Quinta-feira, Setembro 13, 2007

Singing in the Rain, o Musical: com Sam the Kid e Señor Sócrates

Estava a correr sob a luz amarelada e cinzenta do crepúsculo, enquanto a água da chuva solene encharcava levemente o meu cabelo e a minha t-shirt, e eu apressei-me para chegar a casa.

Bem acho que se pode dizer justamente que este Verão foi de se deitar fora. E eu que tava com esperanças que fosse de escaldar a pele. Tss... Mesmo para esquecer…
Festas estagnantes povoadas de palhaços tristes, noites pesadas de trovoada e esta chuva oleosa que não lava o corpo de memórias miseráveis, escorrendo apenas para um mar túrgido de desencanto nos nossos corações…

Basicamente, foi uma merda, e a culpa é… é…. hmm… do Sócrates. Exacto. Como odeio esse gajo. Tanto o cabrão do grego feioso como o sacana engravatado que não se cala.

Sim, ele parece-me um bom bode expiatório para as crises diárias das pessoas, porque sempre que aparece na televisão é para a mentir descaradamente.

Pois, é fixe culpar os outros pelos nossos problemas, torna as coisas mais fáceis de suportar, e até é saudável uma vez ou outra… Desde que não seja nossa, pudemos dormir em paz.

Agora pensando em ti… pergunto-me qual será a tua atitude das duas uma que geralmente tomas ao longo da vida?

Será que é importante conhecer isso? Bah.

Mas hei, ao menos temos um certo conforto ao saber que nunca nos iremos culpar-nos um ao outro, seja lá do que for. Somos demasiados fixes para isso. Pelo menos eu sou. Quanto a ti não tenho muito a certeza, mas gosto de imaginar que sim.

Umas senhoras quarentonas todas fashion andavam em pânico na rua, sob o mau tempo inesperado, com revistas sobre a cabeça para não estragar a permanente tão efémera que provavelmente dava para alimentar uma criança no terceiro mundo durante um mês.

Quanto a mim estava agora completamente molhado e deixei simplesmente de correr. Levantei a cabeça prás nuvens, estendi os braços, e abraçei a chuva enquanto caía. Ah, sabia tão bem…
Largar esta amargura relutante e aceitar que estamos inevitavelmente encharcados até aos ossos. Não havia maneira de fugir ao destino, só nos magoamos quando tentamos fazer essa tolice. Ya, sentir-me vivo só para estar todo molhado! É muito porreiro. Um grito de liberdade que apenas o próprio Gene Kelly consegue exprimir dançando no “Singing in the Rain”!



Okay, deves estar a pensar mas qual foi o raio do cocktail que receitaram a este danado? E que granda moca deve ser… 

Mas também não ando assim tão genuinamente alegre… se não ia divertir-me mais. Quer dizer… Estava hoje a falar com amigos e como sempre convidaram-me para ir a festivais, aquela coisa dos pseudo-comunistas, e eu reflecti durante um bocado…

Vejamos ir aturar um concerto do célebre Sam the Kid e chatear gajas do Hip-hop, ou então vaguear por aí e matutar numa cena gira para tu leres….?

Hmm…. Que dilema existencialista.

Acho que só há uma maneira correcta e racional a tomar em todas as decisões na vida… Meti a mão o bolso e peguei numa moeda. Cara para ti, coroa para o Sam the Dick.

Atirei a moeda e vi-a cair outra vez em câmara lenta só que não consegui apanhá-la, desastrado como sou…. Ela foi para o chão e rolou pelo passeio abaixo…

Meu, é uma moeda dum euro!! Não posso perdê-la!

Fui atrás dela e agarrei-a depressa.

Olhei para a palma da minha mão, e reparei que saiu “cara”.

Touché, se é isso que a Santa Deusa da Fortuna quer, quem sou eu para contrariá-la?

Finalmente cheguei ao meu prédio, e é claro que a chuva parou inutilmente nesse preciso momento. Entrei em casa e fiz um chazinho verde das Montanhas do Templo do Dragão (é cada marca oriental mais épica). E enquanto bebia, lembrei-me do que havia de te escrever. Nope… não é sobre a vida, o universo e tudo o resto. Vamos só fazer mais outra das minhas viagenzinhas no tempo. Ah a magia da literatura e das analepses nada forçadas!


1 commentários:

Ann_A disse...

Meu caro demónio malcriado para mim (que agora já não moro tanto ao lado assim). Vai e diverte-te com os teus amigos, não precisas de sacrificar-te para me entreter. Agradeço-to contudo. Mas também não te preocupes tanto, eu estou bem. Na verdade vão até dar-me alta no próximo sábado. Já poderei ser uma louca mais compensada a poder deambular por aí sem andar a destruir e torturar a vida dos outros.
Ah e em resposta à tua questão e a atitude que geralmente tomo ao longo da vida não costumo culpar os outros, mas sim a mim própria. Dói mais, a auto-estima desvanece-se um bocado, deprime-se, e todas as outras tolices psicologicas que tu te recusas a considerar. Afinal, sou meramente uma tola frita da cabeça com uns fusíveis a menos que, agora, ainda por cima, resolveu a expor a sua insanidade ao mundo a ponto de ser internada num hospital! Mas sabes... nem me importo tanto assim. Aqui cuidaram maravilhosamente de mim, tratamento VIP, e até se acaba por conhecer umas pessoas bacanas. Não se perde tanto assim. Talvez estivesse mesmo a precisar de uma reestruturação na minha vida e confessar as minhas lamentações a alguém que estivesse realmente disposto a ouvir-me (mesmo que tivesse que pagar os olhos da cara por isso). Afinal os psicólogos até servem para alguma coisa, huh? E, se calhar, em breve voltarás a ver-me a andar por aí por perto a azucrinar-te a cabeça com as minhas histórias outras vez hehe (ou talvez não).