Sábado, Setembro 22, 2007

Dez Anos Na Companhia De Tartarugas Ninjas




-- Não sei se foi o cabrão do Platão ou o doido do Michael Jackson que disse:

Os dez primeiros anos duma criança são os mais mágicos do mundo! Fazem mesmo toda a diferença no futuro… separa aquela pessoa sentada no autocarro que ao cruzar o olhar contigo, sorri-te timidamente e deixa-te radiante o resto do dia… daquela que faz um escarcéu e vomita em cima de ti numa discoteca, e o cheiro nunca mais desaparece da roupa mesmo depois de meteres na máquina com dois litros de detergente.

Ah pois é.

Dez anos.

Dez voltas ao Sol.

Um piscar de olhos para uns…

Uma existência inteira para um rafeiro vadio.

E eu passei-os a maior parte deles no andar subterrâneo dum restaurante chinês.

E sabes? Isso é mais fixe do que soa. É por isso que sou assim tão tramado.


-- Vivias numa cave? – perguntou o Rapaz-Porreiro pouco impressionado.

-- Eh eh, podia não ser uma vivenda à beira mar ou uma quinta no meio dum campo verdejante, mas era o meu universo inteiro. E por muito inóspito que fosse para ti… era o meu lar. Hmm, tás a perceber...? Nunca sonhaste repetidamente com um lugar de infância? Pelo qual sentes uma nostalgia impossível de curar? (Bem a não ser que sejas um órfão abusado da Casa Pia. Cof cof.) Pois e o meu era aquela cave, onde eu ainda passo muitas noites a vaguear nos meus sonhos... naqueles túneis com ligações a salas secretas, esgotos de ratos e passagens para outras zonas do quarteirão… É profundamente estranho reviver situações presentes que continuam a acontecer nesse cenário.

-- Bom okay, cada um tem os seus gostos. Para mim parece-me um bocado claustrofóbico. Moravas numas catacumbas do caraças. – comentou o Rapaz-Porreiro abanando a cabeça.

-- Opa… também não era assim como imaginas. Deixa-me só explicar… enquanto no primeiro andar era o restaurante vulgar onde os clientes comiam, a cave era um sítio fechado ao público, um ex-bar/restaurante gigante, tipo o Galeto. Tinha um balcão que circundava ali como uma minhoca com bancos giratórios para cinquenta pessoas. E para teres uma noção do espaço daquilo… eu andava de bicicleta lá em baixo! Aliás andei de tudo desde triciclo até ao porsche preto todo quitado com pedais. Apesar de acabar a maior do tempo meios às escuras a bater em tudo.

-- Porquê? Sofrias dalguma mania pelo escuro? – perguntou a estudante de psicologia parva.

-- Népia, é que às vezes o meu pai apagava as luzes de dia para poupar electricidade e eu ficava ali na semi-escuridão a passear pelas longas paredes dos corredores mas que já conhecia intimamente, como um gigolo dentro duma velha amante que já nem precisa de apalpar para encontrar os sítios certos.

-- Hmm mas não ias à escola? Como é que aprendeste a ler? – ela devia tar a achar-me um bocado freak, mas hei, ao menos diverti-me mais que ela e os meus pais nunca me chateavam com o que havia de comer, vestir e como comportar.

-- Claro, que ia às aulas todos os dias. Acordava ao meio-dia, tomava o pequeno- almoço de campeões. E olha, enquanto vocês tinham a sorte de comer chocapics e nestuns eu enfardava sempre porco agri-doce e vaca com molho de ostras com arroz logo para começar o dia.

-- Fogo, que enjoativo. – O Rapaz-Porreiro deitou a língua de fora e abanou outra vez a cabeça.

-- Então não me fales mais de galinha com ananás…. E sobremesa de banana-basi…. Porra nunca mais na vida. E prontos. Depois disso ficava umas horas nas aulas ali ao pé do restaurante e voltava às 6 pra casa. Os meus pais abriam o negócio por volta dessa altura, a minha mãe como empregada lá em cima, a trabalhar todos os dias sem férias, fins-de-semana ou feriados, como uma escrava, mas sempre de sorriso alegre enquanto o meu pai ficava metido mal-humorado na cozinha gordurosa como o chef, sempre a chatear os outros empregados.
E assim deixavam-me a brincar sozinho na cave. Como nós vivíamos ao pé do Saldanha, aquilo sempre foi um bairro muito pouco amigável para as criancinhas. Prédios sobre prédios, passeios estreitos onde uma pessoa tem de se desviar sempre que encontra alguém e nem sequer um único jardim decente neste deserto urbano…

Pá, existiam ATL’s, escuteiros e catequeses, mas nunca gostei muito daquilo, havia muitas regras e não me deixavam fazer o que me apetecia. Não podia correr nu livre como uma águia e espetar presas com a minha lança, ninguém queria brincar ao Homem das Cavernas, só percebiam apanhadas e escondidas.

Por isso ficava no meu sítio onde passei mais tempo da minha infância a conversar com tartarugas ninjas e baratas do que com a minha família. E eu não suporto baratas.

Mas apesar de sozinho nunca me senti só, nem tinha noção disso. Bastava ter uns transformers e uns turbo rangers… e havia guerra!

-- Eu também via esses bonecos, então o que eu adorava era o Dartacão. – disse o Rapaz-Porreiro.

-- Que cena, isso traz-me memórias de levantar-me todos os sábados de manhã às 7 só para ver desenhos animados…. – comentou a miúda psicóloga quase incrédula.

-- Uma loucura, não fazíamos mais nada. Aquelas cinco horas de televisão eram uma verdadeira religião. Nem fanáticos fundamentalistas são tão dedicados. – exclamou o Rapaz-Prático.

-- O que eu chorei no dia em que a Princesa Diana morreu…. Cancelaram o Dragonball, e os cabrões puseram aquela merda que nunca mais acabava. – confessei eu tristemente.

-- Ya, e pouco depois foi a Madre Teresa! Outra manhã sem bonecos. Que inferno! Apetecia-me partir aquilo tudo.

-- Hmm, já nem me lembro da última vez que me levantei de madrugada para ver desenhos… Pergunto-me como terá sido. E no que terei pensado para me deixar disso.

-- Olhem, eu não sei quanto a vocês, mas eu ainda me levanto para ver o Clube Disney todos fins-de-semanas sem falta! Aquele Pateta põe-me sempre feliz. – declarei eu, e o resto do pessoal riu-se um bocado, continuando a falar sobre reminiscências.

E achei melhor parar por aqui, já tinha distraído a malta e o resto que tenho para contar ficava para ti. Se é que vale a pena falar sobre isso.

Okay, eu sei, eu sei… que isto são só memórias especiais para mim, e só eu as acho interessante por muito prosaicas que sejam.... sim… também gostava de ouvir as tuas… ia rir-me um bocado de graça à tua custa. Só tenho pena de não ter sido eu a atormentar-te diariamente quando eras miúda. Seria tão giro ter te enfiado no cacifo, ou metido umas minhocas vivas pelo vestido abaixo. Ahh, hei, se calhar tinhas saído mais rija. E tinhas mais histórias para contar dos teus anos mágicos…

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