Sábado, Maio 22, 2010

A Sombra Mais Longa Do Campeão Desconhecido

É fácil maldizer a ambição grandiosa de alguém, como sendo uma paixão infantil, egoísta ou destruidora, porque não gostamos de aturar uma alma que procura horizontes bem mais vastos e intocáveis que nós próprios. Mas no entanto, quando nos confrontamos na rua com o mendigo proverbial perdido para o mundo, a única coisa que costumamos pensar é que um homem sem uma ambição verdadeira na vida não passa dum palhaço com um pé na cova.




Era mais uma noite peganhenta em Lisboa, encharcada dum calor humano que deixava a roupa colada à pele como uma alforreca comichosa, e ao mesmo tempo sentia-se sempre no ar um calafrio familiar de desencanto e solidão que gelava até aos ossos. Ela é tão friaaaaaaaaaaa.

Um contraste bipolar já habitual.

As ruas do Bairro Alto entulhavam-se das mesmas caras, desde miúdas de classe média alta, bem maquilhadas e envoltas em roupas de estilista a vomitarem-se no passeio entre lágrimas, até a drogados sem abrigo de quarenta anos a emborcarem alegremente garrafões de vinho nos patamares dos prédios enquanto têm grandes discussões sozinhos sobre o Benfica ser ou não o melhor clube do mundo. Era uma cena de comover o coração. Como se o álcool fosse o grande unificador social, e toda gente não passasse da mesma merda naquele breve momento de jarda completa. Mas ele perdoa seeeempre.

Um contraste até bastante cliché e nada de extraordinário eu sei.

Ao passar pelas ruas transversais mais isoladas encontro bandos de putos, ainda crianças basicamente de 12-14 anos já agarrados ao tabaco, e a mamarem litrosas, como se tivessem pressa pra crescer e esperassem que algo de muito fixe ocorresse quando se tornassem em adultos. Uma menina de cabelos castanhos e mini saia estava no meio deles, não devia ter mais de 13 anos, mas já estava a ser apalpada entre as pernas por um tipo mais romântico enquanto lhe sussurrava ao ouvido palavras pouco marotas. Aquilo era mesmo uma violação memorável à espera de acontecer. Andei mais à frente, e ao pé dum bar moderno, via-se uma mulher que já podia ser avó de alguém, de cinquenta e tal anos, cabelos, unhas e rosto todo pintados, a tentar meter conversa com um homem mais novo que tinha uma expressão cómica de desespero do género: “Com camandro, só me calha a isto na rifa. Precisava de gastar o Produto Interno Bruto Nacional em shots para enfiar-me na cama com isto.” Coitado nem sequer tem tesãaaaao.

O mesmo contraste geracional do costume... nada de notável, pronto...

Não sei, vim pra aqui para relaxar e distrair-me um bocado mas o que me apetecia mesmo é ir para outro sítio. E eu não estou a falar de Santos ou uma disco apertada qualquer. Mais longe do que isso. Desta cidade. Deste continente. Sabes, nunca te apeteceu um dia largar isto tudo, e fazer algo espontâneo como pegar nas malas e tomar o primeiro avião fora daqui? Para ir ver o nascer do sol nos planaltos verdejantes da Nova Zelândia, ou o sol a cair no horizonte entre as ondas do Oceano Pacífico na costa mexicana. Desde passear pelas selvas tropicais de Madágascar a ver miúdos descalços a jogar à bola na rua numa vila do interior do Brasil. Desde ter conversas interessantes com pescadores esquimós da Gronelândia, a beber uma infusão de peiote com um xamã navajo dentro duma tenda no deserto e finalmente encontrar-nos espiritualmente depois duma vida inteira à procura de nós próprios. (Ou pelo menos ver um dragão saxofonista em cima dum elefante branco em cima dum mota.)

E não é como se haja algo a impedir moi de viajar pra uma terra longínqua, felizmente não tenho responsibilidades, preocupações e ando sempre com alguns trocos. Mas ir sozinho apesar de ser uma grande aventura e de interagires com pessoas duma forma interessante e mais íntima, não é tão divertido como passear e andar na galhofa com um companheiro de viagem que tenha uma personalidade idiota igual à nossa. Como tu.

Mas considerando que nem um gelado vamos comer, não me parece que isso vá acontecer tão cedo. Aahh isto merece realmente um momento de contemplação melancólica tão profuuuunda.....

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Ah ok, já acabou.

Seja como for fui parar nesta noite a um bar pacato do Bairro. Estás a ver assim um lounge bar de luzes néon e música chill out com muitos betinhos e rapazes gays onde até te dão um menu lamechas com fotografias? Pronto, era o contrário disso. Encontrava-me num daqueles estabelecimentos à antiga, com uma cabeça de javali e azulejos caricaturais jocosos nas paredes, enquanto o barman é tipicamente um velhote gordo de bigode com um vozeirão que até um morto surdo acordava. Era daqueles sítios que qualquer mulher preocupada com a sua reputação fugiria assustada como se fosse uma infecção vaginal e tu nem bem paga punhas lá os pés. Uma tasca à sério para homens honestos como deve ser! (Ou não.)

Fogo, eu adorava esta espelunca.


Estava eu com um velho amigo, o Rapaz-Cromo, a termos uma velha conversa sobre o modo trágico como o Jimmy Hendrix bateu a bota, sufocado no seu próprio vomitado, e concluímos que não é realmente boa ideia beber sozinho, porque ninguém nos vira as costas se chegarmos a esse ponto. Se ele tivesse um amigo que lhe pussesse direito nessa noite ainda estava a fazer música e lançado albums lamechas nos últimos anos em que só a primeira faixa fica no ouvido.  


Ao final de meia hora entra na tasca mais um cliente anónimo. Um tipo de vinte anos e aspecto inofensivo vestido com um pólo desportivo e ténis. Ele chega-se ao balcão e pede ao barman uma cerveja sem álcool. O velho desata-se a rir.

-- Meu rapazola, não temos cá disso. Precisas é de algo com mais estaleca para fazer crescer-te a barba. Vais emborcar uma ginjinha ou uma bagaceira, hein?

-- Ah eu até não me importava, mas tenho uma competição de desporto segunda. Só posso descontrair mais depois disso.

-- Por isso mesmo um copito é que te punha rijo!

-- Pronto, então que seja uma imperial.

Ele bebe lentamente e fica sentado no balcão a matutar para si.

De repente um gajo já profundamente embriagado parte um copo e atira a cadeira para o chão no meio da tasca.

-- Essa grande puta. Já lhe vou mostrar. Vou lhe espancar a ela e a esse cabrão! Eu sou o marido dela. Ela não me pode fazer isso. Caralho! – e começa a gritar uma data de palavrões que não fazem muito sentido, enquanto dá pontapés descontrolados à mesa.

-- Acalma-te um bocado homem. Não é preciso partires a casa. A mobília não tem culpa da tua estupidez! – diz um cliente de meia idade meio irritado.

O bêbado não gostou do comentário e atira-lhe um murro que o mete no pavimento em dois segundos. O barman aproxima-se dele já todo chateado, mas via-se que tinha alguma hesitação em lidar com um gajo de 90 quilos tão frito da cabeça que nem devia sentir grande incómodo se levasse com um camião Tir em cima.

Então o rapazinho que estava sentado no balcão, levanta-se e vai ter com o arruaceiro.

-- Por favor, peço-lhe que deixe em estabelecimento e não arranje mais problemas. – limita-se a dizer muito calmamente para o bêbado.

-- Quem é que tu pensas que és puto? Metem-me os cornos e agora ainda me dizem para onde ir? Vai-te foder! – e prepara-se para atirar outro soco, só que o rapaz já estava preparado para isso, agarra-lhe no braço, torce-o e atira o matulão com um golpe eficiente para o lado. O bêbado não fica muito magoado, mas ganhou sobriedade suficiente para se levantar atordoado e deixar a tasca depressa a cuspir asneiras entre os dentes.

-- Bem jogado rapaz, lidaste com ele como um artista. Onde é que aprendeste a fazer isso? – pergunta o barman impressionado.

-- Hmm, não é nada de especial. Sou um praticante de judo.

-- Tens muito jeito. És um mestre!

-- Ah ah, nem perto, segunda feira, quando for para o torneio nacional, vou ter de lidar com grandes peritos muito mais fortes que eu.

-- Aaah, os nacionais, eh lá que temos aqui campeão!

-- Quem eu...? Eu não sou....

-- GRANDE CAMPEÃO! VAIS ARRASÁ-LOS TODOS! TENHO FÉ EM TI! – grita o barman para toda gente que estava na tasca. – Vem cá que eu ofereço-te uma rodada em tua honra rapaz. – o pessoal anima-se e exclama um viva entusiasmado para o jovem atleta.

O puto estava mesmo envergonhado com a atenção, era uma alma humilde, e ele acabou por sentar-se a um canto ao pé de nós, sorrindo muito e continuando a beber a sua cerveja.

E quando o gajo reparou em mim, tinha de vir falar comigo sobre artes marciais...

Porque pronto, todos os asiáticos sabem karate como é óbvio. É um daqueles esterótipos. Mais valia eu aprender qualquer coisa só para corresponder a essa expectativa.

À medida que eu ia conversando com o tipo sobre diferentes estilos de boxe, filmes do Jet Li, e sei lá mais o quê, típica conversa de gajos que provavelmente acharias uma seca, comecei a sentir qualquer coisa muito distinta nele. A ouvi-lo falar muito animadamente sobre os seus gostos, duma forma intensa e apaixonada, apercebi-me finalmente do quê... Ele era daquelas pessoas que andava sempre de cabeça levantada para o céu azul, com o mundo inteiro nos ombros e uma enorme esperança nos olhos.

É engraçado, eu nem acredito muito na ideia de Deus, pelo menos na versão do Velho Testamento dum cota de barbas vingativo e ciumento que anda a castigar e ditar leis como lhe apetece. Mas neste instante efémero da tua vida, em que alguém partilha contigo os seus sonhos e paixões tão honestamente, parece que neste pequeno espaço entre duas pessoas é que reside um bocado duma sombra quase divina. E é refrescante encontrar de vez em quando alguém assim nesta cidade decadente, torna a vida até bastante interessante. Acho que foi a mesma sensação que tive quando te conheci, e é por isso que eu nunca consegui esquecer-me de ti ao final destes anos...

Mais tarde ele olhou para o relógio e decidiu ir andando.

-- Bom, foi um prazer falar convosco. Tenho de ir. Ainda preciso de ir descansar amanhã. Adeus pessoal.

-- Eh pá fica bem man.

-- E ah, segunda feira se quiserem, podem ver-me na eurosport. Eles vão passar o torneio em directo.

-- Porreiro, eu tenho de ver isso. Eu prometo. – afirmei eu entusiasmado.

Ele desapareceu pela porta fora e uns minutos também bazei para tentar aproveitar o resto desta noite aborrecida.

Nunca cheguei a ver o gajo a lutar. Não sei porquê esqueci-me completamente... e tu? Também já te esqueceste dalguma promessa que fizeste?
 

Domingo, Maio 16, 2010

O Sono Inquieto Do Cisne Cromado

Bem, estava na casa de banho, no meu momento solene muito privado a ler um livro. Okay, eu sei o que os médicos dizem sobre isso, e como estar sentado muito tempo na sanita pode causar hemorróidas e outras complicações complicadas que dificultam a passagem livre dos ditos cujos, e que nem toda a fibra e bio iogurtes enfardados diariamente nos salvam dessa calamidade!

Mas eu sou daqueles cromos que só consegue ler na casa de banho, e não ia sair dali tão cedo porque estava entretidíssimo a absorver as pérolas de sabedoria dum manual que arranjei na feira da ladra....

“Curso Elementar Para Varões Sensíveis E Machistas Recuperáveis”


Aqui vai um excerto que googlei:

“O homem nasce livre e vêmo-lo por todo lado carregado de cadeias. É escravo da ideia que lhe inculcaram acerca daquilo que deve ser um homem. Os seus movimentos de aproximação relativamente aos outros homens e às mulheres vêem-se entorpecidos pelas cadeias do patriarcado. Mal o identificam como varão pelos seus órgãos genitais, doutrinam-no num conjunto de obrigações sem outro fundamento além do sexo que lhe tocou por acaso.

Prometem-lhe vir a ser um chefe, mas geralmente só consegue a chefia de uma mulher e de uns filhos cada vez mais lavandiscos. Em contrapartida, é perpetuamente chantageado por um modelo desmedido, paranóico, megalónamo daquilo que deve ser um autêntico homem, um grande homem. Alguns priveligiados, apoiados por factores externos como a riqueza e o poder, exercem uma masculinidade prepotente aborrecendo a vizinhança. Para a maioria dos varões, no entanto, o resultado é hoje apenas a angústia do frustrado ou a vaidade do insensato.

Todo o homem traz dentro de si o cadáver da criança sensível e brincalhona que o obrigaram a estrangular em nome da gloriosa corporação dos varões. Todo o homem traz ainda dentro de sí o gérmem de uma possível pessoa.”


Ia virando as páginas, e abanando a cabeça inconscientemente que nem um papagaio, concordando com a maior parte das observações do autor. E dizia para mim “Eu vou ser um machista recuperável!”

Subitamente, recebo então uma chamada, era uma colega que tinha uma peça de teatro a estrear esta noite e estava a convidar-me para ir, e eu como sou ao telefone, concordo sempre porque não tinha uma desculpa qualquer preparada como “tenho uma consulta com o meu veterinário ou coisa que o valha...” Fogo, nem neste momento íntimo de cagadeira, um homem tem paz. Não há direito! 

Estava sozinho em casa, apenas com a companhia do televisor ligado no quarto a passar o telejornal das 20.00. Como é habitual só davam as mesmas notícias de desgraças genéricas, vulcões, acidentes de camiões, subidas de impostos, o cabrão do papa a entupir o trabalho todo na função pública e a paralisar tudo... etc... e eu pergunto-me como é que seria ver um canal informativo que só passasse boas notícias. Será que não teria audiências nenhumas? Estilo Baby TV, que a malta só apanha às quatro da madrugada quando chega a casa com uma tosga do camandro e começa a filosofar que merda é que é aquilo, quem sou eu, e o que estou aqui a fazer aqui ao certo?

Continuando a folhear o livro enquanto não presto atenção às notícias, de repente ouço alguém a ser entrevistado na rua. Eu reconheci logo aquela voz lamechas e enjoada e senti qualquer coisa a bater dentro de mim. Oh man, não podia ser... Levantei-me num salto da sanita e corri para o quarto. Agarrei os olhos ao televisor e procurei-te mas já o segmento tinha cortado para o apresentador. Okay, eu tinha a noção que era uma coincidência demasiado rebuscada a pessoa que falou seres tu, e ri-me forçadamente, mas mesmo assim eu fiquei ainda à espera de te ver outra vez, fazendo zapping pelos canais como um puto hiperactivo com déficite de atenção.

Só quando olhei lá fora, reparei que estava à janela uma mulher no último andar a fumar à janela. Ela estava fixada na minha direcção, e eu lembrei-me então que tinha as luzes ligadas e as calças para baixo com um estilo e dignidade absolutamente fora de série. Fixe, isto vai para o décimo quinto lugar no top pessoal de momentos embaraçosos da vida do Sr. Cromado.

AAaaaahhhhhhh, apaguei as luzes imediatamente e fui terminar o assunto, rezando para que ela não tivesse visto nada.

Mais tarde, saí de casa para ir lá ver a peça de teatro da Rapariga Artista que tinha andado a convidar impetuosamente toda gente (ou seja a chatear-nos a cabeça até dizermos sim). Eu lá fui me sentar num dos bancos da fila de trás do auditório, juntamente com mais uns amigos estúpidos com quem é sempre engraçado conversar e fiquei à espera que as luzes se apagassem.


O que eu mais gosto no teatro é este momento de antecipação do espectáculo, este burburinho de boas vibrações no ar, o nervosismo e ansiedade disciplinada nos actores, o público a sentar-se enquanto  tem conversas fáceis até ao abrir da cortina. E depois não há nada mais catita que pudermos imergir a nossa consciência durante duas horas num simples palco em que umas quantas pessoas nos fazem acreditar completamente num mundo inteiro de fazer de conta.  
Acho que é uma das últimas acções profundamente sinceras que as pessoas adultas fazem umas às outras. E sabe bem para variar das merdas e mentiras que temos de aturar na vida quotidiana dia após dia.

Quando a peça finalmente começou, acabei por adormecer que nem um camelo narcoléptico passada meia hora. E não foi por mal, eu tentei manter-me acordado, mas era uma daquelas peças pós-modernas com pessoas em fatos de animais estilizados que falavam sobre sentimentos humanos e um texto estranho traduzido do alemão todo pós freudiano, coberto de teoria Gestalt, Würstschen e o raio que o parta, que era tão cerebral que me passava completamente ao lado... Merda, sou mesmo um porco filisteu inculto...!

Só acordei lá para o fim da peça, quando começou a passar o “Quizás, Quizás” do Nat King Cole nas colunas do auditório.




E em palco encontrava-se uma miúda vestida de princesa cisne a morrer nos braços dum príncipe falcão por quem estava apaixonada. Ela sussurra-lhe com uma expressão meiga de alegria amarga. 

-- Tudo o que temos na vida são maus sonhos e sonhos ainda piores... sabes como é, os pesadelos nem são assim tão insuportáveis quanto isso, no máximo passamos a noite a ranger os dentes, às vezes arrancamos um bocado da nossa carne, ou ficamos com marcas ensanguentadas por fecharmos as mãos com tanta força durante noites inteiras estufadas com suores frios. Mas tudo isso é vento e poeira quando acordamos para a realidade, e o que resta no nosso peito é uma sensação de alívio aquecido.

O falcão põe as garras em cima do decote dela muito sugestivamente, enquanto ela continua a falar meio a sorrir e a tossir de dor.

-- Agora quanto aos sonhos verdadeiramente horríveis... esses são os sonhos bons. De esperança. De alegrias passadas. E os nossos corações não foram feitos para aguentar muitos mais desses....

-- Sim. Não foram. Boa noite, minha doce princesa. Boa noite.
– diz finalmente o falcão duma forma cruel e mata o cisne, cobrindo-o com a sua capa. As luzes apagam-se e o público aplaude atenciosamente quando os actores voltam todos a aparecer.

Eu fico muito atordoado com tudo isto e nem sei sequer o que dizer.

Fónix. Que fritanço.

Fui então para o lobby de entrada do teatro, e fiquei à espera da minha colega para a congratular da sua perfomance. Que eu por acaso não me lembrava dela para ser sincero. Hmmm....

-- Então gostaste da peça? – pergunta a Rapariga Artista quando sai dos bastiadores já vestida normalmente.

-- Ah sim, foi... huh... diferente.

-- Pá, não estejas com cenas politicamente correctas. Diz lá a verdade!

-- Ok, pronto não é bem o meu género de história...

-- Mas gostastes do meu papel ao menos? Eu era a Pomba Vagabunda. Esforcei-me tanto. – ela gesticulava sempre imenso quando falava. E eu estava a tentar fazer que ela não falasse muito e entrasse num monólogo maluco.

-- Sim claro, tavas muito bem. – menti eu entredentes.

-- Ai é? E o que é que achaste? Enganei-me ali numa linha. Viste? Parecia uma Pomba Badalhoca.

-- .... All right eu admito, adormeci a meio da peça. Sorry.

-- Bah, és mesmo um gajo insensível. Não tens maturidade nenhuma nessa cabeça.

-- Quem eu?

-- Vai lá mas é ver os teus filmes de super heróis e de porrada!

-- Bem que estereótipo confortável em que me metes. Eu posso ser um machista em recuperação, mas não quer dizer que só aprecie cenas com testosterona e explosões. Sou mais que isso, e também tenho simplesmente os meus gostos pessoais como toda gente. – discuti eu quase revoltado, mexendo muito os braços.

-- Pois, pois, só quando tiveres mais experiência de vida, é que és capaz de apreciar uma boa peça de teatro! Ah ah.

-- Tretas.

-- A sério, como nunca ninguém te partiu verdadeiramente o coração e te fez perder o sono à noite, não tens palavra na matéria, né?

-- Bah, whatever. – comentei eu meio chateado. Estava a aturar a Rapariga Artista quando vejo através da porta de vidro uma miúda de boina na rua a passar com um tipo. Era mesmo parecida contigo, mas desta vez eu tinha a certeza que não eras tu. Encontrar-te aqui num teatro independente duma peça obscura numa sexta à noite era.... Exacto. Tão improvável como ver-te num grupo de apoio para doentes de impotência sexual. Farto disto tudo, despedi-me da minha colega, vesti o meu casaco e decidi bazar para um copo com os amigos antes de ir para casa.

Nessa noite acordei com suores frios às caneladas com a parede.

Terça-feira, Maio 11, 2010

Sandman, And A Life That Isn't Your Own Anymore


Há uns tempos atrás estava a ler uma das novelas gráficas mais bem recebidas dos anos 90, "The Sandman", que são basicamente histórias sobre o Deus Do Sono que vive num mundo feito a partir dos sonhos de todos os seres vivos e as relações que ele tem com os sonhadores desde que o Universo foi criado. E a meio do livro aparecia a personagem de Rose Walker, uma miúda insensível e ao mesmo tempo muito atormentada duma forma algo dramática, que dizia coisas bastante irritantes:     

“Have you ever been in love? Horrible isn't it? It makes you so vulnerable. It opens your chest and it opens up your heart and it means that someone can get inside you and mess you up. You build up all these defenses, you build up a whole suit of armor, so that nothing can hurt you, then one stupid person, no different from any other stupid person, wanders into your stupid life...You give them a piece of you. They didn't ask for it. They did something dumb one day, like kiss you or smile at you, and then your life isn't your own anymore. Love takes hostages. It gets inside you. It eats you out and leaves you crying in the darkness, so simple a phrase like 'maybe we should be just friends' turns into a glass splinter working its way into your heart. It hurts. Not just in the imagination. Not just in the mind. It's a soul-hurt, a real gets-inside-you-and-rips-you-apart pain. I hate love.”

Na ficção quando encontramos personagens destas, a primeira coisa que desejamos é torcer para que lhe caia um piano em cima e deixe de atrapalhar o ritmo da narrativa. Mas o que fazes verdadeiramente quando encontras uma pessoa destas na realidade, hmm? 

Diz-me.... porque eu não tenho a puta da menor ideia...














Quarta-feira, Maio 05, 2010

Pétalas Dum Pretérito Perfeito

Estava a arrumar as minhas roupas de Inverno no armário, e fui revistando os bolsos dos casacos e das calças porque despassarado como sou costumo sempre deixar montes de euros, pacotes de bolachas belgas desfeitas e tralha espalhada por aí... acho que começo a perceber o motivo prático pelo qual as mulheres levam sempre a casa atrás numa mala pesadíssima, mas acho que se usasse uma daquelas jocosas bolsas de homem, o meu nível de masculinidade era seriamente afectado.


                                      Manpurse!

E ele já não era grande coisa desde o dia em que as minhas colegas de faculdade repararam que eu tinha boxers da Louis Vitton por baixo. Ahem, eu ainda tentei explicar que só podia ter sido a minha mami que comprou e meteu discretamente nas minhas gavetas sem me dizer nada, mas elas começaram a rir que nem umas desalmadas e vi que só estava a enterrar-me mais... baaah....


Quando peguei no meu último casaco que restava, encontrei qualquer coisa estranha num dos bolsos de dentro junto ao coração. Deixei cair pelo chão uma chuva de fragmentos de papéis pretos, um punhado deles, e que tinham um certo tom vermelho escuro sob a luz do sol que entrava pela janela. Mas o que era esta merda pá? Vasculhei o bolso melhor e reparei num caule ressequido duma planta, e apercebi-me então que aquilo foi outrora uma rosa.


Pensei durante um bocado todo atordoado da cabeça, porque é que eu tinha guardado uma rosa dentro do casaco? Não faz sentido. Tinha morrido há tanto tempo que as pétalas tinham-se tornado em pó quase. E foi nesse momento que me bateu a recordação dela, e as memórias associadas vieram todas atrás como uma inundação de esgoto tão enorme que até crocodilos e caranguejos trazia.

Tinha sido há dois ou três anos atrás, num dia solarengo de Primavera, em que eu estava completamente livre sem nenhum trabalhos ou obrigação por fazer, e sem a mínima preocupação na consciência. Realmente este estado de espírito durante a fase adulta é o mais próximo que se pode chamar de felicidade... apreciar um belo dia de folga como se fosse o último. Estava a passear pelo meu bairro, ainda a considerar se ia ao cinema ver uma sessão especial do “Antes do Anoitecer”, ir cortar o cabelo num cabeleireiro clandestino chinês do Martim Moniz ou simplesmente perder-me nos spots do costume da malta até encontrar uma cara conhecida e cravar-lhe um lanche grátis. Ah tantas escolhas e tão pouco tempo!

Enquanto matutava nestes dilemas tão profundos passo na rua onde fica a florista de Telheiras. A senhora de aspecto alegre que estava a arrumar os vasos de orquídeas cá fora repara em mim e cumprimenta-me.

-- Olá, boas tardes!

-- Hmm... boa tarde... – retorqui eu automaticamente sem saber porquê.

-- Há muito tempo que não o via por aqui. Ainda anda a falar com aquela menina do lado?

Fiquei a olhar para ela um bocado estupefacto por se recordar ainda da minha cara.

-- Isso já foi há muito tempo. Nem me lembrava dela.

-- É caricato, mas o jovem por alguma razão ficou-me na memória.

-- A sério?

-- Sim, pode acreditar. É que todas as pessoas que vêem à loja, têm sempre um motivo qualquer por detrás... Para pedir desculpas por asneiras que fizerem, para engatarem uma alma mais romântica, para celebrar ou chorar uma data pessoal....

-- Ou para fingir aos colegas de trabalho que são amadas quando enviam flores a si próprias no dia dos namorados...

-- Ah ah isso acontece com muita frequência mesmo. Uma em cada dez mulheres com carreira pede-me isso. É trágico! Seja como for, o senhor pareceu-me uma excepção à regra, porque era daqueles raros clientes que não tinham quaisquer segundas intenções. Dava flores só porque lhe apetecia. Porque achava piada à cor dos lírios e tal.

-- Mas donde é que veio essa ideia estranha? A senhora nem me conhece.

-- Eu digo isto, porque inventou aí uma grande história para que eu nunca revelasse o seu nome à menina. Achei graça. Nunca vi ninguém tão desajeitado a mentir.

-- Bah. Preferia que ela nunca tivesse descoberto no fim. Não trouxe nada de bom.

-- Não diga isso, eu acho que vocês podiam se dar lindamente. Porque é que não lhe oferece umas orquídeas frescas? Ela ia gostar.

Esta mulher estava a chatear-me um bocado. Não só porque acho sempre surreal quando uma pessoa desconhecida parece saber mais da nossa vida do que nós próprios, mas ainda nos dá conselhos sobre o que fazer com ela! Sinceramente! Toda gente quer ser a Oprah porra!

-- Nah, eu odeio flores para ser sincero. Qual é o interesse? Morrem passados uns dias. – retorqui eu dum modo muito cínico e racional.

Ela ri-se e pega numa rosa.

-- Claro, claro. Mas está a ver esta rosa? Pode olhar para ela e considerar que vale tanto como a palavra que a significa. Uma ideia ao qual atribuímos uma importância simbólica qualquer nas nossas cabeças, tal e qual como fazemos com tudo no mundo. Ou pode aprecia-la simplesmente pelo que é. E precisamente por durar apenas um momento, e por ter tantos espinhos, é onde reside a sua beleza. Um bocadinho como o amor e a própria Vida, não acha?

Bem eu não sei o que esta florista anda a pensar à noite, mas é pior que a minha professora de Artes e Estética da faculdade com os seus devaneios tão intelectuais que dão a volta e tornam-se mais ridículos que comentários de miúdos do ensino especial.

-- A senhora tem bastante genica para puxar pela sua sardinha. Mas eu hoje não vou mesmo comprar nada.

-- Ah, homem. Leve lá esta rosa, para não se esquecer do que é mesmo importante.

Eu aceitei aquilo só para ela deixar-me em paz, e puder desamparar a loja. Fogo, estava tão contente com o meu dia e de repente fiquei agora um bocado em baixo. Puta que a pariu. Saí de Telheiras e meti-me no metro sem saber para onde ir, absorto completamente nos meus pensamentos desfasados. Na estação ecoava das colunas uma música do grande cocainado Rick James. Não me estava a acalmar nada.


Quando dei por mim, encontrava-me ao pé da tua casa. Oh caneco como é que raios eu vim parar a este sítio? Okay vou bazar daqui, este bairro é uma grande seca. E foi então que te vi a sair da porta do prédio, do outro lado da rua. Tinhas sempre aquele ar característico duma eterna miúda cabeça no ar que não sabe muito bem o que está a fazer, apesar de disfarçares bastante tentando vestir-te sobriamente como uma adulta responsável e com uns retoques de maquilhagem a mais. É por isso que eu mal consigo conter o riso sempre que via a tua fronha, porque parece que vais ser daquelas pessoas que vai passar de pita idiota logo a velhota sábia, e nunca atravessar a dor de corno que é ser uma mulher. Ou não ou não, sabe-se lá o que futuro pode trazer...

Bem, pior que eu não vais ser, quando chegar à terceira idade vou me tornar numa ameaça social mal comportada, daqueles velhos mais chatos que as crianças e batem com a bengala no crânio desses jovens imundos sem moral!

Enfim, estava ali na rua, e não me apetecia muito aturar-te, mas já que tinha dado este passeio até aqui podia dizer-te olá antes de me ir divertir com os suspeitos do costume. Subitamente toca o telemóvel, tu atendes toda contente e estavas de costas para mim quando ouço a tua voz quase em êxtase por falares com o amor da tua vida do outro lado. Tive um clarão de lucidez pouco habitual, e sorri. Era inconsequente se isso era verdade ou mentira, o facto é que me apercebi que provavelmente sofria da mesma ilusão... o que é bastante irónico no fundo, porque sempre me fartei de gozar com as pessoas que me chamavam esse exagero vulgarizado.

Pus-me a andar dali antes que me visses e me chateasses o juízo. Estava mesmo um sábado de Primavera prazenteiro.
Meti a rosa dentro do casaco, pus as mãos atrás das costas e desapareci por entre as ruas da cidade. A última coisa que me recordo desse dia é dum velho black de fato, chapéu e óculos escuros a cruzar por mim enquanto passeava o cão.

Abri os olhos e acordei no meu quarto atordoado como o costume. Fiquei incrédulo por ter sido só mais um sonho. Foi mesmo demasiado vívido e realista para o meu gosto. Fitei então o armário e decidi revistar as minhas roupas, mas não encontrei nada a não ser lenços velhos e bilhetes de metro. Até que num dos casacos que eu não vestia há meses, toquei em qualquer coisa elástica e ligeiramente esponjosa. Tirei aquilo para examinar melhor e deparo-me com um preservativo usado todo ressequido e amarelado. Que insólito, porque é que eu tinha guardado aquilo? Puxei pelos miolos para tentar descobrir a origem do dito cujo, e tive um flashback bastante elucidativo.

Há uns tempos atrás, um amigo meu tinha pedido as chaves do meu loft para estar com uma miúda impecável, e mesmo sabendo que ele ia partir-lhe o coração e o rabiosque, dei-lhe as chaves claro, porque sou um tipo porreiro e facilito sempre as quecas dos amigos. É uma questão de princípios! Só que uns dias depois tive de fazer um trabalho com uma colega da faculdade, e por isso fomos para o meu loft, e quando encontro um preservativo usado no sofá... vi logo que linguareira como era ia logo fazer comentários engraçados e espalhar rumores sobre moi...

“Ele usa boxers duvidosos e leva-me para o seu loft onde tem grandes orgias homossexuais e ainda se atira a mim porque está muito confuso!”

Por isso num relâmpago escondi aquilo no bolso.

De volta ao presente, olhei para o preservativo que segurava ao pé da cara e gritei...! Aaaaaaaaaaaaaaahhh..... Deitei o coiso fora e fui tomar banho. Sinto-me tão sujo!!! Com catano, quase que desejei que o meu sonho tivesse sido a sério em vez disto. A realidade consegue ser sempre mais decadente do que as situações embaraçosas que o nosso subconsciente possa inventar, não achas? Ou será que nenhuma das histórias foi bem uma mentira? Bah, o que é que isso interessa?

Terça-feira, Abril 27, 2010

Visões Incomodativas A 10000 Metros De Altitude

Há 13 meses atrás:


O ar condicionado reciclado dentro da cabine estava a dar-me algumas dores de cabeça. Enquanto que a diferença da pressão atmosférica torturava-me os ouvidos mesmo depois de mascar meio pacote de pastilha elástica. A bebé a chorar que nem uma desalmada na fila detrás berrava tanto que as únicas alturas em que parava era quando se engasgava periodicamente com a sua própria saliva. Senti pena pela mãe de vinte e tal anos que viajava sozinha. Não vi nenhuma aliança na mão dela. Provavelmente foi convencida por um malandro qualquer que seria romântico vir-se dentro dela sem preservativo. As coisas legítimas e parvas que toda gente faz por amor, não é?
Hmm, ou então estava metida com um tipo do qual não conseguia fazer um homem honesto que tivesse a decência de se casar com a miúda para depois puder divorciar-se e ficar com metade do dinheiro. É por isso que existe apenas um bom conselho de duas palavras para futuros noivos que resolveria muitas dores de cabeça: Acordo Pré-Nupcial
“Se gostas verdadeiramente de mim, deixas-me ficar com tudo!”

O ecrã minúsculo incorporado no banco à minha estava a passar pela quinta vez o “Mamma Mia”, e ver a Meryl Streep a cantar Abba só uma única vez, são já realmente demasiadas vezes para o meu gosto. Mesmo que me tivesse tornado no tipo mais gay de Telheiras, vestisse sempre roupa interior apertada de latéx e comprasse todos os anos calendários de bombeiros em fato de banho.
A assistente de bordo passa por entre as fileiras de passageiros empurrando o carrinho de bebidas. Era uma mulher quarentona de ar cansado, com uma máscara permanente de maquilhagem plástica que não disfarçavam a desilusão resignada nos olhos dela, carregando um fardo de quem já viajou mais de dez milhões de quilómetros, a distância de trinta viagens à lua e no entanto nunca se sentiu que foi a algum lado na vida. Ou isso ou simplesmente estava com uma jarda imensa da noite anterior.
Ela pergunta-me o que eu quero beber num tom monocórdico.

-- Eu quero a bebida mais exótica que ai tiver! – peço eu alegremente.
-- Não temos nada parecido, só sumo de laranja, coca cola ou água. – acho que ela estava sem paciência para certos cromos como moi.
-- Awhh... e que tal qualquer coisa com álcool para fazer o tempo passar mais depressa?
-- Não servimos bebidas alcóolicas na classe económica. – retorque ela carrancuda sem olhar para mim.
-- Então, por favor, abra aí uma pequena excepção para este pobre e indigente rapaz que não tem nada!
-- Lamento mas não posso fazer isso. É contra o regulamento. – limita-se ela a dizer. Eu não sei se isso era mesmo uma regra ou se era porque ela não ia com a minha cara, mas acabei por pedir água e deixá-la ir.

Fogo, merda pra esta transportadora nacional, que saudades das assistentes francesas e escandinavas, tão lourinhas, frescas e que não nos olham condescendentemente. Porque até o champanhe ou vinho mais rasca torna-se uma delícia quando é servido com um sorriso caloroso.
Entediado com este vôo de regresso a Portugal com mais de 8 horas, pus os meus fones, e afundei-me na minha playlist tripada para viagens intermináveis, enquanto que observava a vista através da janela.


A atmosfera nocturna lá fora tinha um aspecto irreal, um quadro abstracto de tons fúnebres que me sugava o olhar e consumia a alma. Por entre as nuvens completamente negras, via-se só no meio um horizonte de céu azul escuro que ainda apanhava um resquício de sol nesta rotação da terra, um último gemido de esperança do dia que se já foi. A olhar lá para fora, senti-me a afundar-me num abismo de 10000 metros de profundidade, e a temperatura do meu peito a descer para níveis gélidos...


Ah fogo, se calhar não estava realmente meio em baixo por causa do cenário soturno lá fora, nem sequer porque estava a deixar o calor escaldante do Brasil para voltar ao clima cinzento da ocidental praia lusitana. Mas mais por aperceber-me que independentemente do continente que fosse, ou das gargalhadas incontáveis partilhadas com outras pessoas, as saudades duma certa bimba que por alguma razão considerava especial teimavam em deixar-me sossegado. É uma grande dor no rabo quando nos damos conta da futilidade de todas as nossas acções para alcançarmos uma noite bem dormida, quer dizer, deve haver algum solução prática para resolver isto facilmente, não é? Talvez hipnose ou fazer uns buracos medicinais no crânio, sei lá. Qual é o teu truque pessoal, huh? Conta-me! A sério! Pára de estar tão calada! Bem, enfim, acho que posso sempre tomar dois Ambiens e ferrar um sono justo.

Gradualmente as assistentes foram distribuindo cobertores e almofadas, as janelas todas corridas, e as luzes da cabine apagando-se uma a uma, excepto a da mãe trintona que estava a ler absorta um romance lamechas com vampiros adolescentes. Ai, Edward, és tão bonito! Gostava tanto de ter um amor como tu! Bebe o meu sangue e possuí-me!
Pairava um silêncio humano profundo, penetrado apenas pelo murmurar obssessivo dos motores a jacto, como se o tempo estivesse parado, e tivéssemos entrado numa nuvem de turbulência que ia dar a uma dimensão paralela, onde as pessoas se tornavam todas em estátuas impotentes cheias de sonhos que não podiam realizar.

Caminhava aos tropeções para um estranho estado de ansiedade e desconforto mental tão familiar nestes últimos anos... não consigo mesmo escapar de mim próprio... Ok existe um bom remédio para isso. Bolachinhas de bacon... tão boas e estaladiças que fazem um coração dum homem a sério chorar por dentro de alegria! Tirei um pacote que tinha na mala e abri-o todo esfaimado. Mas era uma daquelas embalagens que por muito cuidado tivesse, fazia um estardalhaço do camandro no silêncio do avião, e a velha de fato treino que estava a dormitar na fila ao lado, lançava-me uns olhares de querer arrancar-me os meus testículos, passá-los numa trituradora ergonómica e ultra eficiente que comprou nas televendas, e depois alimentá-los aos gatos persas. Ah, os meus pobres tomates!!

Voltei depois para as minhas tentativas em adormecer, mas não parava de me revolver no meu banco, como uma salsicha num espeto, realmente, dormir sentado com dores de pescoço é um nível de inferno muito especial. Ouço de repente alguém a passar por mim, abro os olhos meio fatigado e vejo uma mulher vestida de preto a descer o corredor do avião. Eu reconhecia aquele andar desajeitado e marreco em qualquer lado. Não podia ser... A sério que não. O que é que estarias tu a fazer aqui? Pronto, reflecti eu, podias estar a voltar dumas férias bem passadas lá fora e por coincidência encontrares-te no mesmo avião... É improvável mas não é impossível. E é o género de coisas que está sempre a acontecer em filmes muito maus em que o público bate com a mão na testa quando vê cenas destas.

All right, só havia uma acção a tomar para deixar-me descansado, levantei-me do meu lugar e fui certificar-me se eras mesmo tu. A mulher desapareceu por entre os cortinados que iam dar à secção da primeira classe, e eu não fiz-me de rogado e fui atrás dela. Não havia ninguém de pé, por isso procurei-a em todos os lugares dos passageiros, mas além de homens de negócios quarentões a dormirem de boca aberta e velhotes de aspecto endinheirado não havia mais ninguém. Fiquei aturdido.... eu podia jurar que ela tinha vindo para aqui...

-- Desculpe-me, posso ajudá-lo? – pergunta-me uma assistente que estava a observar-me muito desconfiada como se eu fosse um terrorista maluco com uma bomba enorme dentro das calças.
-- Ah, estava à procura de uma rapariga que veio para aqui há um minuto.
-- Não entrou ninguém além de o senhor.
-- Ok ok, esqueça lá isso, deve ter sido só impressão minha. – disse eu conformado.

Voltei para o meu lugar, suspirei, esperando impacientemente que a viagem terminasse para voltar à minha casinha em Telheiras. Sabendo que provavelmente ia avistar-te outra vez em cada esquina, cada loja, bar de strip ou tasca rasca. Em todo o lado. Todos os dias. Que imbróglio do catano. É por isso que não sentia mesmo muita falta de Portugal, não tenho nada aqui à minha espera... Nem sequer um cão labrador ou um cágado chamado Bibi.

O comandante pediu para apertar os cintos, lá em baixo via-se já os telhados de Lisboa, recortados por um emaranhado de ruas pontuadas por luzes nocturnas e faróis de carros.

E sabes uma coisa? Digam o quiserem do Brasil, local com imensa criminalidade nas grandes cidades, falta de consciência ambiental e problemas de corrupção, mas ainda assim quando o avião atravessa o oceano e começa a sobrevoar terras de Vera Cruz, a malta não pára de assobiar durante meia hora entre salvas de palmas, e grita coisas como: É isso aí, estamos chegando à nossa santa terra, galera! Finalmente! Aleluia! Estava morrendo de saudades.

Quando o avião aterrou no aeroporto, ninguém sequer aplaudiu o bom trabalho do piloto.

Eu comecei a bater palmas lentamente... Por alguma razão até me sentia contente no fundo com isto tudo, mas parei logo a seguir porque fiquei com vergonha por ser o único totó a fazer isso... ah ah... e tu o que é que farias?