Lavei-me, tomei pequeno-almoço, e deitei-me outra vez no sofá da sala pra estagnar um bocado à frente da televisão. Parece que foi há uma eternidade atrás aqueles dias escaldantes de Verão em que podia apreciar estes momentos de dolce far niente… Hmm, já tinha tantas saudades disso.
Estava a dar um programa de natureza num dos canais, e eu pus-me a ver porque não me apetecia aturar o santo padre a dar sermões na missa. Enquanto passavam no documentário imagens de passarinhos a esvoaçarem de árvore em árvore, ouvia o narrador a relatar os eventos com aquela voz profunda e calma que me deixava extremamente relaxado:
“O cuco europeu é um pássaro que prolifera dum modo parasítico, pondo ovos nos ninhos de outras aves, como o rouxinol dos caniços. Se o período de incubação da espécie hospedeira estiver muito adiantado ao do cuco, a fêmea consome os ovos todos do rouxinol, que não tem assim outra alternativa senão voltar a reproduzir-se. A fêmea então infiltra o seu ovo quando o casal afasta-se do ninho, fazendo o casal hospedeiro cuidar inadvertidamente do intruso como se fosse a própria cria.”
Meu que bicho tão esperto. Tinha-me esquecido como o cuco é capaz de fazer uma trafulhice tão naturalmente que nem a maior parte das pessoas tem o génio ou coragem pra cometer. Já imaginaste se uma mãe mais prática fizesse isso na maternidade, e substituísse o filho doutros casais para poupar energia? Poupava uma fortuna em fraldas, e idas desconfortáveis a terapias de grupo no futuro. Ter uma consciência é uma chatice.
“Como o período de incubação do cuco é menor, a cria do cuco nasce mais depressa e é a primeira a ser alimentada. Com essa vantagem, o seu primeiro instinto é eliminar metodicamente a competição, empurrando os outros ovos do ninho abaixo ou então matando à bicada as crias mais pequenas. Desta maneira o cuco monopoliza a atenção do casal de progenitores adoptivos, crescendo três vezes o tamanho do rouxinol até deixar o ninho ao final de 20 dias.”

20 dias… o equivalente humano, seria pra aí 20 anos. Ou seja todo o período de juventude com os seus dramas e loucuras inerentes. E se pusermos a situação em perspectiva, é basicamente o que todos os bons filhos fazem aos progenitores… o que a Geração X fez aos Baby Boomers, e o que a Geração Virtual MTV pseudo Hip-Hop faz à Geração X. Ou seja, torturar os pais, espremê-los durante anos e culpá-los pelos seus problemas pessoais quando forem velhos, até um belo dia fazerem-se à estrada sem sequer deixar um cartão de despedida. Eu sei, eu sei, ainda bem que nunca foste assim, mas espera um bocado pra quando tiveres um filho revoltado e vais desejar ter tomado a pílula do dia seguinte depois daquela one-night stand multi-orgásmica...
Eu ao menos expulsei os paizinhos de casa mas ainda lhes telefono uma vez por semana! Sou um filho exemplar cheio de amor pra dar! Heh.
Farto de ver passarinhos, mudei de canal para uns desenhos animados. Hmm, era um daqueles bonecos esquisitos com um tal Noddy, Ruca ou filho da truta, raios que o parta! Só pode ser obra do diabo.

Uau… nunca vi nada tão insuportável na vida. O que as pobres criancinhas têm de aturar nestes tempos com estes bonecos amigáveis, pedagógicos e politicamente correctos… Porra, o que a juventude precisa é de porrada e violência cheia de estilo com tartarugas ninjas e hinos dragonballescos que apelem à auto-disciplina e à destruição completa de planetas inteiros!!! Mas tiram aos putos esses direitos fundamentais e depois admiram-se que se tornem nuns adultos todos neuróticos e traumatizados.
Continuei a queixar-me como um velho reformado rabugento, a dizer mal do status quo e da mortandade entre rock stars dos anos 80, enquanto olhava saudosamente para os bons velhos tempos em que a vida era como orvalho matinal num relvado de folhas tenras, verdes e mutantes dum parque infantil em Chernobyl.
Até que de repente ouço o toque irritante do telélé a chamar…
Opá, hoje não. Deixem-me em paz! Domingo é dia de descanso…
Ignoro o bicho incómodo, mas ele não pára de tocar… tocar… e tocar…
Não vou ceder, quero estar sozinho e não me apetece aturar ninguém nem por toda a heroína deste mundo e do próximo. Limito-me a meter o volume do televisor mais alto, e a cantar “If You’re Happy And You Know It Clap Your Hands”.
Sim ele vai parar de me telefonar daqui a um minuto. É verdade que nenhum homem é uma ilha mas neste momento tar numa de Robinson Crusoe não me soava má ideia.
Como é que hei de te explicar o que sinto? Naquele preciso instante não desejava nada, não sonhava com nada, não me apetecia falar com ninguém, apenas gostava de esquecer quem eu sou, e do resto do mundo por um dia. Seria pedir muito? Ahhhh….
Atendi o telemóvel resmungando:
-- Tou sim?
-- Hei, sou eu! O Rapaz-Chato-Que-Se-Farta.
Oh não… era só este que me faltava. O tipo podia ser um colega e amigalhaço meu da faculdade mas hoje sentia tanta vontade em aturá-lo como ao Sócrates num dia de parlamento.
-- O que é tu que queres pá?? – perguntei eu sem paciência nenhuma.
-- Huh? Tás com amnésia? Já te esqueceste o que íamos fazer hoje? Temos de acabar o trabalho de grupo esta semana.
Fantástico, diz a sabedoria popular que se tu encontrares algo que gostes realmente de fazer, nunca mais vais ter de trabalhar mais na vida. Mas isso pra mim não inclui domingos, nem feriados…
-- Epá, não me tá apetecer muito, tou com uma preguiça e...
-- Ah deixa-te de tretas. Vamos acabar de gravar isto. Bora, vem ter a minha casa daqui bocado. Xau.
-- Não espera…
E desliga-me o telefone. Eu digo umas palavras menos próprias, suspirando. Enfim, não é grave. Vesti-me e saí de casa esperando ao menos encontrar algo giro para te escrever, porque se continuar com estes devaneios pessoais típicos dum velhote malcriado ainda me metes num lar de idosos decadente.
Estava a dar um programa de natureza num dos canais, e eu pus-me a ver porque não me apetecia aturar o santo padre a dar sermões na missa. Enquanto passavam no documentário imagens de passarinhos a esvoaçarem de árvore em árvore, ouvia o narrador a relatar os eventos com aquela voz profunda e calma que me deixava extremamente relaxado:
“O cuco europeu é um pássaro que prolifera dum modo parasítico, pondo ovos nos ninhos de outras aves, como o rouxinol dos caniços. Se o período de incubação da espécie hospedeira estiver muito adiantado ao do cuco, a fêmea consome os ovos todos do rouxinol, que não tem assim outra alternativa senão voltar a reproduzir-se. A fêmea então infiltra o seu ovo quando o casal afasta-se do ninho, fazendo o casal hospedeiro cuidar inadvertidamente do intruso como se fosse a própria cria.”
Meu que bicho tão esperto. Tinha-me esquecido como o cuco é capaz de fazer uma trafulhice tão naturalmente que nem a maior parte das pessoas tem o génio ou coragem pra cometer. Já imaginaste se uma mãe mais prática fizesse isso na maternidade, e substituísse o filho doutros casais para poupar energia? Poupava uma fortuna em fraldas, e idas desconfortáveis a terapias de grupo no futuro. Ter uma consciência é uma chatice.
“Como o período de incubação do cuco é menor, a cria do cuco nasce mais depressa e é a primeira a ser alimentada. Com essa vantagem, o seu primeiro instinto é eliminar metodicamente a competição, empurrando os outros ovos do ninho abaixo ou então matando à bicada as crias mais pequenas. Desta maneira o cuco monopoliza a atenção do casal de progenitores adoptivos, crescendo três vezes o tamanho do rouxinol até deixar o ninho ao final de 20 dias.”

20 dias… o equivalente humano, seria pra aí 20 anos. Ou seja todo o período de juventude com os seus dramas e loucuras inerentes. E se pusermos a situação em perspectiva, é basicamente o que todos os bons filhos fazem aos progenitores… o que a Geração X fez aos Baby Boomers, e o que a Geração Virtual MTV pseudo Hip-Hop faz à Geração X. Ou seja, torturar os pais, espremê-los durante anos e culpá-los pelos seus problemas pessoais quando forem velhos, até um belo dia fazerem-se à estrada sem sequer deixar um cartão de despedida. Eu sei, eu sei, ainda bem que nunca foste assim, mas espera um bocado pra quando tiveres um filho revoltado e vais desejar ter tomado a pílula do dia seguinte depois daquela one-night stand multi-orgásmica...
Eu ao menos expulsei os paizinhos de casa mas ainda lhes telefono uma vez por semana! Sou um filho exemplar cheio de amor pra dar! Heh.
Farto de ver passarinhos, mudei de canal para uns desenhos animados. Hmm, era um daqueles bonecos esquisitos com um tal Noddy, Ruca ou filho da truta, raios que o parta! Só pode ser obra do diabo.

Uau… nunca vi nada tão insuportável na vida. O que as pobres criancinhas têm de aturar nestes tempos com estes bonecos amigáveis, pedagógicos e politicamente correctos… Porra, o que a juventude precisa é de porrada e violência cheia de estilo com tartarugas ninjas e hinos dragonballescos que apelem à auto-disciplina e à destruição completa de planetas inteiros!!! Mas tiram aos putos esses direitos fundamentais e depois admiram-se que se tornem nuns adultos todos neuróticos e traumatizados.
Continuei a queixar-me como um velho reformado rabugento, a dizer mal do status quo e da mortandade entre rock stars dos anos 80, enquanto olhava saudosamente para os bons velhos tempos em que a vida era como orvalho matinal num relvado de folhas tenras, verdes e mutantes dum parque infantil em Chernobyl.
Até que de repente ouço o toque irritante do telélé a chamar…
Opá, hoje não. Deixem-me em paz! Domingo é dia de descanso…
Ignoro o bicho incómodo, mas ele não pára de tocar… tocar… e tocar…
Não vou ceder, quero estar sozinho e não me apetece aturar ninguém nem por toda a heroína deste mundo e do próximo. Limito-me a meter o volume do televisor mais alto, e a cantar “If You’re Happy And You Know It Clap Your Hands”.
Sim ele vai parar de me telefonar daqui a um minuto. É verdade que nenhum homem é uma ilha mas neste momento tar numa de Robinson Crusoe não me soava má ideia.
Como é que hei de te explicar o que sinto? Naquele preciso instante não desejava nada, não sonhava com nada, não me apetecia falar com ninguém, apenas gostava de esquecer quem eu sou, e do resto do mundo por um dia. Seria pedir muito? Ahhhh….
Atendi o telemóvel resmungando:
-- Tou sim?
-- Hei, sou eu! O Rapaz-Chato-Que-Se-Farta.
Oh não… era só este que me faltava. O tipo podia ser um colega e amigalhaço meu da faculdade mas hoje sentia tanta vontade em aturá-lo como ao Sócrates num dia de parlamento.
-- O que é tu que queres pá?? – perguntei eu sem paciência nenhuma.
-- Huh? Tás com amnésia? Já te esqueceste o que íamos fazer hoje? Temos de acabar o trabalho de grupo esta semana.
Fantástico, diz a sabedoria popular que se tu encontrares algo que gostes realmente de fazer, nunca mais vais ter de trabalhar mais na vida. Mas isso pra mim não inclui domingos, nem feriados…
-- Epá, não me tá apetecer muito, tou com uma preguiça e...
-- Ah deixa-te de tretas. Vamos acabar de gravar isto. Bora, vem ter a minha casa daqui bocado. Xau.
-- Não espera…
E desliga-me o telefone. Eu digo umas palavras menos próprias, suspirando. Enfim, não é grave. Vesti-me e saí de casa esperando ao menos encontrar algo giro para te escrever, porque se continuar com estes devaneios pessoais típicos dum velhote malcriado ainda me metes num lar de idosos decadente.

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