Domingo, Novembro 04, 2007

Entre Marte e Vénus Há uma Lixeira de Corações Partidos

Fui parar à sala abarrotada de gente e copos de cerveja, estavam lá os meus velhos colegas refastelados nos sofás de pele, enquanto passava uma música dolorosa qualquer duma destas bandas modernas de pop-rock. Sabes aquelas grupos em que os vocalistas usam óculos, penteados curtos, e fato e gravata? Cantam letras terrivelmente sensíveis, e não têm sequer groupies nem usam drogas??? Não faz sentido nenhum!!





O que é que aconteceu às grandes bandas, aos Gun&Roses, aos Duran Duran, huh?? Sim, eu sei, infelizmente se só passassem numa festa música anos 80 estilo Flock of Seagulls o pessoal debandava dali pra fora mais depressa que o diabo esfrega um olho… são todos um filisteus do novo milénio, é o que eu digo!

Eu sentei-me ao pé dos meus amigos, vendo o Rapaz-Galã a passear por entre as pessoas no hall, a meter conversa e a trocar piadas com toda gente, até que veio ter connosco.

-- O que é que se passa malta? Tão aí a morrer afundados no sofá, feitos estúpidos…

-- Olha é assim, o que eu queria mesmo saber era onde raios é que tá a stripper brasileira? – reclama o Rapaz-Rebelde.

-- Deves tar a alucinar. Tá aqui até a mãezinha deste gajo e tudo… Acontecem orgias mais depravadas em conventos do que nesta casa. – queixa-se o Rapaz-Culto.

-- Pois é verdade, não consegui expulsar a família daqui… Mas não é razão pra não se divertirem pá!! Vão mas é falar com as chavalas, mexam-se! – retorque o Rapaz-Galã sem perceber o nosso dilema.

-- Isso queríamos nós, mas as miúdas que tão aqui vieram todas com os desnaturados dos namorados. Até vejo as chaves dos cintos de castidade penduradas à volta dos pescoços destes malandros possessivos. – choraminga o Rapaz-Culto perante a injustiça do Universo.

-- Mas tu não trouxeste a tua. – observa o Rapaz-Rebelde.

O Rapaz-Culto olha pra nós acusadoramente.

-- Claro, com uns rebarbados como vocês a fazerem-se a ela toda noite, ia ser mesmo uma rebaldaria do camandro. – declara singelamente, encolhendo os ombros.

Nós rimos todos.

-- Ah ah, nunca ouviste dizer que sabe tudo melhor quando se divide com os amigos?

-- Isso aplica-se bem a erva, mas a vulva é já um bocado javardo demais.

-- Enfim, ao menos temos paparoca e bebidas grátis. – comentei eu. – Só por isso vale a pena aturar-vos.

-- Pois porque senão também já tinha bazado. Até um exame à próstata seria mais engraçado que isto.

-- Cambada de pobres e mal-agradecidos! Pra próxima organizem vocês uma festa! Cromos do caraças… – censura o Rapaz-Galã e salta dali pra chatear outro grupo de convidados.

E continuamos a nossa conversa de treta, típica de rapazes. Ao final de meia hora, eu também já estava com dores de cabeça, quando começaram a discutir política, filosofia de Platão e os cursos de Direito e Literatura onde estudavam. Meu, a malta pode não ter mudado muito de comportamento, mas as conversas de festa evoluíram um bocado demais pra mim. Por isso olhei em meu redor e decidi infiltrar-me discretamente entre umas três meninas que estavam ali também na galhofa, de certeza a falar sobre temas mais razoáveis.

Só conhecia vagamente uma delas do secundário, e pus-me a ouvir a conversa um bocado.

-- A sério? Não acredito? Onde é que ouviste isso?

-- Estou te a dizer! É pura verdade.

-- Isso não são só rumores?

-- Népia, eu já vi as fotos com os meu próprios olhos!

-- Quem é que espalhou isso? O ex dela?

-- Acho que não. Só pode ter sido ela própria. A gaja não fala com ninguém. Deve tar carente por atenção.

-- Ya, a chavala é comida dos cornos. Tá sempre noutra onda. Não faço ideia do que é que ela faz fora da faculdade na vida dela.

-- Mas não és amiga da gaja?

-- Pá ya, saímos à noite e tal, mas ela não se entrega muito em amizades. É uma puta, deve julgar-se muito boa pra nós todas.

Shhh, que triste, se nós soubéssemos metade das coisas que os nossos amigos dizem de nós atrás das costas, andava tudo ao pontapé como na casa do Big Brother. E nós os dois não somos excepções à regra.

-- E onde é que viste essa cena? No Hi5 dela?

-- Não tá num site qualquer de sexo. É uma grande javardice aquilo. Tava toda aberta, e arrebentada. Nem consigo descrever. Foda-se.

-- É pena que não haja fotos dela com um professor ou com alguém famoso…

-- Mesmo. Já imaginaram uma cena escaldante com o gordo de Sociologia? Ah ah.

-- Porra não digas nada!

-- Acho isto tudo inacreditável, a Rapariga-Séria?? Quem diria… Ela é tão sossegada nas aulas. Pensava que ela não tinha vida além dos estudos.

O nome dela lembrou-me então de alguém… Não podia ser… Se fosse a mesma miúda que conhecia do liceu.

A Rapariga-Séria.

Ela era… euhh… não sei o que hei de contar ao certo.

Não falava muito com ela, porque me parecia completamente vulgar e um bocado enjoada. Quer dizer, se te tivesse conhecido nessa altura também achava o mesmo de ti, eu era um parvalhão, muito corrosivo e passado da cabeça nos meus tempos longínquos de teenager.

Hmm, hmm…. hmm… esquece, acho que agora estou ainda pior.

Seja como for, a única impressão que tenho da miúda, é que era bastante inteligente, tirava boas notas, e era muito crítica a comportamentos inapropriados. Ou seja não me suportava sempre que fazia alguma palhaçada, atirando-me comentários típicos como: “Vê lá se cresces!” “Pá, corta os pulsos, ó atrofiado!”

Por isso fiquei meio deprimido em saber que a menina certinha se tornou numa porca de primeira categoria. E subitamente senti uma pena profunda dela, não sei porquê… Fiquei com uma vontade de fazer algo de especial por ela, qualquer coisa.

Mas principalmente estava enraivecido com as coscuvilhices destas fulanas. Apetecia-me mesmo encher as gajas de porrada. Decidi bazar dali antes que perdesse controlo e a festa descambasse como numa concentração de motards bêbados.

Realmente os homens vêm de Marte, e as mulheres de Vénus. E eu vivo nesta lixeira aqui no meio, a caminhar todos os dias por este deserto de corações estilhaçados e almas enlouquecidas. Onde despejam recém-nascidos em sacos nos rios, malta cansada se atira das pontes todos os fins-de-semana, e líderes deprimidos invadem outros países menores, pelos quais um deus cego surdo-mudo chora só lágrimas de crocodilo.

Enfim ao menos faz tudo do Plano Dele!

Por isso tasse bem. A única coisa que me chateia verdadeiramente é quando o gelo derreter-se completamente, os pinguins e os ursos vão nadar e nadar até afogarem-se… Nãaaaaaoooooooo!! Tadinhos!! http://planetsmilies.net/sad-smiley-384.gif





Ele parece tão triste!! Tá a chorar! Por isso portem-se bem, e reciclem o lixo!

Acho que a festa estava a deixar-me mal-humorado, e apetecia-me tanto falar com alguém sem juízo, para ter só uma conversa parva e interessante em que me risse um bocado. Se calhar devia ir visitar uma certa miúda com uns fusíveis a menos que eu ignoro todos os dias… hmm se calhar…

Ainda nem era meia-noite mas decidi voltar para casa de qualquer das maneiras. Por isso despedi-me da malta com grandes apertos de mãos e promessas vãs de nos encontrarmos qualquer dia.

Antes disso meti nos bolsos alguma comida enrolada em guardanapos e pus-me a fresco da casa do Rapaz-Galã. Desci do elevador e quando estava a sair dei de caras com alguém…

Ah… Era a Rapariga Séria.

Pá a imagem que tinha dela de uma miúda irritante com óculos mal-vestida tava muito desactualizada. E odeio admitir isto, porque é um cliché do catano, mas a rapariga era mesmo gira agora, daquelas com quem um rapaz acorda de manhã e continua a achar linda, embriagado por uma sensação de alegria pura que julgava impossível, e… ya, também com os tomates todos doridos.

-- Então tás bom, L.? – perguntou ela com um sorriso caloroso.

-- Ya sempre, e tu?

-- Vai-se andando. – retorque ela abanando o corpo.

-- Ok, eu vou-me agora embora, já chateei a malta que chegue, por isso fica bem. – queria lhe dizer muitas coisas, mas naquele momento não me surgia nenhuma palavra de jeito. Mesmo nenhuma raios. É uma maldição que me persegue.

-- Xau.

Só que antes de ela bazar dou-lhe de repente um abraço desconfortável genuíno do género que o Pato Donald dá aos putos na Disneylândia, e ela fica meio surpreendida, mas não me diz nada. Esta era provavelmente a última vez que a via, e assim separo-me dela a rir-me pra dentro, e saio dali pela porta fora, atravesso o jardim, e corri corri corri através das ruas vazias e semáforos abertos como o Forrest Gump todo speedado, desaparecendo da tua imaginação até à próxima história.

Nestas madrugadas frias de Outono dizem que Vénus brilha mais que todos os outros astros no céu profundo. E ainda bem que é assim.



1 commentários:

Ann_A disse...

Pah tenho a dizer-te k tens uma impressão muito má da minha pessoa.Tenho-te a dizer k nos tempos do liceu eu era bem longe de ser atrofiada. Tirava notas medíocres. Baldav a certas aulas pa andar de mota com as amigas com quem continuo a dar-me desde e sempre todos os dias, e assim será até ao resto dos nossos dias. O meu acto maior de rebeldia foi ter atirado com um estojo à cabeça de uma professora. E ter acusado outra de ter perdido metade do meu teste para o qual eu sabia que iria chumbar e tê-lo guardado na minha mala. Tiveram que me repetir o teste com as mesmas perguntas e então tirei um notão. Já nessa altura era meio demoníaca, mas estava longe de chatear fosse quem fosse. Pelo menos nisso tem de haver um mínimo de respeito mútuo. E sim, também era considerada a rainha das cábulas, contam-se pelos dedos os testes em que não arranjava maneira de copiar, e isso estendeu-se inclusive à faculdade. Era o que querias saber? Pois aí está. Provavelmente se me irritasses demasiado eu vinha com a minha gang de amigos amarrar-te a uma árvore de deixar-te ali por umas boas horas até que aprendesses a não meter-te connosco.