Sonhei outra vez com sofás. Era sobre um sofá vermelho que desabava em cima de mim e me esmagava como uma pizza mal-feita. E depois ia para o inferno onde era obrigado a carregar o dito cujo por uma montanha acima e sempre que chegava ao topo, caía pela encosta abaixo, repetindos outra vez aquele suplício.
Explicação Óbvia: Tenho um pavor a sofás desde que passei uma tarde de horror em mudanças com um amigo meu, o Rapaz-Porreiro. Isso e o simples facto da mobília que ele construiu se desconjuntou toda e me tentou matar. Já nem falo quando decidiu brincar com electricidade e lâmpadas… Pá, eu sei que parece machista, mas deve-se um bocado ao facto do tipo ter sido criado pela mãe solteira, visto o pai ter bazado com outra quando ele era puto… Assim sempre que o via a tentar arranjar alguma coisa, aquilo era um descalabro… ele não tinha a mínima ideia do que estava a fazer… mas era louvável da parte dele, tentar sempre desenrascar-se sozinho mesmo sem ninguém o ter ensinado. Afinal que remédio, ele não tinha outra escolha coitado.
Saí do meu inferno com sofás para voltar à realidade onde acordei outra vez pegajosamente na minha cama entre bocejos pesados. Era uma manhã cinzenta de Outono, e a primeira coisa que vi ao abrir os olhos foi a água da chuva a deslizar lágrimas suaves através dos vidros da janela. Reinava um silêncio profundo dentro de casa… era estranhamente desolador mas ao mesmo tempo tão deleitável.
(Hmm, desolador, deleitável? Nem consigo dizer exactamente pá. Também não interessa. Eu sou péssimo em descrições.)
Sentei-me à beira da cama e olhei pra rua espreguiçando-me todo. Não se via ninguém, nem um carro a passar no meu bairro dormitório à margem da cidade, visto ser fim-de-semana e toda a gente emigrava dali pra fora, e ia ter com as mãezinhas, as casinhas de férias e as amantes etc...
Tava sozinho em casa, o meu pai foi-se embora há dias, e a minha mana tava em casa de amigas… Ahh, se fosse puto ia ser um pandemónio como os filmes daquele rapazinho lourinho irritante que bate com as mãos na cara. Ia abusar do cartão de crédito, encher-me de doces e gelados até rebentar e escorraçar uns pobres meliantes.
Explicação Óbvia: Tenho um pavor a sofás desde que passei uma tarde de horror em mudanças com um amigo meu, o Rapaz-Porreiro. Isso e o simples facto da mobília que ele construiu se desconjuntou toda e me tentou matar. Já nem falo quando decidiu brincar com electricidade e lâmpadas… Pá, eu sei que parece machista, mas deve-se um bocado ao facto do tipo ter sido criado pela mãe solteira, visto o pai ter bazado com outra quando ele era puto… Assim sempre que o via a tentar arranjar alguma coisa, aquilo era um descalabro… ele não tinha a mínima ideia do que estava a fazer… mas era louvável da parte dele, tentar sempre desenrascar-se sozinho mesmo sem ninguém o ter ensinado. Afinal que remédio, ele não tinha outra escolha coitado.
Saí do meu inferno com sofás para voltar à realidade onde acordei outra vez pegajosamente na minha cama entre bocejos pesados. Era uma manhã cinzenta de Outono, e a primeira coisa que vi ao abrir os olhos foi a água da chuva a deslizar lágrimas suaves através dos vidros da janela. Reinava um silêncio profundo dentro de casa… era estranhamente desolador mas ao mesmo tempo tão deleitável.
(Hmm, desolador, deleitável? Nem consigo dizer exactamente pá. Também não interessa. Eu sou péssimo em descrições.)
Sentei-me à beira da cama e olhei pra rua espreguiçando-me todo. Não se via ninguém, nem um carro a passar no meu bairro dormitório à margem da cidade, visto ser fim-de-semana e toda a gente emigrava dali pra fora, e ia ter com as mãezinhas, as casinhas de férias e as amantes etc...
Tava sozinho em casa, o meu pai foi-se embora há dias, e a minha mana tava em casa de amigas… Ahh, se fosse puto ia ser um pandemónio como os filmes daquele rapazinho lourinho irritante que bate com as mãos na cara. Ia abusar do cartão de crédito, encher-me de doces e gelados até rebentar e escorraçar uns pobres meliantes.

Mas já há muito que deixei de ser criança, e agora se calhar só ficaria emocionado se fizesse uma festa com a malta toda e houvesse uma stripper brasileira dentro dum bolo de natas. Bem… ou talvez não. Acho que não seria a mesma coisa sem ti.
Liguei o rádio para dar alguma vida ao meu apartamento, estava a passar na Rádio Nostalgia, a música mais apropriada para um domingo de manhã… hmm… “Sunday Morning”, dos Bolshoi.
Ah New Wave dos anos 80 alegra-me sempre o espírito! Me gusta mucho!
Liguei o rádio para dar alguma vida ao meu apartamento, estava a passar na Rádio Nostalgia, a música mais apropriada para um domingo de manhã… hmm… “Sunday Morning”, dos Bolshoi.
Ah New Wave dos anos 80 alegra-me sempre o espírito! Me gusta mucho!
Pois é, tava ali sem ninguém porque o meu pai voltou para China para ir ver um médico. Problemas de coração cada vez mais graves. Sim, infelizmente é uma doença crónica muito complicada e sem cura. E aqui nem tratamento decente uma pessoa tem, visto que os hospitais públicos como toda gente sabe são dos piores da Europa, e nem sequer vou falar de incompetências e burocracias, porque isso é uma constante em todo o lado. As coisas que eu passei quando levei o meu pai ou a minha mana às urgências… Foda-se, o serviço daquilo é de arrepiar um morto. Nem me quero lembrar disso. Eu fiquei é impressionado com a capacidade do ser humano em adaptar-se ao ambiente, e ao ver aqueles enfermeiros e médicas tão frios e empedernidos habituados ao seu dia-a-dia desgastante em troca dum salário mal-pago.
Lembro-me ter visto uma vez nas notícias, quando a faculdade de Medicina do Porto abriu umas últimas vagas especiais, apareceram ali centenas de pessoas, jovens e velhos que tinham ido pra filosofias e psicologias por não terem notas suficientes na altura, e tavam ali cheios de esperança por uma oportunidade de seguirem aquilo que sonhavam… sabes passar décadas ao lado de pessoas doentes sempre a queixarem-se… e depois nas notícias seguintes passou uma reportagem sobre médicos que mudavam de vida, e iam pilotar aviões, viajar de veleiro pelo mundo e provavelmente um ou outro encontrou-se a si mesmo e fundou um clube privado de S/M.
E tou aqui a divagar pra nada, não existe um certo ou errado, apenas escolhas diferentes… e quando chegar o nosso momento de esticar o pernil, acharmos que isto valeu a pena, se foi giro ou não… porque se não foi, então também é só mais uma vida desperdiçada.
Só espero que corra tudo bem, não que eu confie muito mais em médicos chineses mas enfim. No mínimo percebem o que o meu pai lhes diz. Hey, não que eu esteja preocupado. Aliás depois da nossa última conversa imensamente filosófica e profunda entre pai e filho, acho que ele tinha mais razões de desassossego por mim e a minha irmã.
Lembro-me ter visto uma vez nas notícias, quando a faculdade de Medicina do Porto abriu umas últimas vagas especiais, apareceram ali centenas de pessoas, jovens e velhos que tinham ido pra filosofias e psicologias por não terem notas suficientes na altura, e tavam ali cheios de esperança por uma oportunidade de seguirem aquilo que sonhavam… sabes passar décadas ao lado de pessoas doentes sempre a queixarem-se… e depois nas notícias seguintes passou uma reportagem sobre médicos que mudavam de vida, e iam pilotar aviões, viajar de veleiro pelo mundo e provavelmente um ou outro encontrou-se a si mesmo e fundou um clube privado de S/M.
E tou aqui a divagar pra nada, não existe um certo ou errado, apenas escolhas diferentes… e quando chegar o nosso momento de esticar o pernil, acharmos que isto valeu a pena, se foi giro ou não… porque se não foi, então também é só mais uma vida desperdiçada.
Só espero que corra tudo bem, não que eu confie muito mais em médicos chineses mas enfim. No mínimo percebem o que o meu pai lhes diz. Hey, não que eu esteja preocupado. Aliás depois da nossa última conversa imensamente filosófica e profunda entre pai e filho, acho que ele tinha mais razões de desassossego por mim e a minha irmã.
E assim recordei-me do dia antes de bazar em que ele se sentou à mesa da cozinha para falar comigo:
-- Então, lembra-te de ir aos correios pagar as contas, não só da casa como da loja, ouviste? Senão ficas a tomar banhos de água fria, e a comer às escuras.
-- Sim eu sei. – sempre achei engraçado que montantes abstractos de valor pré-definido por toda gente dessem acesso a estas comodidades todas da civilização moderna. Tenta explicar isso a um puto a viver num país do Terceiro Mundo, que há miúdos normais que não precisam de caminhar dez quilómetros todos os dias para beber água lamacenta, tem aquecimento e luz à noite, e até frigoríficos falantes com Internet tudo por causa duns bocados coloridos de papel que as pessoas grandes ficam muito chateadas se tu as copiar.
Realmente não faz muito sentido, mas não me tira o sono à noite.
-- E toma conta da tua irmã. Vê lá se ela não faz asneiras.
-- Sim eu sei. – pois, a minha irmã pode tar naquela fase insuportável arrogante e revoltada dos 15 anos mas é bem mais ajuizada que eu. É mais provável uma freira engravidar dum padre e encontrarem um túnel cheio de abortos debaixo dum convento, do que a minha mana arranjar uma tatuagem tribal e meter-se nas drogas. A miúda passa os dias a estudar e sair com amigas. Mesmo assim considerando todos os comentários sarcásticos dela… fiquei um bocado atordoado quando uma noite ao ir à casa de banho, ter ouvido a miúda a chorar no quarto de porta fechada. Não sei porquê, não consegui entrar para consolá-la. Sou um péssimo irmão. É por isso que me decidi gozar menos com ela, a rapariga já tá chateada comigo e com a vida o suficiente.
Seja como for vou ter que tomar conta dela mais ou menos, cof cof…. E por isso não vou puder tão cedo visitar-te. Mas acho que por um dia também não faz mal. Depois logo se vê.
Dá-te só por feliz por eu não ser o teu irmão mais velho, acho que passavas a evitar reuniões familiares, com os traumas que te dava. Provavelmente julgarias que molhavas a cama quando eras pequenina, apesar de ter sido só aqui eu a despejar água enquanto dormias. (pronto também só fiz isso uma vez, não é preciso crucificarem-me)
-- E vê lá, depois de cozinhares certifica-te que desligaste o gás do fogão!
-- Sim eu sei. Não sou estúpido.
Aparece então a chata da minha irmã ali ao pé.
-- Ah isso quero eu ver! Se fosses tu a cozinhar incendiavas o prédio todo!
-- Tá calada. Eu sei sempre o que estou a fazer.
-- Pois pois, tu nem sabes programar a máquina de lavar roupa quanto mais fazer um prato comestível pra uma pessoa.
-- Hei! Isso não é verdade. Basta meter detergente na gaveta, um 4 naquela coisa das voltinhas em espiral e 30 graus no C e qualquer coisa do género…
-- És uma vergonha. Francamente.
-- Olha ao menos sei fazer um batido de atum de beber e chorar por mais!
-- Só dizes asneiras. Porque é que me calhou um irmão desnaturado assim?
-- E não te esqueças, se o carro não pegar, traz a bateria pra cima e carrega-a durante dois dias. Não leves ao mecânico! Vê lá se aprendes a arranjar as coisas sem ajuda dos outros!
-- Sim eu sei… Vai descansado, eu safo-me sempre na boa. -- e encolhi os ombros sem dar muita atenção aos conselhos do costume.
Fogo, até parece que nunca fiquei só com a minha irmã durante uns tempos, os pais têm sempre esta preocupação desfasada com os filhos, vendo-os sempre como miúdos, mesmo quando chegam aos 30 anos e já estão casados com crianças. Não vejo hora para a minha família sair de casa e eu ficar com o apartamento para mim.
Enfim, fui tomar pequeno-almoço no quarto, com o tabuleiro cheio de croissants, leite com cereais, e uns restos de carne picada à bolonhesa. Tava tudo controlado até que um peso de fitness decidiu meter-se no caminho, e mandar-me pra o raio que o parta, atirando a tigela de leite para cima do televisor e carne por todos os lados… fónix. Todo atrapalhado pisei aquela merda, e não via a ponta dum corno porque tava euh… escuro no quarto… Assim fui abrir as persianas, mas dei um encontrão ao candeeiro da mesa que previsivelmente caiu ao chão e desfez-se todo. Okay, parei por um momento. Pensei para mim, paciência, acidentes domésticos acontecem todos os dias. O importante é continuar a sorrir e não perder a calma!
Fast-forward, limpei aquela javardice toda sem grandes problemas e finalmente quando me sentei descansado para ligar o televisor a imagem ficou estranha e foi-se abaixo…
NAAAAOOOOOOOO!!!! QUERIA TANTO VER A FÁTIMA LOPES E O LUÍS GONCHA!!!!!
E fiquei durante meia hora a gritar palavrões que fariam corar uma prostituta velha das ruas de Banghok.

Prontos, vou tentar solucionar isto com as minhas próprias mãos, afinal uma década e meia de escolaridade devem servir pra alguma coisa, não??
Fui ao armário de ferramentas do meu pai que era capaz de roubar o emprego ao MacGuyver, e provavelmente construía uma máquina fotográfica com dois bocados de vidro. Devo ter herdado alguns genes por isso abri a carcaça da TV… e olhando para aqueles fios todos, aquele canhão de electrões mauzão e a placa de circuitos sorridente, fiquei cheio de dores de cabeça.
E naquele momento apercebi-me como é o Rapaz-Porreiro se sentia.
Como eu gostava naquela altura que a minha mana tivesse ali pra atirar as culpas, e pedir ao meu pai para reparar o televisor.
Realmente, não se pode viver com a família, mas também não se pode viver sem ela muito tempo…
Fui ao armário de ferramentas do meu pai que era capaz de roubar o emprego ao MacGuyver, e provavelmente construía uma máquina fotográfica com dois bocados de vidro. Devo ter herdado alguns genes por isso abri a carcaça da TV… e olhando para aqueles fios todos, aquele canhão de electrões mauzão e a placa de circuitos sorridente, fiquei cheio de dores de cabeça.
E naquele momento apercebi-me como é o Rapaz-Porreiro se sentia.
Como eu gostava naquela altura que a minha mana tivesse ali pra atirar as culpas, e pedir ao meu pai para reparar o televisor.
Realmente, não se pode viver com a família, mas também não se pode viver sem ela muito tempo…

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