O empregado meteu-me uma imperial à minha frente, a seiva de ouro que Deus nos deu exclamam alguns, um balde de mijo do piorio para outros... ela reflectia a minha cara sem expressão, e não me conseguia confortar o coração, mas no entanto apaziaguava-me os sentidos ligeiramente.
Encontrava-me num bar genérico qualquer, com as paredes cobertas por posteres e fotografias de pessoas supostamente famosas que não me diziam nada, o único conhecia era um com o James Dean. Das colunas gigantescas do sítio não párava de soar house music repetitiva enlatada, afogada pela cacofonia vociferante dos grupos de amigos anónimos, que trocavam os comentários parvos e piadas batidas afogadas do costume.
O choro familiar de diabos perdidos.
Como bebés desmamados a falarem sozinhos
na escuridão dos seus quartos abandonados.
Roucos e intoxicados pelas nuvens de fumo passivo.
Pois, hoje estava a sentir-me amargurado...
Suponho que era só isso.
Não te vou confessar porquê.
Não precisas de saber.
O Rapaz-Prático não parava de falar sobre a faculdade, de como todos os professores são uns filhos-da-puta e não sei que mais.
Eu limitava-me a acenar com a cabeça e a murmurar um hmm-mm.
O empregado passou por ali, e o Rapaz-Prático pediu-lhe que deixasse uma garrafa de scotch connosco. Ele continuava a insultar isto e aquilo revoltado com a situação do mundo, e apesar de concordar com ele, não estava naquela noite com cabeça para aturar esse género de discursos cáusticos. E interrompi-o:
-- Então... para que é que tu querias falar comigo?
-- Pois, meu... ainda bem que me lembraste disso. É assim bacano, eu tenho andado a magicar aqui um plano.
-- Porque é que eu tenho a sensação que ainda vai sobrar para mim.
-- Ouve isto... há uns dias estava na nossa escola a falar com o gajo do armazém e ele esteve a contar-me do equipamento que havia lá...
-- E então?
-- Sabias que há lá por exemplo uma câmara que custou noventa mil euros??
-- .....E então?
-- E estive a pensar... porque é que não levávamos aquilo emprestado?
-- Para quê? Se acontecer alguma coisa, nós é que pagamos.
-- Epá, não tás a perceber. Levar emprestado sem ninguém saber... topas?
Eu olhei para a cara de mandrião do tipo e não estava mesmo nada à espera desse género de sugestões dele.
-- Okay, okay, eu acho que isso são ideias malucas para esquecer... tu não vais fazer isso...
-- E porque não? Desistia logo deste curso e podia começar logo a trabalhar.
-- Deves estar a gozar...
-- Népia. E tu vais entrar no meu plano infalível... Tu também queres bazar dali.
-- Mas não desta maneira parva. Isto não tem piada, pá. Estamos a falar de coisas sérias.
Uma pita do secundário cai subitamente da cadeira donde estava, bastante atordoada, desatando a rir completamente histérica em câmara lenta, e toda a gente acompanha-a. Às gargalhadas com ela ou mais provavelmente por causa dela, sei lá, talvez eram risos para provar que estavam vivas e esquecer o que havia de pesado para esquecer. Que inveja, apetecia-me tanto rir também...
-- Eu asseguro-te. Isto vai ser canja, como roubar um chupa a uma criança.
-- Olha que já grandes ladrões foram apanhados quando tentaram esse golpe magistral...
-- Não te preocupes, Hakuna Matata! Já tenho tudo delineado, até ao pormenor. Há noites que ando nisto.
"Deixem as procupações lá fora, aqui só se bebe." dizia o letreiro emoldurado por detrás do balcão.
-- Não é o perigo de falharmos que me incomoda, é o facto de aceitar sequer em fazer isto.
Isto não era uma questão de se não puderes derrotá-los, junta-te a eles.
Eu não estava a lutar com ninguém a não ser comigo mesmo.
E só tinha um amigalhaço com quem podia verdadeiramente falar.
O meu santo psicólogo.
O Dr. Álcool.
Eu não o suportava.
E o meu figado também não.
Paciência. Era uma relação destrutiva.
-- Mas no fundo tu gostas de mim, não gostas? -- pergunta o Génio dentro da garrafa.
Eu sorri um sorriso parvo e emborquei mais uma para a viagem.
Que se lixe, ia ser uma longa noite.
-- Pá, esta é a nossa única oportunidade de sairmos desta espelunca de vida. Sabes o que é estarmos livres destes filhos-da-puta para sempre? Ou fazemos alguma coisa ou tornamo-nos nuns frustrados falhados como eles! É tudo ou nada!
Pendurei-me do tecto como um ninja com tendências aracnídeas.
O sangue estava a descer-me lentamente ao cérebro.
Mas mesmo assim não conseguia pensar....
Vi por momentos o James Dean na parede a olhar para mim, e a abanar a cabeça condescendentemente.

-- O que é que foi, pá?? Quem és tu para me julgares? Também estás morto!
-- Tás a falar do quê? -- pergunta o Rapaz-Prático atónito.
-- Não sei... huh... Talvez... eu...
Talvez eu devesse bazar para longe daqui. Ir para o rio ver os navios passar. Talvez visse alguém que conhecesse sem nunca ter a encontrado antes na vida...
Talvez...
-- Tenho de me ir embora. Amanhã preciso de acordar cedo. Coisas para fazer.
-- Já? Bom, então faz uma viagem segura. E pensa bem na minha proposta. Não deixes isto passar-te ao lado.
Eu saí da cadeira e levei comigo a garrafa de scotch, deixando na mesa uma nota de 10 euros.
Quando vou a sair quase choco com um gajo baixinho todo bêbado, de fato e gravata amarrotada que se tinha levantado do balcão e começa a insultar um tipo musculado de camisa havaiana.
-- Que merda de trabalho. Vai mas é apanhar no cú. Não acredito que estou a falar com um cabrão desgraçado como tu!! Adeus e morre longe!
A seguir dá dois passos podres e cai bêbado em coma no meio do chão para espectáculo dos outros clientes.
O tipo musculado limita-se a encolher os ombros e murmura qualquer coisa:
-- Ao menos estou aqui a ganhar dinheiro.
Esfreguei os olhos e saí daquele bar pouco acolhedor, cheirava demasiado a suor esterilizado, limpo a lixívia todas as manhãs para disfarçar o odor a vómito e arrependimento da noite anterior.

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