Hmm, mal regresso à superfície, e vejo logo por todo o lado uma multidão de pessoas anónimas cujos rostos talhados por óculos escuros não posso tocar, e apesar de roçar-me na pele o vento soprado pelos seus corpos em movimento, sei intimamente que estão tão distantes, a anos de luz infinitos do sítio donde estou e estarei.
Porque é que eu digo algo tão exagerado? Bah, sei lá, se calhar porque já testemunhei desgraçados cairem mortos na rua e nenhum destes insectos de olhos multi-facetados sequer pestenejar e parar por um segundo para ajudar.
[Estás a falar de ti próprio, hmm?] --pergunta uma voz de criança.
-- Tu outra vez! Diabos me levem!
[Olá! Tiveste saudades minhas?]
-- Era só o que me faltava, o caraças do puto. Desanda, pá, eu tenho mais em que pensar...
[Nah. Não me apetece. Além do mais eu sei muito bem porque tu tás hoje todo chateado.]
-- Ai é? Esclarece-me então.
-- Oi! Não eram óculos quaisquer! Eram óculos COBRA dos anos 80!! E sem eles já nem posso chegar a uma velhinha caquéctica qualquer e gritar-lhe à Silvestre Estalada "YOU'RE THE DISEASE, I'M THE CURE!!"

[E então?]
-- Então, isto causa-me uma dor e um sofrimento incontrolável não puder gozar com ninguém. Como ter de beber um frasco de ácido sulfúrico e não puder cuspir na cara de quem me obrigou a fazer isso. Estás a topar??
[Sim, é realmente uma história muito trágica. Acho que vou chorar.]
-- Tu levas no focinho, ó meu gauxinim sarcástico!
[Eu sou só uma criança, não sei o que sarcasmo significa.] -- declara inocentemente o miúdo
-- Ah, ah. E que tal se eu te mandar para a meretriz que te pariu?
[E como é que tu vais fazer isso se sou um produto da tua imaginação?]
-- Aí está o busílis... Okay okay, já sei. Eu só devo precisar de pensar noutra coisa para te calares. É isso. Nada mais fácil. Deixa-me visualizar uma onda diferente dimensional.....
Ooooommm.... eu chamo o meu animal espiritual, Deus do Gelo, Dos Glaciares e Tempestades De Neve, eu invoco a tua força, a tua alma e a tua memória, salva-me dos meus demónios, guarda-me contra os elementos que me ferem, deixa o meu corpo tornar-se na tua forma, a tua vontade no meu propósito de vida. Faz-me nascer de novo do Ovo De Cristal e sair deste Inferno.
ooOOOmmm....
Um vento gélido levanta-se subitamente vindo do Sul, atravessa o meu corpo com uma ligeira pancada seca, um "pac" tímido e não acontece mais nada.
O silêncio.
-- Óptimo, estava outra vez só graças ao Deus Penguim.

-- E prontos, agora é só adormecer a minha abilidade por uns tempos.
-- fecho os olhos, cruzo as asas-barbatanas e abano-as de lado vigorosamente.
Quando voltei ao normal, e abri as minhas pálpebras de novo estava à minha frente uma velha caquéctica apoiada numa bengala a olhar esbugalhadamente para mim boquiaberta, toda a tremer.
Eu pensei em gritar-lhe logo na cara "YOU'RE THE DISEASE....." mas apercebi-me que já não parecia certo...
Não consigo explicar porquê... talvez tu consigas, se é que todo este Universo significa alguma coisa. Suspiro...
“There are some people who live in a dream world,
and there are some who face reality;
and then there are those who turn one into the other.”
D. H. Everett
