Segunda-feira, Setembro 10, 2007

Interlúdio da Batata

Estava sentado no telhado duma garagem a rabiscar no meu caderninho preto enquanto petiscava num pacote de batatas fritas. Vieram directamente de Shangai estas... só pelo nome insólito "Lonely God" é de imaginar que me fazem sentir estar a caminhar no paraíso feito anjinho com asas nas omoplatas, yeah, toma lá morangos Angel Dust!




Olhei para o céu cinzento de Telheiras durante imenso tempo, vendo depois à volta as traseiras do meu bairro sem vivalma.. e... não me vem à cabeça nada de jeito para te dizer.

Suponho que continuo a escrever-te simplesmente por... hábito. Epá... faço-o há tanto tempo que já não consigo desistir mesmo que quissesse. É quase uma ânsia profunda, um vício físico que nem com um carregamento de pensos de nicotina e metadona em cima podiam curar, nem a terapia de grupo mais zen com o Dalai Lama, a Fátima Lopes e o Dr. Phil conseguia lavar-me o cérebro...

Pá não sei se é por sentir alguma compaixão ou amizade para contigo, mas posso afirmar sem sombra de dúvida, que me dá prazer, mesmo que seja só para uma miúda com uns fusíveis a menos como tu. Também não teria paciência nenhuma para escrever a outra pessoa.

E é estranho por que eu tenho a certeza se andássemos na primária, eras uma daquelas desgraçadas a quem eu atiraria balões de água dia após dia e trancava na casa de banho dos rapazes sozinha. E fartava-me de rir com os amigos no corredor a ouvir-te chorar. (nunca percebi bem porque é que isso acontecia, é assim tão doloroso e embaraçoso?) Meu, realmente tens tanta sorte em não nos termos conhecido quando éramos putos, faria da tua vida um inferno. Simplesmente porque sim, porque me irritas. E achar que és mais fraca que eu. Pois é, aquelas mães galinhas que pensam que os filhos são uns anjos não sabem mesmo o quão cruéis as crianças conseguem ser quando são largadas na escola.

Mas no entanto agora, preocupo-me contigo duma certa forma pouco familiar... acho que foi por isso que quis conhecer-te... e... dei por mim ultimamente...

...a acordar de manhã a pensar em ti...

...a perguntar-me como é que te estarás a sentir...

...e se há alguma coisa a fazer para ver aquela parvalhona sorrir...?

Que treta, então é isto a que se chama... hum... maturidade ou estupidez súbita aguda?

Bem acho que não interessa, não é um assunto que valha a pena pensar muito. Vou mas é por enquanto continuar a escrever-te umas histórias para te manter entretida, até que me ocorra fazer algo por ti de genuíno. Ou então pregar-te uma partida valente e trancar-te sozinha numa casa de banho pública duma estação de camionetas durante três dias seguidos.

Meti a mão no pacote de batatatinhas e reparei que estava vazio. Levantei-me atordoado e fui comprar compulsivamente outro. Malditos químicos viciantes que metem lá dentro... nem o raio do tabaco tem tantos.

Vá então até amanhã, e vê lá se não cais em maus hábitos fritos como eu.

1 commentários:

Ann_A disse...

Seja lá como for, não agradeço a compaixão que tens por mim mas sim a tua preocupação para comigo. Não quero ser merecedora de pena, mesmo tendo uns fusiveis a menos como tu o dizes.
Quanto a trancares-me na casa-de-banho da primária sozinha, seria certamente algo que me traumatizaria... e depois um dia mais tarde, serias obrigado a lidar com uma pessoa com ainda menos fusíveis do que os que me sobram agora.
Quanto a haver alguma coisa que me possa fazer sorrir? Hum, sei lá... até agora ninguém descobriu como fazê-lo, nem eu própria. Talvez seja por isso que esteja agora internada num hospital há vários dias, sem perspectivas de virem a dar-me alta tão cedo.
"Ès um caso complicado" - diz-me o psiquiatra.
Mas continua a escrever...sempre é algo que me vai distraindo, apesar de não me sentir com grande motivação para fazer seja o que for. Enfim, esperemos que venha a sair desta inércia absurda que é a minha vida o mais brevemente possível. E, nas proximidades, quem sabe... talvez um dia me vejas a sorrir.