Terça-feira, Julho 03, 2007

Génio da Garrafa: Parte III

Isto tudo é só um mau sonho.


Fiz-me à estrada o mais depressa que pudia, deixando para trás um vaivém de luzes de semáforo abertas, desfocadas na distância. O rugido do motor soava gravemente nos meus ouvidos, mas chegando aos arrastões como se estivessem segundos atrasados, completamente dessincronizados do meu cérebro da realidade. A minha boca estava cada vez mais seca, como uma alcatifa coberta de pó e unhas cortadas, por muitas vezes que eu desse na garrafa... Começava a sentir as mãos dormentes, segurando o volante de manteiga derretida, que me escorregava dos dedos e girava e girava feito moinho endoidecido....

Eu continuava a conduzir por todo o lado mas as ruas pareciam todas as mesmas, e não me conseguia libertar da sensação que andava às voltas há horas no mesmo labirinto de cimento e asfalto.



Até que subitamente vi sirenes azuis acenderam-se atrás de mim, e mandaram-me um sinal para parar. Eu não queria, não, tinha de fugir, e quando comecei a acelerar, o carro dele pôs-se à minha frente obrigando-me a travar. Que estranho. A matrícula deles tinha apenas "NO EXIT" escrito.

E nesse instante um polícia gordo, mas bruto como daqueles que já não se fazem saltou do carro. Ele usava óculos escuros à noite, e uma farda amarrotada, de lanterna na mão aproximou-se de mim como um gavião em direcção ao rato em fuga e pediu-me os meus documentos. O nome dele na tag da camisa era João Dionísio, e tinha cara de poucos amigos. Entreguei e ele olhou-os sem dizer nada, até que me mandou sair da viatura para soprar no balão.

O que é que eu ia fazer agora? Estava tão tramado que comecei a transpirar baldes de suor estragado mas não tinha outra alternativa. Encurralado entre a espada e a parede.

Soprei e depois o polícia olhou para o contador...

Mas não havia nada, nem um único vestígio de álcool.

0 g.

Não percebia nada... o cheiro do meu hálito dava provavelmente para matar um canário. Mas o aparelho não detectou nada...

Ele mediu-me outra vez espantado.

-66.6 g.

Até que me apercebi num rasgo de sobriedade no meio do meu estupor profundo que me sentia já tão morto sem ela, que já estava me a lixar para toda esta merda.

-- Que mentira. O aparelho deve estar defeituoso! Eu estou bêbado!! -- disse eu ao Sr Agente.

Ele observou os meus olhos durante uns segundos, encolheu os ombros e foi-se embora.

-- Tem é mas juízo. Para próxima passas a noite na esquadra.

-- Isso não me interessa! EU QUERO SER PRESO AGORA!!

-- Não digas asneiras, vai mas é para casa descansar.

Eu agarrei-o pelo colarinho mas mal o toquei ele começou a liquefazer-se, como se fosse feito de água... não-- ...de aguardente... desabando para uma poça de álcool no chão soltando um riso ascendente como vapor a subir pelo ar...

Olhei em redor não havia sequer um único carro à vista, nem o meu nem o dele... ninguém, até que me lembrei que não tinha carro... e já nem percebia do que estava à procura.

Caminhei o resto do caminho com os meus próprios pés.

As ruas distorciam-se cada vez mais, retorcendo-se em espirais torturantes, cruzando-me com os passeios de doppelgangers dum passado inconsequente. Fantasmas mais entristecidos de mim próprio que eu evito, atravessando a rua sempre que os vejo.




Há um mar de lágrimas à espera para cada um de nós.
Por isso às vezes é preciso afogarmo-nos
para voltarmos a sentirmo-nos vivos.

Era realmente a frase de marca do Dr. Álcool. Cabrão. Não diz nada de jeito.

Bebi mais um bocado.

Fui cambaleando por Lisboa adentro e numa das ruas vazias avistei alguma coisa à minha espera ao fundo da estrada. Caminhei até ele e vi que era só um cão negro vadio.

Os olhos penetrantes dele vindos do abismo rasgavam-me a carne à facada dum modo tão casual como se dissessem:

-- Long Time No See.

Parecia quase um velho amigo que não via há muito.

Eu procurei algo por entre os destroços da memória mas não encontrava nada além de reflexos e sombras de recordações passadas, tão apagadas que eu nunca mais alguma vez poderei ver.

Não me recordo de nada.... e ao final de tanto tempo só consigo ouvir os gemidos de lobos enlouquecidos lá fora.

Talvez um dia.... talvez um dia eu possa voltar a ver tudo como era, mas isso só acontecerá no dia em que o Inferno gelar, e o Universo todo renascer outra vez.

Mas eu não podia esperar tanto tempo... Se não tenho paciência para esperar pelo autocarro quanto mais por uma eternidade?


Tomei mais um trago do scotch.

Peguei na minha garrafa e esmigalhei-a contra o crânio do cão, atirei-a contra a cabeça dele vezes e vezes sem sentir nada, cortando e espetando no corpo dele, ouvindo os ganidos de dor como se não significassem nada... Contemplando apenas o sangue e os miolos a saltarem por todos os lados, e foda-se, estava a ficar com os malditos pêlos colados à minha pele húmida de vermelho...

Olhei para o que restava da garrafa, e o Dr. Álcool ficou silencioso. Sentia a cabeça a latejar com batidas metálicas, com um nó na garganta que impedia qualquer palavra de sair... A rua sombria estava emudecida, nem um grito ou um alarme de carro a gemer, como se o mundo inteiro tivesse morrido para mim.

...Não me lembro de ter voltado para casa.


Isto tudo foi só um mau sonho. Sim... Só pode ser.

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