Era um dia chuvoso deste Verão esquisito (acho que isto não deve ter nada a ver com alterações climáticas, não senhor ministro) mas um pouco de água não impedia ninguém de fazer nada.
E assim meti-me noutra roadtrip com amigos à cata de sítios obscuros longe de Lisboa para o nosso trabalho. Quer dizer, se há coisa que não falta são localidades pictorescas e meio-estranhas por este Portugal profundo fora... aquelas vilazinhas, e aldeias minúsculas que parecem verdadeiramente saídas da Quinta Dimensão, tipo Pleasentsville ou Twin Peaks, em que tudo parece tão certinho e perfeito, mas sentes que há qualquer coisa de errado no ar, só que não sabes bem especificar porquê...
Não me apetecia nada ficar sem gasolina e passar a noite sozinho num destes locais tão terrivelmente hospitaleiros a forasteiros. Como se tivesse medo que a população se transformasse toda em lobisomens ao raiar da lua, ou faça parte dum culto centenário medieval qualquer sedento por sacrifícios de pinguins... ah pois é, eu vi isso nos filmes. E como toda gente sabe, se apareceu na televisão é porque é verdade, ou algo perto!
Prontos, é só imaginação minha. Aquilo era no fundo uma pasmaceira de fim de mundo onde não se passava nada para além das más-línguas e bisbilhotices habituais da vizinhança nos cafés cheios de moscas.
E assim meti-me noutra roadtrip com amigos à cata de sítios obscuros longe de Lisboa para o nosso trabalho. Quer dizer, se há coisa que não falta são localidades pictorescas e meio-estranhas por este Portugal profundo fora... aquelas vilazinhas, e aldeias minúsculas que parecem verdadeiramente saídas da Quinta Dimensão, tipo Pleasentsville ou Twin Peaks, em que tudo parece tão certinho e perfeito, mas sentes que há qualquer coisa de errado no ar, só que não sabes bem especificar porquê...
Não me apetecia nada ficar sem gasolina e passar a noite sozinho num destes locais tão terrivelmente hospitaleiros a forasteiros. Como se tivesse medo que a população se transformasse toda em lobisomens ao raiar da lua, ou faça parte dum culto centenário medieval qualquer sedento por sacrifícios de pinguins... ah pois é, eu vi isso nos filmes. E como toda gente sabe, se apareceu na televisão é porque é verdade, ou algo perto!
Prontos, é só imaginação minha. Aquilo era no fundo uma pasmaceira de fim de mundo onde não se passava nada para além das más-línguas e bisbilhotices habituais da vizinhança nos cafés cheios de moscas.
Pá não sei dizer se viveria melhor aqui ou numa metrópole, mas acho que isso no fundo é inconsequente, se a felicidade dependesse só do sítio onde estamos, éramos todos emigrantes compulsivos com cartões de passageiro de milhas frequentes.
Pois... se calhar como nasceste numa vila tipicamente portuguesa podes provavelmente achar mais charme e beleza nisso do que numa cidade grande maldita ao qual nunca consegues muito bem acarinhar como lar... eu por mim, já vi o suficiente deste inferno urbano. E como já disse montes de vezes, quando tiver mesmo farto de tudo, do meu trabalho, da familía e da mulher que amo, vou desaparecer para longe, e passar o resto dos meus dias numa colónia de nudistas no Brasil, ou então construir um castelo na Patagónia e viver como um rei sem súbditos lá do sítio.
Seja como for, estávamos nós às voltas pelas ruazinhas completamente desertas duma vila que não passava mais de uma praça, e umas casinhas à volta... a chuva tinha parado, sem deixar vestígio algum de poças atrás, o sol secou tudo como um predador sexual sedento por sangue virgem... o carro percorria languidamente em câmara lenta pelo asfalto quente, onde apenas cães vadios dormiam escanzeladamente no meio da estrada de barriga para o lado... velhos de boné não parávam de nos esgazear das janelas ou parados no meio dos passeios para nós, como se fossemos aberrações de circo... tava mesmo a passar-me com isto.
-- Epá, já tiramos fotos que chegue a este sítio, bora procurar outras paisagens. -- sugeri já impaciente.
-- O quê? Mas não tás a achar piada ao nosso passeio turístico?
-- Sinto-me mal-vindo aqui... não sei explicar porquê...
-- Não sejas parvo. O que é que nos pode acontecer aqui? Um agricultor agarrado a um garrafão de bagaço chocar connosco num tractor?
-- Não sei... tenho um pressentimento que vamos desaparecer misteriosamente assim de repente da face da terra, como se nunca tivessemos existido. Eu não me apetecia acabarmos como uns putos estúpidos desaparecidos no Jornal Nacional!
-- Isso já é paranóia tua. Mas okay. Também ainda temos de encontrar aqui uma mata para o nosso projecto.
A vilazinha acabava logo 40 metros à frente e depois de nos metermos numas estradas de terra batida tortuosas, acabámos por dar a um pequeno bosque longe de tudo onde saímos para dar uma volta. Começou a chover copiosamente outra vez por entre os ramos frondosos das árvores, enquanto no ar sentia-se o cheiro profundo a terra molhada e folhas de eucalipto que me deixava agradavelmente de coração mais relaxado...
Sabia bem, podia ser um lugar comum, mas não é por causa de pequenos prazeres que vale a pena continuar a respirar?
Eles continuaram o caminho um bocado à frente enquanto eu fiquei sozinho por uns momentos a olhar para este cenário idílico e tão banal, mas que nunca te cansavas de voltar a ver por algum motivo misterioso.
Naquele momento sozinho fiquei meio-pensativo, man, estava morto de sono há já semanas... Também não sou de ferro, e começava a sentir-me um bocado cansado. Mas tinha remédio simples para isso. Sim... fazer uma viagenzinha abaixo para ir ter contigo, e sei lá... despedir-me de ti.
Encostei-me a uma árvore sossegadamente, tocando fascinado na madeira húmida do tronco.
Yup, e se calhar voltava a estar tudo porreiro como antes. Não haveria dramas, deixo isso para as badalhocas da Letra L. Apenas dias felizes.
.... Raios, se eu soubesse o que estavas a passar...
E estou outra vez preocupado contigo, e só gostava de poder confortar-te dalguma forma. Mesmo que fosse apenas para me atirares objectos grandes pesados à tola e aliviares um bocado a raiva.
Tenho de... hmh...
Porra, não tenho mesmo palavras para te dizer... parece tudo tão sem significado.
Não é costume eu não ter a mínima ideia do que hei de fazer... Não é mesmo.

Pois... se calhar como nasceste numa vila tipicamente portuguesa podes provavelmente achar mais charme e beleza nisso do que numa cidade grande maldita ao qual nunca consegues muito bem acarinhar como lar... eu por mim, já vi o suficiente deste inferno urbano. E como já disse montes de vezes, quando tiver mesmo farto de tudo, do meu trabalho, da familía e da mulher que amo, vou desaparecer para longe, e passar o resto dos meus dias numa colónia de nudistas no Brasil, ou então construir um castelo na Patagónia e viver como um rei sem súbditos lá do sítio.
Seja como for, estávamos nós às voltas pelas ruazinhas completamente desertas duma vila que não passava mais de uma praça, e umas casinhas à volta... a chuva tinha parado, sem deixar vestígio algum de poças atrás, o sol secou tudo como um predador sexual sedento por sangue virgem... o carro percorria languidamente em câmara lenta pelo asfalto quente, onde apenas cães vadios dormiam escanzeladamente no meio da estrada de barriga para o lado... velhos de boné não parávam de nos esgazear das janelas ou parados no meio dos passeios para nós, como se fossemos aberrações de circo... tava mesmo a passar-me com isto.
-- Epá, já tiramos fotos que chegue a este sítio, bora procurar outras paisagens. -- sugeri já impaciente.
-- O quê? Mas não tás a achar piada ao nosso passeio turístico?
-- Sinto-me mal-vindo aqui... não sei explicar porquê...
-- Não sejas parvo. O que é que nos pode acontecer aqui? Um agricultor agarrado a um garrafão de bagaço chocar connosco num tractor?
-- Não sei... tenho um pressentimento que vamos desaparecer misteriosamente assim de repente da face da terra, como se nunca tivessemos existido. Eu não me apetecia acabarmos como uns putos estúpidos desaparecidos no Jornal Nacional!
-- Isso já é paranóia tua. Mas okay. Também ainda temos de encontrar aqui uma mata para o nosso projecto.
A vilazinha acabava logo 40 metros à frente e depois de nos metermos numas estradas de terra batida tortuosas, acabámos por dar a um pequeno bosque longe de tudo onde saímos para dar uma volta. Começou a chover copiosamente outra vez por entre os ramos frondosos das árvores, enquanto no ar sentia-se o cheiro profundo a terra molhada e folhas de eucalipto que me deixava agradavelmente de coração mais relaxado...
Sabia bem, podia ser um lugar comum, mas não é por causa de pequenos prazeres que vale a pena continuar a respirar?
Eles continuaram o caminho um bocado à frente enquanto eu fiquei sozinho por uns momentos a olhar para este cenário idílico e tão banal, mas que nunca te cansavas de voltar a ver por algum motivo misterioso.
Naquele momento sozinho fiquei meio-pensativo, man, estava morto de sono há já semanas... Também não sou de ferro, e começava a sentir-me um bocado cansado. Mas tinha remédio simples para isso. Sim... fazer uma viagenzinha abaixo para ir ter contigo, e sei lá... despedir-me de ti.
Encostei-me a uma árvore sossegadamente, tocando fascinado na madeira húmida do tronco.
Yup, e se calhar voltava a estar tudo porreiro como antes. Não haveria dramas, deixo isso para as badalhocas da Letra L. Apenas dias felizes.
.... Raios, se eu soubesse o que estavas a passar...
E estou outra vez preocupado contigo, e só gostava de poder confortar-te dalguma forma. Mesmo que fosse apenas para me atirares objectos grandes pesados à tola e aliviares um bocado a raiva.
Tenho de... hmh...
Porra, não tenho mesmo palavras para te dizer... parece tudo tão sem significado.
Não é costume eu não ter a mínima ideia do que hei de fazer... Não é mesmo.
-- Ó meu! Tás ai atrás a cagar ou fazer o quê pá? Vamos embora! -- grita o meu colega.
-- Okay okay. Tou a ir. Aguenta os cavalos!
Metemo-nos de novo no automóvel, rumo a casa... passando por matas intermináveis queimadas... era tudo muito surreal, estava a chover desoladamente enquanto troncos meio-mortos ainda fumegavam, e o cheiro intenso a cinzas enchia o ar... ardeu tudo dum modo tão organizado, só podia ter sido feito por mãozinhas mal-paridas.
Mas no entanto as copas de muitas das árvores enegrecidas ainda se encontravam verdes, cobertas de folhas frescas. Eh, dava uma esperança resiliente que depressa voltariam a sarar... ao ver por entre o solo de carvão rebentos a renascerem...
Fechei os meus olhos, deixei-me passar pelas brasas durante uma hora que me pareceu um breve instante.
Não me lembro de ter sonhado.
Acordei peganhento de suor já ao pé de Telheiras, quando um colega meu vira-se para mim:
-- Então meu, o que é que se passa contigo? Tás sempre a dormir. O que é que andas a fazer à noite?
Eu sorri, e encolhi os meus ombros.
-- Euh... hmm nada...
-- Alguma coisa é. Diz lá pá.
-- É só.... é só o raio do meu colchão. Ya, já tem as molas a saltarem e tudo. Não admira que esteja todo partido de insónias.
-- Pois acho que tá na altura de reformá-lo. Arranja um Pikolin ortopédico e uma colcha padrão zebra ah ah. Já que passamos um terço da vida a dormir, ao menos fá-lo com estilo!
-- Tens toda a razão. Toda a razão.
-- Okay okay. Tou a ir. Aguenta os cavalos!
Metemo-nos de novo no automóvel, rumo a casa... passando por matas intermináveis queimadas... era tudo muito surreal, estava a chover desoladamente enquanto troncos meio-mortos ainda fumegavam, e o cheiro intenso a cinzas enchia o ar... ardeu tudo dum modo tão organizado, só podia ter sido feito por mãozinhas mal-paridas.
Mas no entanto as copas de muitas das árvores enegrecidas ainda se encontravam verdes, cobertas de folhas frescas. Eh, dava uma esperança resiliente que depressa voltariam a sarar... ao ver por entre o solo de carvão rebentos a renascerem...
Fechei os meus olhos, deixei-me passar pelas brasas durante uma hora que me pareceu um breve instante.
Não me lembro de ter sonhado.
Acordei peganhento de suor já ao pé de Telheiras, quando um colega meu vira-se para mim:
-- Então meu, o que é que se passa contigo? Tás sempre a dormir. O que é que andas a fazer à noite?
Eu sorri, e encolhi os meus ombros.
-- Euh... hmm nada...
-- Alguma coisa é. Diz lá pá.
-- É só.... é só o raio do meu colchão. Ya, já tem as molas a saltarem e tudo. Não admira que esteja todo partido de insónias.
-- Pois acho que tá na altura de reformá-lo. Arranja um Pikolin ortopédico e uma colcha padrão zebra ah ah. Já que passamos um terço da vida a dormir, ao menos fá-lo com estilo!
-- Tens toda a razão. Toda a razão.

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