A Natureza chama-me e fui para a casa de banho. Ouvi então a ecoar na minha cabeça o único bom conselho que a minha sábia mãe me disse em toda a vida:
“Quando fores à casa de banho, levanta o tampo da sanita.”
“Quando fores à casa de banho, levanta o tampo da sanita.”

Acho que ela disse também outras coisas muito importantes e Zen, como do género:
“O único falhanço na vida é não seres verdadeiro ao melhor de que conheces.”
“Só podes viajar no caminho até que te tornes nele próprio. Não procures salvação nos outros. Ninguém pode nem deve fazer isso por ti. ”
“E antes de atravessar a estrada vê primeiro se o homenzinho está verde.”
Fogo, e atirava-me muitos outros pedaços de sabedoria budista quando era puto, e agora também diga-se de passagem. Mas como é costume dos filhos, eu não estava a prestar muita atenção e por isso ignoro-os todo contente.
Seja como for tava em pé a aliviar a bexiga até que notei ali no chão num alguidar verde, com água, uma rede e uma espécie de rebentos duma planta qualquer.
Hmm… intrigante. Fui então curioso perguntar ao meu pai que estava na cozinha a transcrever poemas em caligrafia chinesa. Ya, aquilo é considerado no Oriente como uma forma de arte antiga tipo a pintura ou fazer balões em formas de animais.
Eu notei que ele faz isto há anos sabe-se lá porquê, pega num poema, copia-o com todo o cuidado a tarde toda, e depois deita-o fora para o lixo assim sem mais nem menos. Que insólito.
-- Papá, o que é que raios está aquele alguidar a fazer na casa de banho??
-- Estou a cultivar.
-- A cultivar? O quê?
-- Rebentos de soja.
-- Huh? Para quê?
Ele põe o pincel de lado e olha através da janela para o monte de relva verde lá fora.
-- Para ver se cresce.
Eu cocei a cabeça, a minha compreensão é um bocado lenta em relação à lógica da batata dos meus progenitores.
-- Não tou a perceber. Qual é a tua razão para isso?
-- Mas que pergunta parva. Para que é que havia de ser? Para comer-mos.
-- Oh, mas andas a fazer isso às escuras sem sol? Aquilo nunca vai crescer.
-- Com este calor em três dias temos jantar.
-- Uau a sério? Que giro, uma planta só precisar de água e ar para se desenvolver.
-- Doze anos de escola e nem sabes isto. Não há nada mais triste que morrer como um burro.
-- Pois eh eh… ao menos vivo sem preocupações!
E foi aí que me relembrei duma memória empoeirada no fundo do sub-consciente desta minha arrecadação desarrumada.
Visões arranhadas de imensos alguidares sobre alguidares cheios de soja a crescerem nas trevas… empilhados dentro das casas de banhos mais profundas na cave do meu restaurante.
Sim…
O lugar frio, escuro e gorduroso onde passei metade da minha vida. Porra, e se pensar melhor nisso, foram sem dúvida alguma até agora a minha década preferida e mais enternecedora...
Senti mesmo um turbilhão líquido de memórias de infância a afluir à superfície.
Shhh, deixando-me completamente ensopado em ondas de nostalgia… acho que te posso contar agora um bocado desses tempos, não que seja assim incrivelmente interessante, mas é certamente diferente da tua.
Okay, mas isto só tem piada se partilhares também algumas das tuas recordações mais giras, quando voltarmos a conversar. Ah pois é, quid pro quo. Que significa eu coço as tuas costas e tu coças as minhas, ou algo assim do género... latim também é uma língua morta. Ninguém quer saber, só mesmo o Papa que gosta das missas assim.
Então até à próxima, dá ouvidos à tua mãezinha e tem juízo miúda!
“O único falhanço na vida é não seres verdadeiro ao melhor de que conheces.”
“Só podes viajar no caminho até que te tornes nele próprio. Não procures salvação nos outros. Ninguém pode nem deve fazer isso por ti. ”
“E antes de atravessar a estrada vê primeiro se o homenzinho está verde.”
Fogo, e atirava-me muitos outros pedaços de sabedoria budista quando era puto, e agora também diga-se de passagem. Mas como é costume dos filhos, eu não estava a prestar muita atenção e por isso ignoro-os todo contente.
Seja como for tava em pé a aliviar a bexiga até que notei ali no chão num alguidar verde, com água, uma rede e uma espécie de rebentos duma planta qualquer.
Hmm… intrigante. Fui então curioso perguntar ao meu pai que estava na cozinha a transcrever poemas em caligrafia chinesa. Ya, aquilo é considerado no Oriente como uma forma de arte antiga tipo a pintura ou fazer balões em formas de animais.
Eu notei que ele faz isto há anos sabe-se lá porquê, pega num poema, copia-o com todo o cuidado a tarde toda, e depois deita-o fora para o lixo assim sem mais nem menos. Que insólito.
-- Papá, o que é que raios está aquele alguidar a fazer na casa de banho??
-- Estou a cultivar.
-- A cultivar? O quê?
-- Rebentos de soja.
-- Huh? Para quê?
Ele põe o pincel de lado e olha através da janela para o monte de relva verde lá fora.
-- Para ver se cresce.
Eu cocei a cabeça, a minha compreensão é um bocado lenta em relação à lógica da batata dos meus progenitores.
-- Não tou a perceber. Qual é a tua razão para isso?
-- Mas que pergunta parva. Para que é que havia de ser? Para comer-mos.
-- Oh, mas andas a fazer isso às escuras sem sol? Aquilo nunca vai crescer.
-- Com este calor em três dias temos jantar.
-- Uau a sério? Que giro, uma planta só precisar de água e ar para se desenvolver.
-- Doze anos de escola e nem sabes isto. Não há nada mais triste que morrer como um burro.
-- Pois eh eh… ao menos vivo sem preocupações!
E foi aí que me relembrei duma memória empoeirada no fundo do sub-consciente desta minha arrecadação desarrumada.
Visões arranhadas de imensos alguidares sobre alguidares cheios de soja a crescerem nas trevas… empilhados dentro das casas de banhos mais profundas na cave do meu restaurante.
Sim…
O lugar frio, escuro e gorduroso onde passei metade da minha vida. Porra, e se pensar melhor nisso, foram sem dúvida alguma até agora a minha década preferida e mais enternecedora...
Senti mesmo um turbilhão líquido de memórias de infância a afluir à superfície.
Shhh, deixando-me completamente ensopado em ondas de nostalgia… acho que te posso contar agora um bocado desses tempos, não que seja assim incrivelmente interessante, mas é certamente diferente da tua.
Okay, mas isto só tem piada se partilhares também algumas das tuas recordações mais giras, quando voltarmos a conversar. Ah pois é, quid pro quo. Que significa eu coço as tuas costas e tu coças as minhas, ou algo assim do género... latim também é uma língua morta. Ninguém quer saber, só mesmo o Papa que gosta das missas assim.
Então até à próxima, dá ouvidos à tua mãezinha e tem juízo miúda!

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