Quinta-feira, Outubro 11, 2007

Café com o Passado

Eu ao ouvir o meu nome na rua, decidi continuar a andar, afinal não é assim tão invulgar quanto isso, podia ser só outra pessoa. Mas a voz vagamente familiar continuava a chamar-me… oh não… não me digam que é…

Virei-me pró lado na direcção da voz e vi alguém sentado na esplanada da rua dos cafés a abanar muito os braços. Esfreguei os olhos, e pus a mão na testa, só me faltava este.

Era o sacana do Rapaz-Galã.

O tipo tava a acenar-me para ir ter com ele, e eu estava naquela de bazar, mas acho que seria talvez um bocado estranho demais… Pá é assim, nunca te intrigou o pequeno facto da vida que encontras certos seres humanos alienígenas em qualquer sítio do planeta pra onde vás? E não importa quão simpáticos, civilizados ou bem intencionados sejam, ou te aches muito tolerante e social, a pura verdade é que simplesmente te dão umas dores de cabeça do camandro!

E porquê?

Hmm, nem tem a ver com a atitude ou o aspecto desse indivíduo, nem sequer se é uma pessoa mimada sortuda que nunca sofreu a sério na vida ou se é um órfão abusado pelo Bibi e foi espancado desde que nasceu.
É só porque sim. Geralmente a falta de química com alguém é por uma causa racional inconsciente qualquer, ou talvez seja apenas porque essa pessoa veste uma T-shirt foleira dos Linking Park que te ofende a sensibilidade.

Hmm… Agora quanto ao facto de aquele gajo ver a mulher que eu amava só como outra tranca pra rebentar até os tomates doerem, e no entanto ela dar-se melhor com ele do comigo, isso era me indiferente. Visto que eu a tratava ainda pior, ahah.

Merda.

Mas prontos o que já lá vai, já lá vai… e ele também não era assim mau tipo. Por isso fui ter uma daquelas conversas de treta, típicas de amigos de secundário que não se vêem há bué. Acho que a última vez que o vi foi no Natal de há dois anos, por volta da altura em que comecei a escrever-te…

Porra como o tempo voa. Estamos a ficar cada vez mais velhos, e não muito mais sábios. Quer dizer, tu tens é uma sorte de pareceres sempre uma pita, por isso não tens razão de queixa.

Quando me cheguei ao pé do Rapaz-Galã, reparei que ele tava sentado com duas gajas numa das mesas de café. Uma delas era gira a outra nem por isso. No liceu ele andaria de certeza com a primeira, mas agora o rapaz deve ter amadurecido e o mais provável era ele tar a brincar com as duas.

-- Heeeeeii!! -- gritou ele.

-- Huh… hei!

-- Heeeeeiiiii!! – exclamou ele outra vez. – Olá meu!

O gajo não tinha mudado nada. O mesmo aspecto desmazelado, como se tivesse dormido vestido no chão duma casa de banho pública. Suponho que isso fazia parte do charme dele. Sim, e ele lá conseguia atrair miúdas, sem sequer se esforçar muito. Com um ar sempre na boa e de parecer que não tem nada na cabeça, torna fácil gostar-se dele.

Mas quer dizer, será que acreditas nisso? Que neste mundo lixado existem de facto pessoas que passam a vida inteira sem grandes dramas nem problemas sérios?

-- …Então tás fixe? Tens passado bem? – perguntei eu.

-- Completamente! Heei há montes de tempo que não te via pá! O que é que tens feito?

Ele evitou a pergunta quase como um reflexo. Mas eu sabia que o tipo não era tão a Leste como queria que as pessoas julgassem…

Só passamos a conhecer mesmo alguém quando a vemos tanto no seu melhor como no seu pior, não achas?


Sim, recordei-me naquele momento duma noite no nosso último ano de liceu. Eu geralmente não gosto de contar histórias demasiado pessoais sobre os outros, mas como tu não o conheces, não faz mal. Pois, deixa-me ver, foi numa noite terrível em que ele se embebedou duma forma estúpida no Bairro… ainda não tinha caído em coma alcóolico mas o cabrão só dizia asneiras atrás de asneiras.

-- E sabes esta merda da jola só faz mal. Não me põe bêbado, sabe a mijo e ainda por cima dá-me só vontade de mijar por todos os lados! Por isso pró caralho esta merda! – távamos a caminhar na rua de copo plástico cheio de cerveja na mão, aos encontrões com as multidões de jovens embriagados que vinham contra nós.

-- Então bebe leite. – retorqui eu.

-- Mas prontos, é assim a vida… hmpfh. Às vezes penso e que tal? E se isto basicamente é o ponto alto de toda a minha existência? Que melhor que isto é impossível? Huh? O que é que achas??

-- Acho que há coisas melhores pra fazer do que tar ainda sóbrio a aturar bêbados.

-- Hah, eu li num livro há uns dias sobre o Tempo e o Espaço que me pôs a pensar. Dizia que por cada escolha que fazemos forma-se uma realidade paralela possível, no qual tomámos o outro caminho, tás a ver? Como se houvesse um outro eu que esta noite em vez de tar no Bairro Alto tivesse ido pró Canadá… huh? Tipo no Québec. A ver a Polícia Montada. E os alces. Porra, seria mesmo fixe ir caçar uns pra empalhar uns troféus na parede da sala.

-- Isso é tudo tanga. Deixa-te de tretas.

-- Tás-me a chamar mentiroso? A mim? Eu li o livro até ao fim! Sou um gajo culto. Era do professor Stephen King, ou Hawking, Hawkins… não interessa…

-- Pois não.

-- Sabes, mas eu também leio muitas mais coisas! Coisas altamente profundas. Como por exemplo Nietzche! Tás a ver? “Wer mit Ungeheuern kämpft, mag zusehn, dass er nicht dabei zum Ungeheuer wird. Und wenn du lange in einen Abgrund blickst, blickt der Abgrund auch in dich hinein.” Topas? Não te tornes num monstro ou acabas no abismo!

-- Pois eu acho que já tamos no raio do abismo, queres mais abismo que este sítio decadente? Tamos no Bairro Alto pá…

-- Mas isso não se compara aquele outro morcão do caralho que eu li…. O Mein Kampf, do Adolfo. Prontos, não diz coisa com coisa, à excepção que os judeus são o mal deste mundo. E olha que são, vês a confusão que há lá Palestina? Só me apetece lançar uma bomba atómica lá no meio e causar um Holocausto dos diabos!! Assim Booom! E só deixar as silhuetas das pessoas nas paredes. Isso é que era!

-- Acho que devias ler coisas mais felizes, que tal a série Uma Aventura…?

-- Essas gémeas que vão foder um cão! Não percebes nada! Um livro excepcional é como uma chama antiga, irrita-nos e pica-nos, mas sempre o abrimos outra vez, relembra-nos a razão pelo o qual nos apaixonámos.

-- Uau. Que bonito. Tou comovido.

-- Pois devias, o amor é muito lindo. Ah ah. Mas dói pra caralho… foda-se.

E ele finalmente fica caladinho durante um bocado, enquanto eu tava aliviado por não ter o gajo a chatear-me mais. Até que de repente ele começa a gemer que nem um desalmado:

-- Aahhhh puta!! Sua puta!!! PUUUTA!! – grita ele até ficar vermelho, esbracejando imenso.

-- Huh??

-- PUTA!!! Raaaaqueel…! És uma puuutaa!! Vai mas é apanhar no cú desse cabrão! Espero que morras de SIDA!!

Eu não conhecia Raquel nenhuma, mas presumo que a avozinha dele não era de certeza.

-- Epá acalma-te homem! – eu já ali a pensar que seria melhor afastar-me deste maluco, porque toda gente na rua tava a olhar pra nós.

-- Graaaaghh! Raquel! Vai-te foder!!! Filha da puta!!!– e começa aos pontapés a um contentor do lixo, e a bater num candeeiro de rua.

-- Pára lá com isso! – tentei segurá-lo mas levei com uma cotevelada nas fusas daquele desvairado...

-- ….Naaaaoo…. Quero a minha menina….

-- Então...

-- Hhhhh…. Raquel... A minha querida menina.– mas que patético, ele estava mesmo a choramingar.

Sinceramente eu tava a ficar farto deste sacana, mas ele era meu amigo, e apesar disto não ser um episódio dos Friends em que basta uma piada seca pra animar uma pessoa eu acabei por tentar ajudá-lo mais ou menos. Que remédio.

-- Prontos, já se percebeu. Queres é que eu te pague mais uma bebida? Não é? Bora lá. Arranjo-te um vodka que ficas fino. Deixas logo de sentir dos pés pra cima pá.

E foi mesmo uma noite pra esquecer. Ele não parava de armar cenas, porque tava todo queimado o desgraçado. Nem sequer o sempre-fixe Rapaz-Galã sai ileso. Fogo, o rapaz tava mais eternamente atormentado que o raio do Chris Isaak!!






Eu olhei pró gajo e respondi sinceramente:

-- A fritar na faculdade que remédio. Tenho o horário cheio de aulas e trabalhos mas de resto tou porreiro. Como é que te tens safado este ano?

-- Ah sem problemas. Este é já o meu último ano de psicologia, e depois liberdade!

-- A sério? Já te vais licenciar? Incrível, que motivado andas. – o tipo era mais preguiçoso do que eu no secundário. Como é que será que se desenrascou?

-- Ya, também tenho recebido ajuda das minhas colegas, aqui a Qualquer Coisas, e a Outra Gaja temos feito trabalhos de grupos de primeira categoria.

Elas cumprimentaram-me mas eu nem decorei o nome das miúdas, sou péssimo nisso, só me lembro mais ou menos de caras. Mas é engraçado contigo é precisamente ao contrário. Consigo até descrever as fronhas dos meus amigos do infantário mas simplesmente não vejo a tua nem me recordo da tua voz por muito que esforce a memória. E tenho a impressão que mesmo que te aturasse todos os dias, ia ser a mesma coisa. Só me apareces nitidamente na cabeça durante os sonhos. Hmpfh. O que é se estará a passar comigo…?

Enfim… não me incomoda muito, ao menos sobra mais espaço na cachola pra jogos de Trivial Pursuit e a minha colecção de piadas secas machistas.

-- Trabalhos de grupo? Tenho um facto científico pra ti então. Sabes que os homens têm 2 biliões de células cerebrais a mais que as mulheres?

-- A sério? Epá sinto-me muito mais responsável agora.

-- Ya sem ti estas duas nem da cozinha saberiam sair.

-- Ah ah. Sem dúvida alguma!





Elas ficam a olhar pra mim meio-escandalizadas e a Qualquer Coisas responde logo:

-- Pois fica a saber que isso não vos vale de muito se todos os neurónios são dedicados a sexo e a futebol!

-- Bem tens toda a razão, é por isso que sobra pra vocês as limpezas…

A Rapariga nem se dignou a responder, já não podia ver comigo à frente por isso decidi que este era o momento mágico pra desaparecer.

-- Okay, eu vou andando. Então até qualquer dia pá.

-- Ya xau! – responde o Rapaz-Galã.

E afastei-me da esplanada quando ouço o tipo a chamar-me outra vez.

-- Heii, ouve lá. Eu vou fazer assim uma festa lá em casa este fim-de-semana, e vou convidar também a malta do costume da nossa antiga escolinha. Por isso se quiseres aparece lá à noite no sábado.

Eu franzi o nariz.

-- Epá, não tou com muita vontade para festejos… E tenho muitos trabalhos.

-- Deixa-te de desculpas e vem lá. Vai ser divertido!! Rever a malta, fazer labreguices e assediar miúdas, huh?

-- Ah okay, pronto. Eu talvez apareça…. Então até sábado.

-- Ya adeus pá.

Pois… já me tinha cortado no último sábado com outro pessoal, porque preferi passar uma noite a escrever-te. E até foi produtivo. Mas como tás tão introspectiva e caladinha, a pensar em sei lá o quê, acho que posso ir desta vez chatear velhos amigos pra variar. E encher os bolsos de aperitivos grátis é claro! Não dá pra ser um vadio escritor de estômago de vazio.

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