosidade o que ia passar na sessão das 22h.
Hmm... estavam em cena o Beowulf, Uma História de Encantar, o Shoot em Up, Hitman etc...
Não eram maus filmes para ver com a malta, mas não tava hoje com grande vontade em me entreter com um desses sem ninguém com quem pudesse rir. E agora, o que é que eu ia fazer? Aproximei-me então da menina giraça que trabalhava nas bilheteiras.
-- Desculpa, mas tu por acaso não sabes se há outro cinema por estas bandas? Apetecia-me ver um filme sossegado que não me desse dores de cabeça.
-- Ah, pois, há outro cinema mais pequenino aqui perto, é só desceres a rua e virar à esquerda. – respondeu-me ela simplesmente num sotaque algarvio mesmo sexy.
-- Ok óptimo.
-- Mas tens a certeza que não queres ver aqui? Recebes desconto se fores estudante.
-- Pá não sei.
-- E as pipocas estão quentes e acabadas de fazer.
-- Ah, eu só me metia aí dentro se hoje tivesse companhia... – olhei para a carinha laroca dela e perguntei meio a brincar– hei, e tu quando é que acabas o teu turno?
-- Oh, só às 2 e tal. Porquê?
Sorrimos um para outro, e pensei no que estava a fazer. Não consegui. Sentia-me tão desorientado dos cornos, quase alienado do presente e do sítio onde me encontrava que parecia que estava a escorregar e a perder o juízo de quem eu era a sério.
-- Nada, nada, só curiosidade.
-- Ah ok. – encolhe ela os ombros – Então queres um bilhete ou não?
-- Nah, eu vou então lá para a outra sala ver se há qualquer coisa mais relaxada. Xau, xau, até à próxima.
-- Adeus.
Deambulei dali para fora durante uns bons minutos, até encontrar o cinema da cidade ali no meio de Portimão. Era um edifício amarelado só com um andar. Ah, eles devem passar aqui uns clássicos como aquela merda da Cinemateca de Lisboa, ou uns filmes catitas em que ao menos uma pessoa sente alguma coisa.
Entrei lá no hall vazio e deparei-me em cartaz com o Beowulf, Uma História de Encantar e o Não Sei Que Mais.
Entãaao....
Ok prontos. Já percebi. Lá terá de ser o Beowulf, parece que ia ter de ver a fronha da Angelina Jolie esta noite ou ficava lá fora ao frio...
Aproximei-me da vendedora dos bilhetes que tinha um aspecto tão amaciado e cansado de estar ali que parecia 15 anos mais velha que realmente era.
Comprei um bilhete depressa e não flirtei com ela.
Quando entrei na sala estava à espera dum sítio muita decadente, com um casal adolescente na fila de trás na marmelada e um velho rebarbado voyeur a bater uma, mas tive sorte e só se encontravam umas quatro pessoas sentadas sozinhas que pareciam caladas demais para o meu gosto. Enfim. Tavam como eu... Abanquei-me no meio da sala, o projector ligou-se, as luzes apagaram-se e senti-me a apagar-me também, perdendo a noção do tempo e morrendo para o mundo durante a mais longa eternidade. A sessão da Meia-Noite. E eu vislumbrei um bocado o Céu durante esse breve momento de inconsciência infinita.

0 commentários:
Enviar um comentário