Domingo, Julho 08, 2007

Pale Shelter

(Ou Abrigo Pálido para aquelas pessoas que não sabem um corno de inglês eh eh)




Bem, mais um ano académico que acabou para nunca mais voltar...

Mais umas células que morreram permanentemente.

Estou a ficar velho e obsoleto.

Yah, yah, eu sei que podia ter feito algo melhor com o meu tempo.

Mas isso pudemos sempre.

Como por exemplo ficar mais vezes deitado na relva a ouvir uma musiquinha entranhada dos Tears for Fears sob um solinho ameno desconsolado, ou descolar compulsivamente mais rótulos de garrafas de cerveja naquelas noites longas em bares decadentes na galhofa com amigos e desconhecidos embriagados.





Sim, pudemos quase sempre escolher o que queremos da vida. Basta mexermos o rabiosque, e trabalhar para isso.

E olha que dá muito trabalho ser um vadio a sério.

Não imaginas o quão raro é existir alguém que respeite esse esforço.

-- Desperdiçado dum raio, põe-te a pau!

-- Vai trabalhar, caralho!!

-- Ou deixas-te de merdas ou encho-te de porrada!

Oh, sim, ninguém compreende. É tão triste... que até me faz chorar como uma menina a quem roubaram o urso para dormir. Sniff......

Okay, acho que vou buscar um gelado ao frigorífico.

Abro o congelador e vejo que foi pilhado a torto e direito tanto daqueles Haagen-Dazs encaramelados como de sorvetes de laranja. Provavelmente pela minha irmãzinha. Pergunto-me como é que uma pita de quinze anos consegue esvaziar a cozinha mais depressa que o diabo esfrega um olho. Nem uma bulímica num rodízio comia tanto.

Assim saí de casa para o hiper-mercado aqui ao pé, para comprar uma caixa. Pá, hábitos gulosos não me dizem muito, não como um sugus desde a primária, mas quando apetece a um homem qualquer coisa ele vai buscá-la e fim da discussão. Seja um bom bitoque ou uma puta que ama, é indiferente.

Liguei o meu MP3, enquanto ouvia a minha banda sonora lamechas Eighties como de costume. Estava uma tarde bastante quente, o Verão tinha espancado a desgraçada da Primavera para o outro lado da Terra por ela tê-lo encornado com o Inverno, e a minha T-shirt ia ficando cada vez mais encharcada com litros de suor, deixando-a totalmente transparente e colada à minha pele. Que calor desconfortável. Se eu fosse um cão bastava abrir a boca e deitar a língua de fora. Não que ajudasse muito se eu fosse um São Bernado. Mas porra, nem que andasse sem calças, com a gaita a soprar ao vento ajudava. Maldito aquecimento global. Odeio-te Bush Man, tás te a marimbar para o Protocolo de Kyoto?? Huh? Cabrão! Já te ensino pá. Mando uns pinguins assassinos treinados no Templo do Dragão de Telheiras para dar cabo da canastra.

Ahh, fogo, o que eu precisava mesmo era dalgo mais saboroso que um mero gelado de chocolate. Algo que me deixasse verdadeiramente refrescado e excitado nesta seca descomunal de Verão.

-- Estás a pensar em alguém em especial? -- interroga o Rapaz-Honesto

-- Não... não sei do que tás a falar.

-- Vá lá não te faças de sonso.

-- Mas tu cala-te! É sempre a mesma merda pá. Deixa-me em paz.

-- Eh eh, porque é que ficas sempre zangado quando eu digo a verdade?


-- ............ -- ignorei o sacano do rapazinho como se ele não existisse.

-- Ah pois é. Quem cala consente.

-- Lá porque te lixei o juízo há doze anos atrás, tenho de te aturar para o resto da vida?? Cresce e desampara a loja, emplastro do caralho!



Mais uma hora pedagógica de FLASHBACK TIME!!

Patrocinado pelo protector solar "Paleshelter tm".

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Estava na terceira classe, sentado na minha carteira com o colega do lado. A professora Celeste tinha mandando nos fazer um testezinho de Língua Portuguesa. Eu não sabia responder às perguntas de interpretação, aliás, eu sempre fui péssimo nessa disciplina todos os anos depois mas por outras razões pessoais...

Estava mesmo bem tramado porque não queria receber uma nega em cima, e na semana seguinte ver o filme chato da professora a ir falar com a minha mãezinha, receber um castigo valente de prisão domiciliária sem TV, e em vez disso passar aqueles sábados porreiros de brincadeira a olhar feito estúpido para a mesma página do livro da escola. Por isso, para evitar esse drama desnecessário, decidi simplesmente dirigir a minha atenção para o colega do lado.

Ele era o Rapaz-Honesto, um puto franzino de óculos, com ar dum Harry Potter raquítico que levava porrada tanto dos miúdos como das miúdas. E o rapazinho ranhoso era tão calado e acabrunhado, que eu era mais ou menos o único amigo dele, porque não tinha mais ninguém que o aturasse. Apesar disso o gajo irritava-me por no fundo ser mais esperto do que eu, e é um daqueles sentimentos infantis que perdura na maior parte dos adultos, mesmo que eles não achem politicamente correcto admitir tal coisa. Ah a inveja é uma coisa muito feia.

Mas prontos, até parece que as pessoas crescidas são exemplo de alguma coisa para alguém...

Eu comecei a copiar as respostas dele, acto difícil pela letra horripilante dele, estilo minhocas bêbadas, que se torciam em espasmos pela folha de papel toda.

Até que de repente a professora mandou um olhar severo para mim do fundo da sala, e o meu corazãozinho deu um pulo súbito congelando entre dois batimentos. Ela levantou-se da secretária e veio na minha direcção como uma chita atrás duma gazela. Eu sem saber como me salvar pensei nas desculpas esfarrapadas que podia dizer... "Queria só saber a data e ...o nome." "Belo tempo, não? O Sol quente e tal?" "Nunca tiveste um daqueles dias em que sabias que não devias ter saído da cama?"

Mas a professora passa por mim sem dar por nada e vai ter com uma miudinha irritante atrás de mim que tinha levantado o braço para fazer uma pergunta.

Eu respirei de alívio e acabei o teste duma forma trapaceira exemplar.

No dia seguinte a professora devolveu os testes a toda gente, eu recebi um "bom", excepto o Rapaz Honesto, com quem ela quis conversar no final da aula... eu fiquei à porta depois para ouvir a conversa entre eles... parece que ele tinha copiado dalguém e o gajo sem saber como se defender simplesmente balbuciava que não fez tal coisa... a professora ficou apenas mais chateada por ele não admitir a culpa e disse que queria falar com a mãe dele...

Eu ao ouvir isto fugi dali para fora em direcção a casa o mais depressa que podia. Acho que isto foi só o começo duma linda amizade.
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-- Ah pois é, não há nada mais enervante que karma, pois não? Não faças aos outros o que não queres que te façam a ti, pá!!

-- Tá calado ó minha grande lombriga! Ou eu desparasito-te de vez--

De repente ouço uma melodiazinha familiar tan-nan-nan nan na na na... era a carrinha dos gelados Family Frost....! Qualquer coisa estalou dentro da minha cabeçinha fazendo-me esquecer os comentários parvos do Rapaz-Honesto, e pus-me a correr mais depressa que o diabo esfrega um olho, como uma criança curiosa que entra numa sex shop, e fui lá ter ao vendedor.



Comprei uma caixa e desembrulhei um sorvete de chocolate que provei todo contente, lançando foguetes sob as minhas papilas gustativas. Simplesmente delicioso.

Mas nesse preciso momento vejo alguém a andar no outro lado da rua... Eu reconhecia aqueles passos a milhas de distância, estavam incinerados para sempre na minha memória afundada. Deixei cair o gelado no chão e fiquei a olhar para ela estarrecido durante os mais longos segundos da minha vida.

Ela não tinha mudado muito, continuava atraente e o mesmo ar profundamente superficial que gostava de manter... Parecia-me feliz e distante... ah ah, há tantos anos que não a via... perguntei-me se ela já seria mãe... tinha idade para isso.

Hmm ainda não me tinha avistado, distraída e descontraída como sempre. Ah pois, fez lembrar-me daqueles nossos diálogos tão difíceis e fiquei indeciso se iria falar com ela ou não...

Encolhi os ombros entre um sorriso amarelo secreto, deitei fora o gelado no lixo e mudei de música... O céu estava completamente azul sem uma única nuvem no horizonte. Ia mesmo ser um Verão espectacular de escaldar o coração.

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