Eu caminhei de casaco apertado ao corpo pelo meu bairro em direcção à estação de metro. Estava mesmo um dia frio, o Inverno começava finalmente a aguilhoar-me a carne, deixando-me insensível e entorpecido por fora tal como a temperatura dentro do meu coração. Demasiado familiar, mesmo demasiado…
Passo após passo pelo passeio fora, sem nunca pisar nas linhas entre as pedras, como se tivesse receio de estar a infringir uma fronteira invisível proibida, ia-me perdendo naquela distância desconfortável indefinida que nos separa dos outros.
…O que é que isso significa pá…?
Ah, nem sei ao certo, mas sinto-me que estou a afogar-me cada vez mais neste mar de palavras agradáveis e tantas vezes insinceras, rodeado pelas vozes da multidão que não param de entrar nos meus ouvidos como ondas a esmagarem-se nas rochas, e no meio desta cacofonia tempestuosa toda, até as coisas que digo deixam de chegar e tocar o próximo, e soam a ecos atirados ao abismo. Como um professor alcoólico e desiludido a tentar inspirar um bando de jovens pouco impressionáveis, só digo asneiras e piadas sarcásticas sem graça.
Passo após passo pelo passeio fora, sem nunca pisar nas linhas entre as pedras, como se tivesse receio de estar a infringir uma fronteira invisível proibida, ia-me perdendo naquela distância desconfortável indefinida que nos separa dos outros.
…O que é que isso significa pá…?
Ah, nem sei ao certo, mas sinto-me que estou a afogar-me cada vez mais neste mar de palavras agradáveis e tantas vezes insinceras, rodeado pelas vozes da multidão que não param de entrar nos meus ouvidos como ondas a esmagarem-se nas rochas, e no meio desta cacofonia tempestuosa toda, até as coisas que digo deixam de chegar e tocar o próximo, e soam a ecos atirados ao abismo. Como um professor alcoólico e desiludido a tentar inspirar um bando de jovens pouco impressionáveis, só digo asneiras e piadas sarcásticas sem graça.
…Quando é que foi a última vez que tivemos uma conversa que realmente achámos enternecedora digna de guardarmos no coração?
Foi ontem? No mês passado? Talvez no Inverno anterior?
Isso existe sequer na realidade? Ou é algo que só faz sentido nos filmes de Hollywood?
Huhhh… Não me lembro, mas devo ter tido alguns momentos mágicos desses na minha vida inteira, acho eu… só que… não… ah, estou mesmo a esquecer-me de tudo que é importante.
Será que esta rotina das 9 às 6, dia atrás do outro começa a desgastar-me em pó como os meus maxilares todas as noites?
Não, não deve ser…
Eu… queria contar-te…
Apetece-me gritar…
(…..)

(…..)
O tempo passa.
E é tudo. O mundo estava bem. Mesmo que não, tinha de acreditar nisso.
Não tenho outra escolha.
Alguém tem?
Olhei para o céu, o Sol continuava a brilhar e miúdos encharcados em risos a correr num vaivém por mim na rua.
Estava atrasado para ir fazer um trabalho com o meu colega de faculdade, e por isso decidi cortar caminho até ao metro. Atravessei na diagonal um pátio duns prédios ali perto até que reparei lá no meio da arquitectura de muros, escadinhas e corrimões nuns rapazes de fato de treino ou de tronco nu a saltarem um lado para o outro como se não acreditassem na Lei da Gravidade nem quisessem saber de joelhos esfolados e pulsos deslocados. Esta cena do Parkour invadiu o bairro todo em força. Bom, ao menos é uma moda saudável.
Reconheci um dos gajos, era o Rapaz-Inquieto, um conhecido lá do bairro. Acenei-lhe com a cabeça. Ele parou de pular, quase escorregando com os ténis Allstars enormes e dando um grande tralho, e vira-se pra mim sorridente:
-- Hei man, então tá tudo porreiro? – perguntou-me ele enquanto estalava os dedos.
Eu encolhi os ombros.
-- Different day, same shit… sempre atolado em aulas e trabalhos até ao pescoço… mas de resto tou óptimo! E tu? O que é que tens feito?
-- Epá, muita coisa muita coisa. Agora tou só a relaxar aqui com a malta, e a praticar um bocado de desporto urbano!
Hmm, o Rapaz-Inquieto era um daqueles tipos eternamente jovens que apesar de já ser mais velho que eu, nunca ia ter idade para ter juízo. Um bocadinho como tu mas não chegas aos calcanhares da desorientação dele. Isso seria comparar em proporções um cheeseburguer singelo a um Double Big Mac Deluxe. Sim, o rapaz andava sempre meio à deriva como um surfista solitário à procura da Grande Onda sua vida. Não que haja mal nisso. Há tantos caminhos à nossa frente, desde auto-estradas a atalhos por mato cerrado que tu tomas improvisadamente porque te apetece, e vão todos dar ao fim do Universo. E no fundo, no fundo, o destino terminal é inconsequente, a única coisa que interessa é dares boleia às jovens turistas francesas e que ao menos te divirtas um bocado no raio da viagem, não achas?
-- Fazes bem. Mas e de resto? Já resolveste a tua situação?
-- Epá sabes como é que é isso tá complicado. Isto de não tar a estudar e andar meio no desemprego é um atraso de vida. Grande marasmo.
-- Não desanimes, Roma não se construiu numa noite... Mas mexe-te, porque também não se constrói por si própria! Ya?
-- Claro, claro. Mas olha deixa-me contar-te do meu novo projecto de música… é uma coisa mesmo potente. Fiz um vídeo fantástico, uma festa de efeitos especiais e o som é tipo uma mistura entre Thievery Corporation, Portishead, Anathema e samples do filme Deepthroat! Aquilo é de explodir com a cabeça, e abrir fracturas na terra de tão suavemente brutal que ficou, então ainda meti uns riffs de guitarra eléctrica para dar mais estilo, eh lá e digo-te modéstia à parte, porque sou um gajo humilde, é mesmo uma trip do caralhão, até derrete o ecrã e as colunas do quarto, pá só me apetece saltar da janela e voar, bom não a sério, isso doía um bocado, mas tens de ouvir por ti próprio, o quão totalmente atmosférico e totalmente awesome é aquilo, como um bebé a ouvir o bater do coração da mãe do interior da barriga, sabes, música é mesmo a linguagem da alma, é aquela ponte que consegue aproximar duas pessoas estranhas que se odeiam, a escadaria para o paraíso, a solução para todos os males da cabeça, né??
-- Huh, sim sim. -- ele falava sempre dum modo tão acelerado e gesticulava tanto os braços que eu não sabia dizer se ele tinha andado a fumar qualquer coisa catita, ou se era simplesmente um tipo entusiasmado e doido pela vida. Mas enfim, ele era bom rapaz.
-- Depois eu mando-te isso, tasse?
-- Ya ok. – eu olhei para o relógio – epá desculpa lá tenho de bazar. Foi um prazer. Xau e fica bem!
-- Até à próxima meu.
Corri e saí do pátio para ir ter ao metro. Ouvi o móvel e li a seguinte mensagem do Rapaz-Chato-Que-Se-Farta:
“Onde é que tás? Pára de anhar e vem mas é trabalhar!”
Isto ia ser um longo dia…
(…..)
O tempo passa mais um bocado.
Quando voltei para casa ao final da tarde sentei-me na estação do Intendente à espera do metro. Era daquelas estações que ainda não tinha sido remodelada, as paredes do túnel estavam todas cobertas por uns mosaicos de aspecto azulado sujo incrivelmente decadente, havia um cheiro intenso a mijo e imenso lixo no pavimento, enquanto o rugir neurótico das ventoinhas nunca parava de gemer. Tava um velho mal-vestido despenteado de barba cinzenta sentado do outro lado do cais, sozinho no seu banco a remexer nuns sacos de plástico. Fiquei a observá-lo quando de repente ele começa a gritar para ninguém:
-- Hei, hei, eu quero ir matar uns passarinhos dum raio! Esses cabrões. Já vos ensino! – levanta-se e dá um soco imaginário no ar. Pouco depois começa a trautear uma música e a bater palmas, enquanto os outros transeuntes o ignoravam completamente.
-- Sha-la-la… E viva o Sporting.
-- Viva. – apoiei eu do outro lado.
Ele não me respondeu e desapareceu para sempre quando o metro chegou.
Foi então que percebi…
…que provavelmente o elemento que nos liga mais perto dos outros era a loucura. Hmm, às vezes só assim é que respeitamos a sério uma pessoa com uns fusíveis a menos, porque simplesmente sabes que anda tão lixada pela vida como tu.
E no fim, os únicos que se safam sempre da raiva do Universo são mesmo os cucos, a sorte favorece um bocado demais os audazes.
Reconheci um dos gajos, era o Rapaz-Inquieto, um conhecido lá do bairro. Acenei-lhe com a cabeça. Ele parou de pular, quase escorregando com os ténis Allstars enormes e dando um grande tralho, e vira-se pra mim sorridente:
-- Hei man, então tá tudo porreiro? – perguntou-me ele enquanto estalava os dedos.
Eu encolhi os ombros.
-- Different day, same shit… sempre atolado em aulas e trabalhos até ao pescoço… mas de resto tou óptimo! E tu? O que é que tens feito?
-- Epá, muita coisa muita coisa. Agora tou só a relaxar aqui com a malta, e a praticar um bocado de desporto urbano!
Hmm, o Rapaz-Inquieto era um daqueles tipos eternamente jovens que apesar de já ser mais velho que eu, nunca ia ter idade para ter juízo. Um bocadinho como tu mas não chegas aos calcanhares da desorientação dele. Isso seria comparar em proporções um cheeseburguer singelo a um Double Big Mac Deluxe. Sim, o rapaz andava sempre meio à deriva como um surfista solitário à procura da Grande Onda sua vida. Não que haja mal nisso. Há tantos caminhos à nossa frente, desde auto-estradas a atalhos por mato cerrado que tu tomas improvisadamente porque te apetece, e vão todos dar ao fim do Universo. E no fundo, no fundo, o destino terminal é inconsequente, a única coisa que interessa é dares boleia às jovens turistas francesas e que ao menos te divirtas um bocado no raio da viagem, não achas?
-- Fazes bem. Mas e de resto? Já resolveste a tua situação?
-- Epá sabes como é que é isso tá complicado. Isto de não tar a estudar e andar meio no desemprego é um atraso de vida. Grande marasmo.
-- Não desanimes, Roma não se construiu numa noite... Mas mexe-te, porque também não se constrói por si própria! Ya?
-- Claro, claro. Mas olha deixa-me contar-te do meu novo projecto de música… é uma coisa mesmo potente. Fiz um vídeo fantástico, uma festa de efeitos especiais e o som é tipo uma mistura entre Thievery Corporation, Portishead, Anathema e samples do filme Deepthroat! Aquilo é de explodir com a cabeça, e abrir fracturas na terra de tão suavemente brutal que ficou, então ainda meti uns riffs de guitarra eléctrica para dar mais estilo, eh lá e digo-te modéstia à parte, porque sou um gajo humilde, é mesmo uma trip do caralhão, até derrete o ecrã e as colunas do quarto, pá só me apetece saltar da janela e voar, bom não a sério, isso doía um bocado, mas tens de ouvir por ti próprio, o quão totalmente atmosférico e totalmente awesome é aquilo, como um bebé a ouvir o bater do coração da mãe do interior da barriga, sabes, música é mesmo a linguagem da alma, é aquela ponte que consegue aproximar duas pessoas estranhas que se odeiam, a escadaria para o paraíso, a solução para todos os males da cabeça, né??
-- Huh, sim sim. -- ele falava sempre dum modo tão acelerado e gesticulava tanto os braços que eu não sabia dizer se ele tinha andado a fumar qualquer coisa catita, ou se era simplesmente um tipo entusiasmado e doido pela vida. Mas enfim, ele era bom rapaz.
-- Depois eu mando-te isso, tasse?
-- Ya ok. – eu olhei para o relógio – epá desculpa lá tenho de bazar. Foi um prazer. Xau e fica bem!
-- Até à próxima meu.
Corri e saí do pátio para ir ter ao metro. Ouvi o móvel e li a seguinte mensagem do Rapaz-Chato-Que-Se-Farta:
“Onde é que tás? Pára de anhar e vem mas é trabalhar!”
Isto ia ser um longo dia…
(…..)
O tempo passa mais um bocado.
Quando voltei para casa ao final da tarde sentei-me na estação do Intendente à espera do metro. Era daquelas estações que ainda não tinha sido remodelada, as paredes do túnel estavam todas cobertas por uns mosaicos de aspecto azulado sujo incrivelmente decadente, havia um cheiro intenso a mijo e imenso lixo no pavimento, enquanto o rugir neurótico das ventoinhas nunca parava de gemer. Tava um velho mal-vestido despenteado de barba cinzenta sentado do outro lado do cais, sozinho no seu banco a remexer nuns sacos de plástico. Fiquei a observá-lo quando de repente ele começa a gritar para ninguém:
-- Hei, hei, eu quero ir matar uns passarinhos dum raio! Esses cabrões. Já vos ensino! – levanta-se e dá um soco imaginário no ar. Pouco depois começa a trautear uma música e a bater palmas, enquanto os outros transeuntes o ignoravam completamente.
-- Sha-la-la… E viva o Sporting.
-- Viva. – apoiei eu do outro lado.
Ele não me respondeu e desapareceu para sempre quando o metro chegou.
Foi então que percebi…
…que provavelmente o elemento que nos liga mais perto dos outros era a loucura. Hmm, às vezes só assim é que respeitamos a sério uma pessoa com uns fusíveis a menos, porque simplesmente sabes que anda tão lixada pela vida como tu.
E no fim, os únicos que se safam sempre da raiva do Universo são mesmo os cucos, a sorte favorece um bocado demais os audazes.

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