Domingo, Outubro 07, 2007

A Voz Dum Amigo Bêbado Soa Sempre Melhor Quando é Lida

“Um livro excepcional é como uma chama antiga, irrita-nos e pica-nos, mas sempre que o abrimos outra vez, relembra-nos a razão pelo o qual nos apaixonámos.”

O Rapaz-Galã, podre de bêbado



Já se tinha passado uma semana sozinho em casa, e o número de electrodomésticos não funcionais amontoava-se à minha volta como sucata sorridente, ficando ali a gozar com toda a minha ignorância.

Bem tou farto disto. Só existe uma forma pragmática de solucionar este busílis. Vou fazer como o meu velho fazia. Ele que tem sempre a mania de contar histórias de quando tinha a minha idade:

-- Ah, no meu tempo, eu nunca comprei um televisor! Também as pessoas mal tinham dinheiro pra sequer comer. Por isso resolvi ali montar a minha própria! Sim senhor, era a inveja do bairro, eh, nos anos 60 quase ninguém tinha TV! Assim vinham os vizinhos todos ver os jogos e as notícias pra minha casa!

-- A sério? Como é que aprendeste a fazer isso?

-- Fui arranjar um equipamento terrivelmente avançado chamado… livro. Mal não te fazia abrires um de vez em quando.

-- Euh ok… às vezes folheio o jornal do Metro… -- é verdade que eu não leio muito, sou como tu e o resto da juventude da era da informação. Em compensação escrevo o meu peso em tralhas parvas pra entreter um bocadinho certas miúdas fritas que só vão deixar de ser assim quando tiverem putos insuportáveis e muito mais com que se preocupar do que elas próprias.

(ahh, tou a referir-me a outra pessoa X, claro, exacto, o mundo não roda à tua volta.)

Enfim, foi então que decidi ir à procura duns livros para aprender a reparar coisas, numa tentativa efémera de impedir o nível crescente de entropia do meu universo.

Eu sei, eu sei que nesta cultura de países desenvolvidos onde vivemos só parvos é que fazem isso, e que toda a gente prefere comprar novo do que arranjar o velho. É tão prevalente essa atitude da vida moderna que se espalhou até às relações humanas e animais de estimação. Pobre Bobby na família há dez anos que foi mandado pró canil pra ser abatido a tiro! Pobre miúda trocada por uma modelo de estimação toda kitada na garagem da Corporacion Dermostética…

A única coisa que não acho que se possa reparar nem reciclar é papel higiénico de luxo. Nem pensar nisso. Não há nada no mundo que possa substituir papel ultra-suave fofo de dupla folha. Meu, nem sei como é que os nossos avós sobreviviam sem isso. O horror, o horror….

De resto, eu sempre gostei de nadar contra a corrente (independentemente do facto de não saber nadar), e tenho de resolver as coisas à minha maneira. Não interessa se as consequências são acabarmos por andar à porrada com a pessoa que amamos ou fazer explodir a máquina de waffles… Ao menos fomos nós a meter água e mais ninguém que se intrometeu em vez disso.

Yeah, I did it my way… Como aquela música que o Frank Sinatra tinha a mania de cantar no final dos seus espectáculos… e que os mafiosos adoram.





Okay, assim lá fui eu até à biblioteca para procurar um livro sobre electricidade, electrónica e coisas complicadas.

Xiça, aquilo tava enchido de estudantes até cair pela borda fora… eram só putos, pitas e caloiras mal-vestidas. Parecia o Paradise Garage numa noite sem bandas a tocar.

Que terrível, então o que é que esta malta tá a aqui toda a fazer? A estudar??? Fogo porque é que os jovens não se vão drogar e fazer manifestações? Cambada de conformistas. Já ninguém quer ser o Rei dos inúteis como eu? Não admira que só Rastafaris e miúdas meio pedradas vêm falar comigo na rua.

Ainda bem que estes preconceitos sectários imaginários deixaram de existir no meu universo, eh, se estivéssemos no liceu nem sequer me passaria pela cabeça escrever-te. Era mais incendiar os teus livros e esconder-te a mochila nos lavabos quando fosses para o intervalo… tinha uma raiva enorme a “over-achievers”…  





Ou se calhar não eras nada marrona nem irritante, 
e eras até mais fixe e sonhadora que agora...
só tu o sabes dizer no fundo.

Continuei a mover-me desconfortavelmente pela biblioteca, e por onde andava, aqueles betos levantavam as cabecinhas dos manuais e mandavam-me uns olhares de soslaio como se eu fosse um marginal que ia levantar ali um estardalhaço, e perturbar-lhes os estudos. Por acaso… até me apetecia fazer isso. Afugentar o pessoal e ficar com a sala só pra mim, espaço é um luxo imprescindível.

Passeei por entre as prateleiras até que encontrei um que me pareceu apropriado ao meu nível intelectual elevadíssimo.

“Electrónica para Totós!”

Folhei aquilo:

-- Capítulo 1: Conceitos básicos de Física

(Huh isto até é fácil.)

-- Capítulo 2: Unidades Eléctricas, Volts, Amperes e tudo o resto.

(Eu já sei isto tudo. Lembro-me das aulas do secundário.)

-- Capítulo 3: Transistores Bipolares, Lei de Ohm, Inductores, Reductores, Osciladores, Puta que os pariu!

(AAAHHHHHHHHHH!!!!!!!!)

Okay vou levar isto pra casa, talvez com calma eu perceba isto. Não é preciso um mestrado no Técnico pra arranjar uma torradeira… né?

Mas antes de me ir embora passei pela secção de romances, pra dar uma olhadela.

Tavam lá todos os suspeitos do costume, Dostoyevsky, Mark Twain, Victor Hugo e o Chuck Norris.

Ah os clássicos. Livros que toda a gente acha bem elogiar e que ficam esteticamente bem na estantes em casa, mas que só os lemos se fomos obrigados na escola.

Infelizmente, não havia nada em particular que me interessasse, e não tava para ler a última obra da Fátima Lopes, a senhora que me desculpe.





A verdade é que mulheres não sabem escrever coisas com piada. A não ser que seja uma meretriz sofisticada da alta classe nova-iorquina bissexual. Ah, ainda bem pra mim que não há nenhuma feminista maluca a ler isto, ou não se calava.

E estava para bazar quando de repente reparei num livrozinho de capa velha e comida a apodrecer num canto.

Era “Uma Agulha no Palheiro”. Ou Catcher in The Rye em inglês... Ah ah, raios, sempre que vejo o cabrão do livro sinto uma compulsão em surripiá-lo mesmo já tendo o lido uma dúzia de vezes. Não interessa o que os outros dizem, quando encontras um livro que pode até ser péssimo, mas em que te reconheces, guarda-o como um amigo. Hmm, e eu não gosto nada de vê-lo ali abandonado. Por isso encolhi os ombros e levei-o comigo também.





O único outro livro que me faz sentir tão contente e radiante é o Conde De Monte Cristo. Ahh, a melhor história de vingança de todos os tempos. Apesar da culpa de tanta porrada ser duma gaja burra, mas não é sempre assim?

Gostava de saber o que quais são os teus livrozecos preferidos, e pra me emprestares um dia destes. Claro que nunca me lembraria de os devolver, é sempre o mesmo problema de partilhar livros com amigos.

Pois…  verifiquei os calhamaços com o bibliotecário, e saí dali em passadas longas olhando para o mesmo céu azul profundo que toda a Humanidade teve o prazer e horror de admirar.

E estava a caminhar na rua entranhado nos meus pensamentos, quando subitamente ouço uma voz a chamar-me aos gritos pelo meu nome…

1 commentários:

Lapa disse...

قمة عالمية البرتغا الكاتب cristovao دي اغيار.

وهو ، أيضا ، وترجمت الى اللغة البرتغاليه ثروه الامم من آدم سميث.

وقد منح العديد من الجوائز.

لا تنسوا اسم هذا الكاتب العظيم ، يمكنك الاستماع اليه قريبا.

اشكركم على انفاق الوقت في الثقافة العالمية.

شكرا للزيارة

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